Dia do Livro, Dia de Cervantes

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Instituído pela Unesco em 1995, o Dia Internacional do Livro e dos Direitos de Autor, celebrado hoje, 23 de abril, teve sua origem na região da Catalunha, na Espanha. A data coincide com a morte do escritor Miguel de Cervantes (1547-1616) e também de Shakespeare, entre outros escritores. No caso do escritor inglês, a data não é precisa, uma vez que a Inglaterra daquele tempo adotava o Calendário Juliano, que tinha uma diferença de 10 dias para o Calendário Gregoriano usado na Espanha. O mês marca ainda o nascimento do russo Vladimir Nabokov (1899-1977).

Livros a mancheia

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Biblioteca Nacional da França

A propósito do Dia Mundial do Livro, comemorado em 23 de abril,  os impressionantes números das maiores bibliotecas públicas do mundo.

-Biblioteca do Congresso – Washington

Estima-se que tenha cerca de 155 milhões de itens catalogados; 32 milhões de livros em 470 idiomas diferentes.

-Biblioteca Britânica – Londres

150 milhões de itens e uma coleção de raridades como cadernos de Leonardo da Vinci e manuscritos de Jane Austen e James Joyce.

-Biblioteca de Nova York – Manhattan

Acervo de mais de 53 milhões de itens, já foi cenário de filmes famosos como Bonequinha de Luxo.

-Biblioteca do Estado Russo – Moscou

São mais de 44 milhões de exemplares e cerca de 275 quilômetros de prateleiras.

-Biblioteca Nacional da Rússia – São Petersburgo

Fundada por Catarina, a Grande, em 1795, tem acervo estimado em 36,5 milhões de exemplares.

-Biblioteca Nacional da Dieta – Tóquio

Mais de 35 milhões de livros e nenhuma relação com alimentação. Dieta, no caso, é associada à corte ou assembleia.

-Biblioteca Nacional da China – Pequim

Cerca de 31 milhões de livros e considerada a maior da Ásia em espaço físico.

-Biblioteca Nacional da França – Paris

Também com cerca de 31 milhões de exemplares é considerada a mais antiga do mundo com data de fundação em 1461.

-Biblioteca Nacional da Dinamarca – Copenhague

Acervo de aproximadamente 30 milhões de exemplares e conhecida também como Biblioteca da Universidade de Copenhague.

-Academia Russa de Ciências – São Petersburgo

Com um acervo estimado em 26 milhões de exemplares é a terceira maior biblioteca russa.

 

Enquanto isso…

Longe, muito longe dos números apresentados pelas grandes bibliotecas mundiais, nosso patrimônio literário tem seu ponto alto na Biblioteca Nacional. Seu acervo inicial chegou ao Rio de Janeiro em 1808 junto com D. João VI e sua corte, consequência da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte. Junto com a comitiva chegou a Real Biblioteca formada por 60 mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, estampas, moedas e medalhas. Abaixo detalhe da fachada do prédio da BN, iniciado em 1905 e inaugurado dez anos depois.

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-Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro

Com estimados 9 milhões de itens é a maior biblioteca da América Latina.

-Biblioteca Mário de Andrade – São Paulo

Acervo estimado em 3,2 milhões de itens, a BMA foi fundada em 1925 e é a principal biblioteca pública do estado.

-Biblioteca Central – Universidade Nacional de Brasília

Com mais de 1,5 milhão de itens, a BCE foi instituída em 1961.

-Biblioteca da Universidade Federal da Bahia – Salvador

Parte do Sistema de Bibliotecas da UFB, tem um acervo estimado em 890 mil itens.

-Biblioteca Pública Arthur Vianna – Belém

Fundada há 147 anos, tem acervo de cerca de 800 mil volumes.

-Biblioteca Pública do Estado da Bahia – Salvador

Primeira biblioteca do país e da América do Sul e maior do estado da Bahia, possui acervo estimado em 720 mil itens.

-Biblioteca Pública de Pernambuco – Recife

Possui acervo de mais de 270 mil livros e 370 mil volumes de periódicos, mapas, manuscritos, iconografias diversas e folhetos. 

-Biblioteca Pública do Paraná – Curitiba

Criada em 1857, reúne cerca de 630 mil itens entre livros, periódicos, fotografias e mapas. 

