De Graciliano para Cândido

Portinari I

Carta de Graciliano Ramos ao pintor Cândido Portinari. Fonte: site oficial do escritor.

Rio, 18 de fevereiro, 1946

Caríssimo Cândido:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem for da ate e são cultivadas pelos que nos censuram.

O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores tão perverso como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você me mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza.

Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece? Veja como os nossos ricaços em geral são burros.

Julgo naturalmente que seria bom enforca-los, mas se isto nos trouxesse a tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto não temos arte.

E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraços para você e para Maria.

Graciliano

Drummond sempre

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Postal de 1924/Foto: Portaldascolecoes

O PASSADO PRESENTE

Vejo o Conde d’Eu no Grande Hotel.

Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.

O fantasma da Monarquia

é o terceiro invisível, interlocutor.

Lá fora o sol encandece, republicano.

Ah, nunca pensei que o passado existisse

assim tocável, a mexer-se.

Existe. E fala baixo. Daqui a pouco

toma o trem da Central, rumo ao silêncio.

(BOITEMPO II – Editora Record)

 

Comidas e bebidas em infográficos

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A Taschen, tradicional editora de livros de arte, acaba de lançar seu primeiro livro na área de gastronomia. Ainda sem tradução em português, “Food & Drinks Infographics”, teve pesquisa, organização e textos da carioca Simone Klabin. Com 464 páginas, a obra é uma coleção de infográficos com ilustrações, desenhos, fotografias e gravuras que abordam da história da goma de mascar ao preparo de uma musse de chocolate. O livro engloba ainda assuntos diversos como o funcionamento de micro-ondas e a disponibilidade de peixes nos oceanos. Clássicos brasileiros como arroz e feijão e brigadeiro também estão contemplados.

Lembretes

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Foto por Pixabay em Pexels.com

Para cuidar dos livros.

Seleção de dicas da blogueira Angélica Pina, do universodosleitores.com.

– Regra básica: livros devem sempre ser colocados em posição vertical.

– Manter distância da parede para que haja ventilação.

– Luz direta do sol desbota as capas dos livros e também pode deformá-los.

-Livros (e prateleiras) precisam ser limpos periodicamente.

-Não “encape” livros com plástico.

-Folheie livros guardados há muito tempo, para evitar o ressecamento das folhas.

-Nunca molhe a ponta do dedo para virar as páginas. A prática pode manchar as folhas.

-Não deixe clipes metálicos marcando páginas. Eles podem enferrujar e corroer o papel.

-Não utilize as orelhas do livro para marcar a leitura. Isso danifica a capa.

Morre o fundador da Perspectiva

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A semana começou com a notícia da perda do editor, tradutor, ensaísta e crítico de teatro, Jacó Guinsburg. Fundador e diretor da Editora Perspectiva, Guinsburg faleceu no domingo (21) por insuficiência renal. Foi editor de autores brasileiros como os irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio de Almeida Prado, além de nomes estrangeiros como Umberto Eco, Roman Jakobson e Fernand Braudel. Jacó Guinsburg veio da cidade de Riscani (região atualmente entre a Ucrânia e a Moldávia) para o Brasil aos três anos de idade.