Paroles de Prévert

jprev

Jacques Prévert (1900-1977), nascido em Neuilly-sur-Seine, foi um poeta, roteirista e letrista muito popular na França. Em 1925 participou do movimento surrealista ao lado de Marcel Duhamel, Raymond Queneau e Yves Tanguy e escreveu o roteiro de vários filmes considerados obras-primas do realismo francês – Hotel du Nord e Les Enfants du Paradis, entre eles. Sua primeira coletânea de poesias, “Paroles”, foi publicada em 1946.

O discurso sobre a paz

No final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado, estrebuchante
com uma bela frase furada
fica hesitante
e desampara a bocarra escancarada
resfolegante
mostra os dentes
e a cárie dentária de seu raciocínio pacificante
deixa exposto o nervo da guerra
a delicada questão do montante.

Le discours sur la paix

Vers la fin d’un discours extrêmement important
le grand homme d’Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre
la délicate question d’argent.

Clarice é invisível a olho nu

Para celebrar o aniversário de Clarice Lispector, o Instituto Moreira Salles produziu, em 2015, o filme “O ovo, Clarice e a galinha”, com direção dos poetas Eucanaã Ferraz e Laura Liuzzi.  O texto “O ovo e a galinha”, apresentado no vídeo, foi lido no Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria realizado em Bogotá, em 1975, e que tinha Clarice entre os convidados. Uma história surreal e um texto, que segundo a própria escritora é o único assinado por ela que nem ela própria entendeu, narrado por pessoas da equipe de profissionais do próprio IMS e convidados.

 

O bicentenário do monstro

Frankenstein-566168

Frankenstein

Considerada a primeira obra de ficção da história, Frankenstein está fazendo 200 anos. O livro de Mary Shelley (1797-1851) foi lançado pela editora britânica Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones em 1818. O romance de terror gótico que virou um clássico da literatura mundial foi escrito por Shelley quando ela tinha apenas 19 anos e, dois séculos depois, continua influenciando toda a cultura popular ocidental.

Frankenstein or the Modern Prometheus, no original em inglês, teria surgido de uma espécie de disputa entre Shelley, seu marido Percy (uma história de amor à primeira vista iniciada na livraria do pai de Mary), a meia-irmã Claire Clairmont e George Gordon Byron (Lord Byron), amigo de Shelley e amante de Claire. Era 1816 e naquele “ano sem verão”, o grupo estava em viagem de férias na Suíça. Aprisionados em casa pelas inesperadas tempestades, a atividade predileta do grupo era ler histórias de fantasmas à luz de velas. Foi numa dessas sessões que Byron desafiou cada um a inventar sua própria história. De uma tacada sairam duas  que iriam influenciar toda a cultura ocidental nos séculos seguintes.

Fazia parte do grupo também o médico e escritor John William Polidori, hóspede de Byron que participava das conversas em volta da lareira e que foi quem teve êxito mais rapidamente. Criou um conto inteiro – “The Vampyre”, que apresentou pela primeira vez a personagem literária do vampiro tal e qual como a conhecemos hoje em dia.

Mary, por sua vez, incapaz inicialmente de “apresentar uma ideia” ao grupo, depois de uma noitada de discussões sobre doutrinas filosóficas,  tem enfim a inspiração para sua história. “Aconteceu numa noite sombria de novembro…um jovem estudante de medicina, Victor Frankenstein, decide criar um monstro a partir de cadáveres que roubava de cemitérios e hospitais. Graças a uma máquina por ele criada, consegue dar vida ao ser, que depois se revolta contra a sua triste condição, perseguindo o seu criador até à morte.” Incentivada pelo marido a desenvolver a história,  dois anos depois ela lançava seu Frankenstein. O livro, elogiado por autores do calibre de Walter Scott, foi um grande e imediato sucesso.

Ao longo das últimas décadas,  foi adaptado inúmeras vezes para o cinema e se tornou uma das histórias de terror mais populares de todos os tempos, ao lado de Drácula, que por sua vez teria sido inspirado no “The Vampyre”, de Polidori.  A adaptação mais famosa sobre o monstro (de cor amarela no original de Mary) é a de 1931, com Boris Karloff no papel-título.

Mais que um clássico do terror, o livro, como toda boa ficção científica, trata de questões éticas cada vez mais na pauta do século XXI, como o uso do conhecimento e a criação de vida artificial.

A obra está em domínio público e pode ser lida em vários sites da internet.