Novidades do Eu&Fim de Semana

A seleção do caderno do jornal Valor Econômico:

desamparo

-“Desamparo”, do jornalista e escritor Fred Di Giacomo pela Ed. Reformatório, gira em torno da história de dois clãs de fazendeiros do Noroeste paulista e mistura elementos de realismo fantástico com personagens reais da região da Penápolis natal do escritor.

pequenos

-“Pequenos Incêndios por Toda Parte”, de Celeste Ng. pela Intrínseca, disseca as relações da classe média americana por meio da história de uma família “aparentemente perfeita” de Ohio.

farra I

-“A Farra dos Guardanapos”, de Sílvio Barsetti pela Máquina de Livros, segundo resenha assinada por José Castello, é uma bela crônica das relações que os homens têm com o poder. Narra o apíce da vaidade e dos excessos da elite política brasileira, liderada pelo ex-governador do Estado do Rio e atual presidiário, Sérgio Cabral, e o início de sua rápida “e até trágica” derrocada.

 

Uma jornada pelos EUA do Século 19

Oeste

Citado pelo escritor Paulo Nogueira, em artigo recente no Aliás, do Estadão, como “desde já um dos livros do ano”, chega às livrarias “Oeste”, romance de estreia da contista norte-americana, Carys Davies. Lançamento da Alfaguara, o livro tem como pano de fundo os Estados Unidos de 1815 – ainda distante da configuração geográfica atual, para contar a história do viúvo Cy Bellman, de 35 anos, que parte da sua fazenda na Pensilvânia para uma jornada de dois anos guiada por um índio de 17 anos. “A prosa de Davies é lírica, de uma melancolia plangente e quase cósmica – mas também laboriosamente eficaz, mobilizando todas as ferramentas narrativas da ficção”, ressalta  o artigo.

Joyce pela Autêntica

Joyce
Joyce e a editora e livreira, Sylvia Beach, em 1922 em Paris.

A Autêntica acaba de lançar caixa com duas obras do irlandês James Joyce (1882-1941): “Um Retrato do Artista Quando Jovem”, obra finalizada em 1914 e “Epifanias”, com edição bilíngue, que reúne quarenta textos curtos escritos no início do Século XX. Além dos dois títulos, a edição traz notas e fotos de época da cidade de Dublin.

O sofrido adeus de PMC

Notório apreciador da bebida, como tantos de sua geração, o mineiro, de Belo Horizonte, Paulo Mendes Campos (1922-1991) é o autor da dolorosa carta de despedida publicada no jornal Diário Carioca, onde trabalhou nos Anos 40. A crônica, inédita em livro, integra o acervo do escritor, hoje sob responsabilidade do Instituto Moreira Salles.

Paulo_Mendes_Campos
Paulo Mendes Campos em visita à Rubem Braga, na companhia de Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Foto do Acervo do jornal O Globo.

CARTA DE SEPARAÇÃO À GARRAFA DE UÍSQUE

Creio, meu bem, que chegou finalmente o momento de dizermos adeus. Tentei todas as acomodações possíveis. Não posso ser acusado de não ter tido para contigo boa vontade e ca­rinho. Não posso admitir que se diga por aí, à boca pequena, que a culpa foi minha, que não tive compreensão da realidade. Os fatos são os fatos, e contra eles não podemos lutar. Não se pode dizer que não nos demos bem, é verdade. Não posso eu dizer que não devo a teu calor algumas das melhores horas de minha vida, de descanso, de alegria, até mesmo de poético en­levo, por que não. Naquele tempo em que ainda eras pura, e em que tuas exigências de di­nheiro, sem nunca ser modestas, ainda não atribulavam meu orçamento, pude manter-te com decência, não faltando jamais a nossos encon­tros. (Lembro-me agora, confesso, com indis­farçável ternura, esses pontos amoráveis de nos­sos antigos encontros, na esquina de Nilo Peçanha com a rua do México, na rua Senador Dan­tas, em Copacabana etc. etc.).

Quando foi mesmo que te encontrei pela primeira vez? Não posso precisá-lo, tantos anos já passaram, mas sei que foi amor à primeira vista, um amor que infelizmente, por tua causa, agora se interrompe.

Há já uns dois que vinha desconfiando de ti. Fingia que não o notava apenas por covardia, receoso de causar escândalo. Já andavas falsa, dissimulada. Àquela noite, na boate, custou-me engolir-te. Só agora vejo que nada ga­nhei com essa complacência senão muita dor de cabeça. Só agora vejo que só tinha a ganhar se houvesse te deixado quando desconfiei que já estavas misturada a más companhias, e que já não te portavas bem com quem por ti muitas vezes perdeu a cabeça. Por ti, quase fui preso; por ti, cheguei a brigar; por ti, fiz os piores pa­péis; por ti, perdi noites de sono; por ti, pedi dinheiro emprestado; por ti, prejudiquei minha saúde. No entanto, de que valeram tantos sacrifícios? Terias a coragem de não reconhecer que és falsa? Poderias negar que me levarias a uma situação econômica insustentável? Hoje, só um insensato deixaria de ver que as nossas relações não podem continuar mais. Resta-me um pou­co de equilíbrio e de amor próprio. Falta-me dinheiro para sustentar-te. Ah, se fosses pelo menos fiel, eu seria capaz de um esforço su­premo. Mas como estás, não, meu bem. Assim não é possível. Não há outro jeito senão uma separação que, de minha parte, deixa muitas saudades.

P. M. C.

Crônica de Paulo Mendes Campos publicada no Diário Carioca, Rio de Janeiro, 29/10/1953. Arquivo Paulo Mendes Campos / Acervo IMS.