Fim de papo

boitempo

Poema de Drummond, do livro “Boitempo II” em ediçao de 2001, da Record :

HISTÓRIA TRÁGICA

_  Esta ponte está podre,

Não passa de janeiro.

Ou cai agora ou não me chamo

Flordualdo.

 

_ Esta ponte cair? Meu avô foi quem fez.

Ninguém vivo, atual, dura mais do que ela.

Esta ponte é de Deus,

é Deus quem toma conta

da madeira e dos ferros,

eterno, tudo eterno.

 

_ Pois eu digo que sim.

Repare nos buracos

Você passa e ela treme

de velhice. O caruncho

alastrado nas vigas.

Esta ponte é o diabo,

ela está condenada,

só você que não sabe.

 

_ Alto lá.

Esta ponte é sagrada.

É ponte de família

que meu pai ajudou

a tirar da cabeça

e a dominar as águas.

Ela há de viver

nos séculos dos séculos

contra caruncho e raio,

dinamite e praga.

E pra encurtar a conversa,

eu Mateus te afianço:

antes que a ponte caia,

você cairá da ponte

com esta bala certeira:

toma.

 

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