Rubem Braga e o frio andino

O Sol dos Incas

Quando vim para esta casa o sol nascia no alto da Cordilheira, bem defronte à minha janela – e invadia-me o quarto muito cedo, com suas flechas de ouro. Depois, devagarinho, ele foi andando para o Norte. Passou a nascer na altura da casa de telhado verde do outro lado da rua; cada dia surge um pouco mais longe de minha janela, e entra cada dia mais tarde, pálido, fraco, oblíquo. E durante muitos dias – não nasceu…

Hoje fui obrigado a passar o dia em casa. Um dia feio, triste, nublado. Pelo meio-dia o sol conseguiu emitir um pouco de luz enfermiça, e logo se apagou. Brilhou um pouquinho mais tarde, antes de morrer nos fundos do quintal. Está fazendo sua viagem em um pedaço cada vez menor do céu entre Nordeste e Noroeste. Não corta o céu pela metade, como seria de seu dever: cada dia se contenta com uma fatia menor. Faz frio. E como estou sozinho e triste, parece que o frio é mais frio. Olho as árvores de galhos nus, e esse sol que agoniza quase sem luta, num laranja desmaiado, a um canto do céu cinzento. Escurece. E compreendo então o terror dos índios da Cordilheira, onde o frio é na verdade terrível – o terror primitivo de que o sol um dia sumisse de uma vez para o Norte, em um inverno definitivo que seria a escuridão eterna, o gelo, a morte…

Os Incas sentiam isso e mandavam construir, no alto das montanhas, imensos relógios de sol. Dia a dia eles iam marcando a marcha do sol para o Norte – a projeção cada vez mais longa e mais breve de sua sombra para o Sul. O frio na montanha era cada dia mais doloroso, os dias cada vez mais curtos. Mas um dia o sol cessava de marchar para o Norte. Como que se fixava um pouco em um ponto certo do horizonte – e depois, lentamente, fatalmente, vinha voltando. Os Incas haviam “amarrado o sol”, como quem amarra pelo rabo um leão velho. O astro, obediente, chegando a um certo ponto, voltava…

Os espanhóis, aonde chegavam em sua conquista, tratavam antes de mais nada de destruir essas pedras sagradas dos Incas. Era um meio de atingir, no centro vital do medo, a religião que eles queriam matar. Não deixaram um só relógio de sol intato por onde passaram.

Mas os espanhóis não chegaram a toda parte. Havia refúgios inacessíveis, cidades secretas, protegidas por abismos, entre os altos picos, aonde os Incas se escondiam. Alguns desses lugares o homem branco só atingiu quatro séculos depois, em nosso século. Havia ali, intatos, um ou dois desses monumentos fabulosos aonde o Inca todo-poderoso amarrava a sombra do sol. Não foram destruídos. E neste começo de noite fria e triste eu confio em que não os destruam nunca. O sol já está demasiado longe, tombando para o outro lado do mundo. E sinto um frio na alma pensando que ele pode ir para sempre e me deixar aqui – um fantasma gelado e só entre árvores nuas e pássaros petrificados, no cemitério de minha rua esquecida.

Santiago, junho, 1955.

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