Ao mar

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David Dark . Illustration

Para saudar a chegada do novo mês, o trecho inicial de “Moby Dick”, de Herman Melville.

MIRAGEM

Chamai-me Ismael. Há alguns anos – quantos precisamente não vem ao caso – tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorrou-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. É a minha maneira de dispersar o spleen e de regular a circulação do sangue. Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parado involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam…então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é meu substituto  para a pistola e a bala. Com alarde filosófico Catão se arremessou sobre a sua espada; quanto a mim, embarco tranquilamente. Não há nisso nada de surpreendente. Se a maioria dos homens o soubesse, fosse qual fosse a sua categoria social, compartilharia comigo, numa época ou noutra, os sentimentos que o oceano me inspira.

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