O homem apático

Comentado em artigo assinado por José Castello, mereceu classificação AA+ (Alta Qualidade) do caderno Eu&Fim de Semana, o novo livro do francês Michel Houellebecq, lançado aqui pela Alfaguara/Companhia das Letras. Elogiado também no “Le Monde”, “Serotonina” tem como protagonista Florent-Claude Labrouste, que aos 46 anos e com o mundo ruindo ao seu redor, começa a tomar antedepressivos e vê que “tudo agora parece um pouco melhor, mas também completamente vazio”.

De Vinicius para os escritores mineiros

Vinicius, Helena e Fernando Sabino em foto da década de 40. Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br

Carta de Vinicius de Moraes escrita após encontro do poeta com Otto Lara Resende e Fernando Sabino, ocorrido em outubro de 1944, e publicada no “Jornal”, do Rio de Janeiro, em 5 de novembro do mesmo ano. Fonte: Correio IMS, do Instituto Moreira Salles.

Há uns dez pares de dias, ó escritores de Minas Gerais, uma conversa noturna que se iniciou num bar em Copacabana levou-me à casa de um jovem conterrâneo vosso, um prosador novo dessas terras altas, e, apraz-me dizer, um dos melhores e mais bem aquinhoados pela humanidade e pelo espírito. Com ele se achava outro moço escritor, também mineiro, também excepcionalmente dotado para a ingrata arte da poesia e, o que chega a ser excessivo, senhor de mão segura para a prosa. Num aprazível ambiente ao gosto moderno escutamos, de início, excelente música americana, se nos enlanguescendo a alma ao ritmo de mestres negros como Louis Armstrong e Duke Ellington e a forrar os nossos avessos de boa cerveja acompanhada de deliciosos salgadinhos. Aos poucos, o ritmo maior da noite veio penetrar nossos corações de melancolia essencial da natureza e, sem darmos por isso, encaminhados nossas ideias para o terreno das explicações de temperamento, inclusive o literário. Eu, infelizmente, nada tinha de novo que pudesse mostrar ao meu querido anfitrião e seu amigo, mas o mesmo não acontecia com este último, que, apesar da modéstia natural com que Deus e essa abençoada terra o dotaram, produziu, instado, uma peça em prosa e outra em verso, nas quais, em meio aos sublimes esgares da música, mergulhei com ânimo sério e precisão de sinceridade.

Digo-vos, ó homens das letras alterosas, que as peças eram, em verdade, muito belas e caprichosamente escritas. Li-as com amor e crítica, e tão bem me pareceram que, emocionado, saudei o moço escritor com palavras brotadas da sinceridade. No entanto, por me parecer a dita peça, posto bela, extremamente centrada sobre o eu íntimo do seu jovem autor, verberei-lhe, em nome do talento e da franqueza com que expunha a si mesmo os seus próprios desencontros e angústia, o fato de não lutar por colocar esse talento e essa franqueza a serviço de uma causa menos egoísta que ele mesmo.

Ao fazê-lo, vai se me deparou o problema de uma extensão a bem dizer ontológica e, mais particularmente, de fundo sociológico com relação ao Brasil. Àquele jovem que tinha diante de mim, dotado de todas as prendas do espírito e cuja bondade transparecia nos olhos, nas mãos, nos cabelos, nas atitudes proverbiais aos nativos de Minas, esmagava uma angústia milenar. Não lhe faltava nem coragem para lutar – que podia ver no seu modo franco – nem solidariedade humana – a transpirar das palavras com que, aceitando, esforçava-se por situar minha revolta dentro de seu coração afetuoso, num anseio de se libertar. Compreendi que diante de mim estava, mais que um caso de enclausuramento por livre arbítrio, uma fatalidade do mau privilégio que pesa sobre essa bem amada terra e a vem sufocando lentamente, com risco de segregá-la da comunidade de seus irmãos brasileiros. Porque, caríssimos, fostes dotados, desde sempre, na História desta amável pátria, dos melhores e mais pródigos dons para a palavra escrita. Não se passou geração em que não désseis à literatura brasileira um nome exemplar, e tanto melhor quanto sempre penetrado dessa misteriosa doçura e simpatia que faz de vós como que o povo escolhido para o carinho de todo o resto do Brasil.

