De Elizabeth para Marianne

 

Carta publicada no livro “Uma Arte – As Cartas de Elizabeth Bishop”, em edição de 1995 da Companhia das Letras. Elizabeth (1911-1979) é considerada uma das maiores poetas de língua inglesa do Século 20 e Marianne (1887-1972), uma “poeta para poetas”. Além da intensa correspondência mantida também com nomes como Ezra Pound, era ainda tradutora e ensaista.

A Marianne Moore

13 de janeiro de 1958

Acho que estou escrevendo cartas na ordem inversamente proporcional ao meu senso de dever e meu afeto […] Não sei por quê. Falamos sobre você e pensamos em você todos os dias desde que partimos de Nova York, e temos retratos seus em quatro (4) lugares diferentes da casa – no entanto já escrevi um monte de cartas que nem precisava escrever, paguei contas, fiz mil coisas sem importância e foi só anteontem que escrevi para a doutora Baumann, e agora estou escrevendo para você – praticamente minhas duas pessoas favoritas que estão nos Estados Unidos. É uma inversão total. Muito obrigada por me escrever mais uma vez a respeito da introdução a “Helena Morley” – você me animou muitíssimo: eu já havia mais ou menos me convencido de que o texto tinha ficado excessivamente longo e detalhado. Espero que você já tenha tido tempo de ler o livro em si – a Helena é muito melhor do que qualquer introdução, creio eu, ainda que haja trechos que você não vai aprovar integralmente. Por enquanto, estamos muito satisfeitas com a recepção que o livro tem tido – nada  muito profundo, mas os críticos dos jornais parecem ter gostado […]

Espero que você esteja bem e não tenha sofrido de pleurite, e que a doutora Laf Loofy esteja lhe dando mutias vitaminas etc. – talvez até tranquilizantes nos meses mais frios. (Sempre achei que o nome dela fosse Laugh Loofy, mas creio que a Henrietta escrevia La Floofy, e talvez nós duas estejamos enganadas.) E por favor não esqueça que, se precisar, a doutora Baummann está aí, pois sei que ela teria o maior prazer em atravessar a ponte do Brooklyn para vê-la em qualquer emergência. Acho também que seria uma boa idéia dizer à senhora Kauffer (esposa de McKnight Kauffer) para consultá-la também – a menos que ela já tenha um médico muito bom. Seja como for, por favor, por favor, não tente fazer TUDO sozinha.

Sentimos muita falta de Nova York quando chegamos, e depois começamos a nos sentir em casa outra vez. Os animais estavam todos bem de saúde e afetuosos, e nos perdoaram – eles e mais Betty e uma negrinha nova, que se chama, coitada, Alisette Mara. No momento, os dois “netos” mais velhos da Lota estão conosco, bem com um dos sobrinhos, um menino de quinze anos, desengonçado, muito inteligente, com grandes óculos de tartaruga, asmático. Como eu e Lota temos asma, cuidamos muito bem dele, dando-lhe conselhos, aplicando-lhe a bombinha etc. Agora há também uma quarta “neta” – com cerca de um mês de idade, e esta finalmente recebeu o nome de “Lotinha”.

Na época do Natal, fomos passar uma semana na casa de praia do irmão da Rosinha num lugar chamado Cabo Frio (Cold Cape). É cheio de dunas maravilhosas e uma infinidade de prainhas; além disso, lá produzem sal numas lagunas, e é muito estranho e bonito. Quando você vier nos visitar, vamos levá-la a Cabo Frio, naturalmente. Uns camarõezinhos mínimos, maravilhosos, abacaxis, lagostas – comemos tudo isso na ceia de Natal, depois nos deitamos em redes brancas. Acho que você ia gostar. Agora estamos aqui, às voltas com um bando crianças, mas ao mesmo tempo começando a trabalhar. A Lota desenhou um móvel muito bonito para o meu hi-fi (que aqui se pronuncia ee-fee), e a coisa toda está quase pronta para ser instalada. Estamos também reorganizando toda a nossa fiação elétrica, que ainda está meio excêntrica, e acabamos de adquirir nossa primeira (quer dizer, primeira aqui) geladeira elétrica. Depois só falta um bocado de vidraças, e vamos estar prontas para quando você resolver nos visitar – ou ficar para sempre, se você quiser […]

Foi maravilhoso voltar a vê-la em Nova York e só lamento não termos tido oportunidade de nos encontrarmos mais vezes. Soubemos que a viagem ao Oeste foi um sucesso. Quem nos disse isso várias vezes foram a Loren e a Margaret [Miller]. Estamos com muitas saudades de vocês, e se não pudermos voltar em breve você realmente devia vir aqui – você acha que seria muito desconfortável a longa viagem de avião? Dizem que daqui a um ano ou dois vai haver aviões a jato que vão fazer o trajeto Rio-Nova York em nove horas. Lota está adorando a idéia – já eu continuo preferindo um bom cargueiro, mesmo quando na verdade não é lá muito bom. Um feliz ano-novo para você, Marianne, e por favor, por favor, se cuide – muita proteína, muito carboidrato e muito tudo mais que descobriram, até demais, e por favor escreve um poema também, um bem comprido.

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