-Biblioteca Luiz de Bessa / Biblioteca Pública Estadual de MG – Belo Horizonte

Criada em 1954 pelo então governador Juscelino Kubitscheck, ocupa prédio inaugurado em 1961 na Praça da Liberdade com projeto de Oscar Niemeyer. Abriga acervo de mais de 570 mil exemplares.

-Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul – Porto Alegre

Aberta ao público em 1877, tem acervo de aproximadamente 240 mil volumes.

Chuva e frio no caminho

Carta do acervo do Instituto Anita Garibaldi publicada no site do Instituto Moreira Salles revela parte da dramática retirada das tropas em que lutavam Giuseppe e Anita Garibaldi na Revolução Farroupilha (1835-1845). O documento, de 1841, reconstitui para um casal de amigos, as privações por que passaram antes de atingirem os 114 metros de altitude do povoado de São Gabriel, de onde dali a alguns anos, seguiriam para o Uruguai.

 

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Garibaldi e Anita, ferida, fogem de San Marino, na Itália, 1849, em obra de artista anônimo.

São Gabriel, 10 de março de 1841

Ao casal Costa

Caros amigos,

Depois das penosas aventuras por que passamos, parece um sonho viver de novo numa casa confortável e poder escrever com calma esta carta que, graças à cortesia do nosso novo amigo Francesco Anzani*, espero que chegue até vocês em pouco tempo. Imaginem que Francesco ainda tem paciência para me ensinar ortografia, e eu estudo durante as longas horas de ócio que frequentemente passamos juntos no conforto dos nossos quartéis de São Gabriel. Estamos todos sãos e salvos, mas só por milagre.

Quando nos despedimos estávamos bem e com saúde, encorajados com a provisão de alimentos que vocês nos quiseram dar e pelos votos de boa sorte. Mas logo a viagem se tornou penosa, por causa das chuvas incessantes. Nunca tomei tanta chuva em toda a minha vida.

Alcançamos as tropas dos farrapos e iniciamos com eles a caminhada em direção das alturas. A coluna de companheiros parecia estender-se até o infinito. Ministros, parlamentares, funcionários, empregados, artesãos e pobretões, todos fugitivos, com suas famílias e coisas, animais, provisões, armas, munições e até mesmo máquinas para imprimir jornais.

Vocês não imaginam o sofrimento de todos; por causa do terreno totalmente intransitável, era preciso cortar a vegetação densa metro por metro, a chuva incessante ensopava nossas roupas, os pés gelados escorregavam na lama, de noite tremíamos de frio e nos apertávamos uns contra os outros, como animais, para conseguir um pouco de calor. As reservas de alimentos logo se esgotaram e a caça começou a rarear. Não conseguíamos mais acender fogo, pois a madeira estava toda úmida. Para tornar aceitável algum raro pedaço de carne, nós o colocávamos na garupa do cavalo, sob a cela até ele cozinhar um pouco com o calor do animal.

Depois de atravessar o vale do rio das Antas, começamos a subida. O sofrimento aumentou ainda mais, por causa do terreno íngreme e da falta de alimento. Todos sofreram, especialmente as crianças e as mulheres, que depois de algum tempo não conseguiam prosseguir. A caminhada era muito difícil e as crianças caíam exaustas. As mães, não querendo largá-las, abatiam-se com elas, apesar de saberem que não teriam como se salvar. Às vezes os homens sem coragem de separar-se dos seus ficavam com eles ou então os matavam, para não entregá-los a uma lenta agonia. Com um reflexo de horror nos olhos, continuavam a caminhada cada vez mais devagar, conscientes de que logo também cairiam exaustos na lama e seriam cobertos pela densa vegetação.

Acho que por muito tempo será possível reconstituir a nossa trajetória pela fila de esqueletos que marcam o caminho. Com certeza nossas perdas foram mais graves do que aquelas que sofremos nas muitas batalhas de que participei.

Durante a subida eu procurava frutas e raízes para comer, qualquer coisa que me pudesse alimentar, porque meu leite estava diminuindo e Menotti**, sob o poncho que o prendia ao meu colo, quase já não tinha forças para chorar. Seus gemidos se tornavam cada vez mais fracos, a carinha pálida se enrugava, estava sujo, trêmulo e a única coisa que eu podia fazer era soprar por cima dele para lhe dar um pouco de calor. Eu usava folhas e alguns trapos que restavam para conservá-lo o mais enxuto possível. Nas raras paradas eu lhe dava de mamar. Muitas vezes vi, com dor no coração, alguma outra mulher tirar seu bebê do meio das roupas e encontrá-lo morto. Imaginem minha apreensão

Pela primeira vez senti minhas forças diminuírem e me cansava até por carregar o peso do menino, que afinal só tinha algumas semanas de vida. Fiquei grata a José***, que, voltando-se para ver se eu o estava seguindo, percebeu minha angústia e quis carregar Menotti, agasalhando-o embaixo do poncho e conservando-o quente com seu bafo por algum tempo.

