O soneto de Arvers por Mindlin e Dom Pedro II

Soneto do poeta e dramaturgo francês Félix Arvers (1806-1850), lembrado pelo bibliófilo José Mindlin, no livro “No Mundo dos Livros”, na sua versão original, numa tradução de D. Pedro II e em outra do próprio Mindlin.

Sonnet d’Arvers

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère:

Un amour éternel en un moment conçu.

Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,

Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! J’aurais passé d’elle inaperçu,

Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,

Et j’aurais jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,

N’osant rien demander et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,

Elle suit son chemin, distraite, et sans entendre

Ce murmure d’amour élevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,

Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:

“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.

Minha alma tem um segredo, minha vida um mistério:

Um amor imortal nascido num momento.

O mal é sem remédio, devo, pois, ocultá-lo,

E aquela que o causou, nunca soube de nada.

Terei passado a vida perto dela,

Sempre ao seu lado, e sempre solitário,

E irei até o fim de minha vida,

Sem nada pedir e sem nada receber.

Quanto a ela, embora Deus a tenha feito doce e terna,

Segue seu caminho, distraída, e sem ouvir

Este murmúrio de amor que se eleva a seus pés;

Piamente fiel ao austero dever,

Lendo esses versos e se maravilhando, perguntar-se-á:

“Quem então será essa mulher?”, e não perceberá.

(Tradução de José Mindlin)

Segredo d’alma, da existência arcano,

Eterno amor num instante concebido,

Mal sem esperança, oculto a ente humano,

E nunca de quem fê-lo conhecido.

Ai! Perto dela desapercebido

Sempre a seu lado, e só, cruel engano,

Na terra gastarei meu ser insano

Nada ousando pedir e havendo tido!

Se Deus a fez tão doce e carinhosa,

Contudo ainda inatenta e descuidosa

Do murmúrio de amor que a tem seguido.

Piamente ao cru dever sempre fiel

Dirá lendo a poesia, seu painel:

“Que mulher é?” sem tê-lo compreendido.

(Tradução de Dom Pedro II)

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