O jogo de dados de Schopenhauer

 

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) reflete sobre a vida e a morte.

“Não conhecemos maior jogo de dados que o jogo do nascimento e da morte; preocupados, interessados, ansiosos ao último ponto, assistimos a cada partida, porque a nosso olhos tudo se resume nisso. A natureza, pelo contrário, que não mente nunca, a natureza, sempre franca e aberta, exprime-se a este respeito de um modo muito diverso: diz ela que a vida ou a morte do indivíduo em nada lhe importa; é o que exprime entregando a vida do animal e também do homem a todos os acasos, sem empregar o mínimo esforço para os salvar. Observem o inseto no nosso caminho: o menor desvio involuntário do nosso pé decide sua vida ou sua morte. Veja-se a lesma dos bosques, destituída de qualquer meio de fugir, de se defender, de enganar, de se ocultar, presa, exposta a todos os perigos; veja-se o peixe a saltitar sem inquietação na rede ainda aberta; a rã cuja moleza a impede de fugir e de escapar; a ave sob o olhar do falcão que paira por cima dela e que esta não vê; a ovelha que o lobo espreita oculto no arvoredo; todas essas vítimas fracas, desarmadas, imprudentes, vagueiam, no meio de perigos ignorados, que a todo momento as ameaçam. A natureza abandonando assim sem resistência os seus organismos, obras de uma arte infinita, não só à avidez do mais forte, mas ao mais cego dos acasos, à fantasia do primeiro imbecil que passa, à maldade da criança – a natureza exprime dessa maneira, no seu estilo lacônico, oracular, que o aniquilamento desses seres lhe é indiferente, que não a pode prejudicar, que nada significa, e que em casos idênticos a causa é tão indiferente quanto o efeito…

Portanto, quando essa mãe soberana, universal, expõe sem escrúpulo algum os filhos a mil perigos iminentes, sabe que quando sucumbem é para voltarem ao seu seio onde os conserva ocultos; a sua morte não passa de uma brincadeira. Sucede com o homem o mesmo que com os animais. O oráculo da natureza estende-se a nós; a nossa vida ou a nossa morte não a comove, e não deveria comover-nos, porque também fazemos parte dessa natureza.”

 

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