Leitura cura

Pintura de Paul Cézanne – Paul Alexis lendo um manuscrito para o escritor Emile Zola

Médicos brasileiros estão adotando uma prática conhecida internacionalmente como “prescrição social”. Segundo matéria do jornal FSP, a prática se baseia no fato de que “muitos pacientes têm fragilidades e condições que afetam a saúde mas que não respondem totalmente às abordagens médicas clássicas, como a prescrição de remédios”. Para esses casos, os profissionais de saúde estão receitando livros e atividades físicas e lúdicas para aliviar quadros de tristeza, ansiedade, insônia e até demência.

Entre os “livros receitados” estão “O Demônio do Meio Dia”, de Andrew Solomon, e “Sidarta”, de Hermann Hesse, para uma paciente com depressão; “Sermões de Quarta-Feira de Cinzas”, do padre Antonio Vieira que abordam a importância da morte na vida humana; “A Sutil Arte de Ligar o F*da-Se: Uma Estratégia Inusitada Para uma Vida Melhor”, de Mark Manson, para adolescentes e “Arte da Guerra”, de Sun Tzu, para lidar com os problemas do dia a dia de forma prática. A matéria cita ainda obras da escritora Djamila Ribeiro “O Que É Lugar de Fala” e “Quem Tem Medo do Feminismo Negro”, prescritas como tratamento complementar a um paciente deprimido.

Top ten do Nelson

Abaixo seleção de “máximas” (algumas atualíssimas) do teatrólogo, contista, romancista, jornalista, cronista e genial frasista Nelson Rodrigues, nascido há 107 anos, no dia 23 de agosto de 1912, na cidade do Recife, e falecido em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, no Rio de Janeiro.

“Amar é dar razão a quem não tem”

“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”

“Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo”

“Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra”

“O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade”

“O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca”

“O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe”

“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”

Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos

“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”

Segundo Schopenhauer

Jean-Michel Basquiat em foto de James van der Zee

“A piedade, princípio de toda a moralidade, toma também os animais sob a sua proteção, ao passo que nos outros sistemas de moral européia, têm para com ele pouquíssima responsabilidade e solicitude. A suposta ausência de direito dos animais, o preconceito de que o nosso procedimento para com eles não tem importância moral, que não existem, como se diz, deveres para com os animais, é justamente uma ignorância revoltante, uma barbaridade do Ocidente, cuja origem está no Judaismo…

É preciso recordar, a esses desprezadores dos animais, a esses ocidentais judaizados, que assim como eles foram amamentados pelas mães, também o cão teve mãe que o amamentou.

A piedade com os animais está tão intimamente ligada com a bondade de caráter, que se pode afirmar que quem é cruel com os animais não pode ser bom.”

Do livro “Dores do Mundo”, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), em edição da Ediouro.

Cânfora e champanhe na saída

Anton sentou-se extraordinariamente ereto e disse em voz alta e clara (embora ele não soubesse quase nada de alemão): Ich sterbe (“Estou morrendo”). O médico acalmou-o, pegou uma seringa, deu-lhe uma injeção de cânfora, e pediu champanhe. Anton tomou um copo cheio, examinou-o, sorriu para mim e disse: ‘Fazia um bom tempo que não bebia um copo de champanhe.’ Ele bebeu, e inclinou-se suavemente para esquerda, e eu só tive tempo de correr em sua direção e de colocá-lo na cama e chamá-lo, mas ele tinha parado de respirar e estava dormindo tranquilamente como uma criança…“.

Relato de Olga Knipper sobre os últimos momentos de vida do seu marido, o escritor russo Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904).

Comentados no “Aliás”

Quatro lançamentos abordados em artigos do “Aliás”, do jornal O Estado de SP, do último final de semana. Dois sobre a formação de bibliotecas ao longo dos séculos, outros dois sobre a solidão e a nova edição de um clássico da literatura brasileira, de 1895 e considerado o primeiro romance gay do país.

“História das Bibliotecas: de Alexandria às Bibliotecas Virtuais”, Frédéric Barbier – Edusp

“A Biblioteca: uma História Mundial”, James W.P. Campbell e Will Pryce – Edições Sesc

“História da Solidão e dos Solitários”, George Minois – Unesp

“Bom Crioulo”, Adolfo Caminha – Todavia