Clássico russo ganha nova edição em português

A editora Todavia acaba de lançar nova edição de “Crime e Castigo”. A obra, de Dostoiévski (1821-1881), publicada pela primeira vez em 1866, ganhou nova tradução do russo, por Rubens Figueiredo, e é considerado pela maioria dos críticos um dos romances fundamentais da literatura ocidental.

O livro, conforme resenha da editora, conta a história de Raskólnikov, jovem retraído e orgulhoso, que se sente esmagado pela pobreza. “Ao mesmo tempo, acha que está destinado a um grande futuro e, desdenhoso da moralidade comum, julga ter plenos direitos para cometer um crime – o que fará de maneira implacável. Marco da análise psicológica na ficção, ‘Crime e Castigo’ é um testemunho eloquente da miséria, do alcoolismo e das condições degradantes que empurram para o abismo anônimos nas grandes cidades”.

Leia trecho do livro disponível no site da editora.

“A velha, como sempre, estava com a cabeça descoberta. Os cabelos claros e um pouco grisalhos, ralinhos, gordurosos, untados de óleo, como de hábito, estavam presos numa trancinha, num rabinho de rato, embaixo de uma lasca de pente de chifre, saliente na parte posterior da cabeça. A pancada acertou na nuca, para o que contribuiu a pequena estatura da velha. Ela deu um grito, mas muito fraco e, de repente, pendeu para o chão, embora conseguisse ainda erguer as mãos à cabeça. Numa das mãos, continuava a segurar o “penhor”. Então, com toda a força, ele bateu mais uma e outra vez, sempre com a parte de trás do machado e sempre no topo da cabeça. O sangue jorrou, como de um copo virado, e o corpo caiu de costas. Ele se desviou para o lado, deixou o corpo baixar até o chão e, na mesma hora, curvou-se na direção do rosto; já estava morta. Os olhos arregalados pareciam querer saltar, mas a testa e todo o rosto estavam enrugados e contraídos num espasmo. Pôs o machado no chão ao lado da morta e, na mesma hora, tentando não se lambuzar no sangue que corria, enfiou a mão no bolso – no mesmo bolso direito de que ela havia tirado as chaves, na vez anterior. Ele estava em sua plena consciência, nem estupor nem vertigem existiam mais, só que as mãos continuavam a tremer. Depois, lembrou-se de que ele estava até muito atento, cuidadoso, tentava o tempo todo não se sujar… Rapidamente, apanhou as chaves; como antes, estavam todas juntas numa argola de aço. Correu logo para o quarto. Era um cômodo muito pequeno, com um enorme oratório de ícones. Junto à outra parede, ficava uma cama grande, perfeitamente limpa, com um cobertor de seda, acolchoado, enfeitado com retalhos. Na terceira parede, havia também uma cômoda. Coisa estranha: assim que começou a experimentar as chaves na cômoda, assim que ouviu o tilintar das chaves, foi atravessado por uma espécie de convulsão. De repente, veio de novo a vontade de largar tudo e fugir. Mas durou só um instante; era tarde para fugir. Chegou a rir de si mesmo, quando, de repente, outro pensamento perturbador bateu em sua cabeça. De súbito, teve a impressão de que a velha ainda podia estar viva e podia voltar a si. Deixou as chaves, a cômoda, e voltou correndo para o corpo, agarrou o machado e ergueu de novo, acima da velha, mas não baixou. Não havia dúvida de que estava morta. Depois de se agachar e examinar mais de perto, viu claramente que o crânio estava partido e até um pouco esfacelado, na lateral. Chegou a pensar em apalpar com o dedo, mas recuou a mão; não precisava, era uma coisa óbvia. Entretanto, o sangue já havia formado uma poça inteira. De repente, notou um cordão no pescoço dela, puxou, mas o cordão era forte e não rompia; além do mais, estava molhado de sangue. Experimentou puxar para cima, passando pelo rosto, mas algo atrapalhava, prendia. Em sua impaciência, quis ergueu o machado de novo para bater direto no cordão, mesmo preso ao corpo, num golpe de cima para baixo, porém não teve coragem e, com dificuldade, manchando as mãos e o machado, depois de pelejar dois minutos, rompeu o cordão e retirou-o, sem tocar o machado no corpo; tinha razão: era uma carteira. No cordão, havia duas cruzes, uma de cipreste, outra de cobre e, além disso, um santinho esmaltado; junto, pendia uma pequena carteira de camurça oleosa, com bordas e argola de aço. A carteira estava abarrotada; Raskólnikov enfiou-a no bolso, sem examinar o conteúdo, deixou cair as cruzes no peito da velha e, nessa hora, apanhando o machado, correu de novo para o quarto”.

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