De Chico para Vinicius

chico

Carta do acervo do IMS

Rio [de Janeiro], 2 de fevereiro [de 1971]

 

Caro poeta,

Recebi as suas duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o Apesar de você. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gessy, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

Valsa hippie é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí. Valsa hippie, ligado à filosofia hippie como você o ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar. Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e o tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. Só que eu esqueci que ia por itens. Vamos lá:

Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô poeta, não leve a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

Ainda baseado no argumento acima, prefiro o abraçar ao bailar. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do ultimo verso onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora estou pensando em retomar uma ideia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”. Só tem o probleminha da junção “em-estado”, o em-e numa sílaba só. Que é o mesmo problema do começaram-a. Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado “começaram a se abraçar” sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente. Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor mo permitisse, porque deu bolo com o Apesar de você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a Tonga, mas a Banda vendeu mais que o disco do Toquinho solando Primavera. Dê um abraço na Gessy, um beijo no Toquinho e peça à Silvina para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre
[chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre
[costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre
[falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto
[convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria
[ousar
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto
[esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo
[não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e
[começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda
[despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não
[se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

O mar protagonista

 

Snow Storm - Steam-Boat off a Harbour's Mouth exhibited 1842 by Joseph Mallord William Turner 1775-1851

As irresistíveis listas! Dessa vez a dos “dez melhores livros náuticos” de todos os tempos. A seleção de títulos e os respectivos conteúdos resumidos são do blog “Mar Sem Fim”.

1) História, Heródoto

Heródoto nasceu na Ásia Menor e viveu na Atenas do período da civilização helênica. Andou e pesquisou lugares como o Nilo, a Líbia, Fenícia e a Babilônia. “No texto, um diário de suas viagens, ‘você volta para o século V a.C’, e testemunha incríveis batalhas navais da esquadra persa contra a do gregos”.

2) A Viagem do Liberdade, Joshua Slocum  

O mestre dos Mares, Joshua Slocum, segundo o blog, é autor de um dos “livros náuticos” que todos deveriam ler, especialmente os brasileiros, já que a grande aventura narrada no livro se passa aqui. Com a mulher e dois filhos, ele navega mais de cinco mil milhas até chegar a Washington.

3) A Travessia do Snark, Jack London

London visitou os lugares mais lindos do planeta, e os descreve com precisão. Conviveu com leprosos e canibais. Em Waikiki descobriu uma novidade, um ‘esporte real’, como diz, que mexeu com sua cabeça e que hoje é conhecido como surf.

4) O Longo Caminho, Bernard Moitessier 

Moitessier (1925 -1994), francês, nascido no Vietnam então Indochina, partiu para a primeira regata solitário através do mundo, a Golden Globe Challenge, em 1968. Saindo de  Plymouth, na Inglaterra, passou pela África do Sul;  Austrália e, de volta ao Pacífico, velejou até cruzar o Cabo Horn.  Vale cada parágrafo, ainda segundo o blog.

5) Nos Mares do Sul, Robert Louis Stevenson

Autor do clássico “A Ilha do Tesouro”, o escocês partiu, em junho de 1888, a bordo da escuna Casco, para o Pacífico Sul, com sua família e uma tripulação. Passaria seis anos na Oceania. Uma obra-prima da literatura de viagem.

6) A Incrível Viagem de Shackleton, Alfred Lansig 

De acordo com o blog, existem vários livros sobre essa viagem, mas os melhores  são “A Incrível Viagem…” e “O Endurance”, de Caroline Alexander. Ambos contam em detalhes de prender o fôlego, uma das maiores sagas náuticas de que se tem notícia.  Um feito épico.

7) No Coração do Mar, Nathaniel Philbric 

A verdadeira história que inspirou Herman Melville a escrever Moby Dick. A saga do baleeiro Essex, em 1820, que, a cerca de mil milhas a Oeste das ilhas Galápagos, em pleno Pacífico, é abalroado e afundado por um cachalote de 26 metros. “Um desastre que abalou o mundo na época, reconstituída pelo historiador Nathaniel Philbrick.

8) Kon Tiki, Thor Hayerdal 

A cruzada do explorador, arqueólogo, antropólogo e escritor norueguês para provar sua tese sobre a origem dos colonizadores das ilhas da Polinésia. Em 1946 ele constrói uma balsa aborígene, a Kon Tiki, e parte do Peru em direção à Polinésia. Oito mil quilômetros e 101 dias depois, encalha na região do Taiti.

9) À Deriva, Setenta e Seis Dias Perdidos no Mar, Steven Callahan 

Segundo o site, “a mais prolongada agonia de um náufrago”. Narra a história do autor após sobreviver à destruição de seu veleiro de 21 pés por ondas de sete metros de altura, quando atravessava o Atlântico Norte em direção aos Estados Unidos. “Uma aula de sobrevivência.”

10) Cem Dias Entre o Céu e o Mar, Amyr Kink 

Best-seller do navegador brasileiro narra a solitária viagem, cuidadosamente planejada, de Klink em um barco de 5,94 metros movido a remo, atravessando todo o Atlântico, da Namíbia, no continente africano, até a Bahia.

O número 1 do século, segundo Borges

No mês que marca os 135 anos de nascimento de um dos mais conhecidos escritores de língua alemã, a oportunidade de resgatar o elogio do argentino Jorge Luis Borges ao colega alemão Franz Kafka (1883-1924).

“Kafka, por outro lado, tem textos, sobretudo os contos, onde se estabelece algo eterno. Podemos ler Kafka e pensar que suas fábulas são tão antigas como a história, que esses sonhos foram sonhados por homens de outra época sem necessidade de vinculá-los à Alemanha ou à Arábia. O fato de haver escrito um texto que ultrapassa (em informação) o momento de sua concepção, é notável. É possível pensar que foram redigidos na Pérsia ou na China e aí está seu valor. E quando Kafka faz referências é profético. O homem que está aprisionado por uma ordem, o homem contra o Estado, esse foi um de seus temas preferidos.”

Trecho de artigo publicado originalmente pelo El Pais, em 2015, e republicado no site revistaprosaversoearte.com.

Coetzee em pré-venda

 

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Já em pré-venda o novo livro do sul-africano J. M. Coetzee (1940), informa a Companhia das Letras. “A Vida Escolar de Jesus” será lançado mês que vem e prossegue a narrativa de “A Infância de Jesus”, já publicado aqui pela mesma Companhia.  Prêmio Nobel de 2003, Coetzee já publicou mais de 20 livros entre ficção, traduções, ensaios de crítica literária e memórias. Foi premiado no mundo inteiro e o primeiro autor laureado duas vezes com o Man Booker Prize, criado em 1968 na Grã-Bretanha e o mais importante prêmio literário da língua inglesa.

As dicas de Orwell

george orwell

Seis “normas” básicas de George Orwell para escrever bem, relembradas em reportagem recente do El País:

1-Não use uma metáfora, comparação ou outra frase feita que esteja acostumado a ver escrita;

2-Nunca use uma palavra longa se puder usar uma curta que tenha o mesmo significado;

3-Quando possível eliminar uma palavra, sempre elimine;

4-Nunca use a voz passiva quando puder usar a voz ativa;

5-Nunca use uma expressão estrangeira, um termo científico ou um jargão se puder pensar em uma palavra equivalente em seu idioma que seja de uso comum;

6-Descumpra qualquer uma dessas regras antes de escrever algo que pareça estúpido.