Quando, mais uma vez, a aurora chegou à serra com a sua luz pálida, ele veio até mim. Eu estava deitada, encostada a uma rocha tentando me proteger do frio de algum jeito. José estava acompanhado de um soldado e trazia duas mulas. Disse para eu partir imediatamente e pôr nosso filho a salvo do outro lado da montanha. Ele me olhava daquele jeito de quem não admitia discussão e acrescentou que aquela era a única esperança para Menotti. Devolveu-me o menino depois de beijá-lo carinhosamente. Depois me abraçou e me empurrou na direção das mulas, evitando o meu olhar. Ele não quer me mostrar o quanto esta decisão está lhe custando, pensei. É claro que eu estava sem forças para resistir.  Peguei o Menotti, reduzido a um pacotinho, e parti com o soldado, que puxava as mulas com muito esforço, tropeçando nas pedras e nos arbustos que abundavam na vegetação virgem da serra.

Eu continuava com a impressão de estar escalando o infinito. Às vezes parecia que eu tinha lâminas fincadas na cabeça, e eu procurava segurar o enjoo que tomava conta de mim no ar rarefeito da montanha. Na tarde seguinte, quando eu já estava achando que se saísse mais uma vez não teria forças para me levantar, notei que o terreno se tornava menos íngreme. Então pude montar em uma mula e fui revezando, montando ora em uma ora em outra, para elas não desabarem de exaustão. Passamos mais uma noite quase sem dormir, torturados pela fome. Menotti ainda respirava, mas, quando eu tentava dar-lhe de mamar, mal o sentia sugar.

No dia seguinte, enquanto nos arrastávamos mecanicamente, passo a passo, de repente senti que o terreno formava um suave declive. Olhei ao redor e não consegui acreditar: a floresta tinha quase acabado e à nossa frente estendiam-se colinas e campos cultivados a perder de vista. Caminhamos então em direção a uma fumaça que apareceu ao longe, e finalmente chegamos a um acampamento onde alguns soldados estavam deitados ao redor de uma fogueira, bebendo de seus cantis. Assim que nos viram, amontoaram-se ao nosso redor para saber quem éramos; pegaram Menotti, já quase morto, e deram-lhe um banho, envolveram-no em roupinhas limpas e lhe deram leite, gota a gota. Eu também bebi leite de uma tigela fumegante, e aquela me pareceu a bebida mais fina do mundo.

Enfim, caros amigos, estávamos salvos. […] Poucos dias depois, o único vestígio do pesadelo eram os meus pés que continuavam sangrando. Ainda tive de mantê-los enfaixados por muito tempo.

Anita Ribeiro Garibaldi

Carta ditada a Francesco Anzani, em São Gabriel.

Francesco Anzani (1809-1848). Italiano nascido em Alzate, deixo a Universidade de Parma e foi para a França, onde se integrou ao movimento republicano de 1832. Preso em Gênova, em 1838, acabou escapando e fugindo para a América. Na cidade gaúcha de São Gabriel conheceu Garibaldi e Anita, ao lado de quem, em 8 de fevereiro de 1846, lutaria na batalha de Santo Antônio do Salto, no Uruguai.

** Domenico Menotti Garibaldi (1840-1903) foi o primeiro filho de Giuseppe e Anita Garibaldi. Nascido na cidade gaúcha de Mostardas, no rancho da família Costa, viria a ser um dos principais idealizadores da luta pela Unificação da Itália, país onde morreria, na cidade de Roma.

*** Giuseppe Garibaldi (1807-1882) foi guerrilheiro e herói nascido na França e morto na Itália. Emigrou para o Brasil e se integrou às tropas gaúchas na Revolução Farroupilha, em que exerceu sua liderança com talento e bravura antes de voltar para a Itália para, ao lado da mulher, Anita Garibaldi, lutar pela unificação do país.