No entanto, ó escritores, que estranho destino vos faz orgulhosos do vosso triste privilégio! Sim, a alma que tantas vezes vos fervilha, vós a prendeis num corpo por demais estático, por demais consciente da ordem burocrática que vos vem matando. No entanto, esse orgulho que vos acorrenta os anseios da vida, por que vos dá ele coragem para vos automutilardes? Por que a paisagem escolhida para a vossa muda contemplação há de ser somente a bela, triste, desolada paisagem de vós mesmos?

Não vos digo que traís o vosso destino, porque sois honestos e puros como a terra. Mas essa terra, em verdade, a secastes em vós, escritores de Minas. Realmente, não há lugar para a palavra traição quando se fala de vós. Direis sempre aquilo que vos é imperioso dizer: o mundo de vós mesmos, e que bem o fazeis! Mas sabeis, no entanto, que maior que vós mesmos é a humanidade que vos circunda; maior que vossa casa é o mundo; maior que vossos casos particulares, vossos segredos, vossa contida existência doméstica é a miséria, a grandeza, a indiscrição, a sordidez do mundo. Por que vos negais tão friamente ao escândalo, ó homens de muito pudor? Por que afastais do vosso caminho a mulher e só tendes para o miserável o óbolo da vossa compaixão? Por que só olhais o mundo das janelas de vossas casas ou dos vossos escritórios? Por que vos machucais e por que sobrestimais a vossa inquietação? Mais inquieto que vós é o abismo da vida, onde rolam de envolta corpos em sangue e em poesia; mais inquietas que vós são as mulheres de cujo convívio selvagem vos afastais por discrição; mais inquietos que vós são os mares da distância, os ventos de outras paragens, os apelos dos que morrem sem pão e sem calor, desconhecidas almas vagabundas que clamam de vós, esperam de vós, vivem em vós e sobre quem, no entanto, silenciais.

Perdoai-me, se me puderdes perdoar, a franqueza destas palavras. Sei que me estimais, e eu, eu vos quero definitivamente bem. Poderá parecer-vos ingratidão, eu que já fui vosso hóspede e que já bebi convosco em vossos bares, vos falar assim, e sobretudo imodéstia ou consciência da minha verdade. Mas tal não se dá, e vós bem o sabeis. Não me considero nem portador de uma verdade nem sou juiz de ninguém, senão de mim mesmo. Mas o amor que vos dedico, e que se veio fortalecendo à medida que conhecia melhor vossas forças e fraquezas, me arrastou inelutavelmente a este discurso que não é do meu tom. Eis por que fi-lo assim, de afetação propositada, pois não vos quisera falar de assunto tão grave com palavras mais simples, que cairia no perigo de vos acarinhar, como é tendência minha sempre que falo de vós. Anima-me somente a certeza de tocar num ponto que, tão certo como eu estar vivo no momento em que vos escrevo, vos vai doer e fazer pensar.

Por que vos recusais a pensar, escritores de Minas, além do pensamento de vós mesmos que vos ocupa todas as horas? A vossa pobre, querida Minas esvai-se em amorosa consumpção. Por que não a revitalizais com o vosso espírito e a vossa ação? Os preconceitos vos abafam como o ar da seca: por que não vos libertais? Sois homens de coragem intelectual, não temeis vos dizer a vós mesmos o que só muito poucos se diriam; e tendes, sem embargo, consciência precisa do fim que vos espera nesse caminho de pura introspecção em que ides: tornar-vos-eis um órgão passivo dentro de um organismo em luta para se libertar de todos os seus humores tóxicos.

Vossa alma é patética, escritores de Minas. Eu a amo e admiro. Mas esse olhar perpetuamente para dentro vos secará o brilho dos olhos. Precisais de água, a água do mar, a água da mulher, a água da criação. Temeis errar: errai. Temeis mostrar a vossa nudez: desnudai-vos. Falo-vos mais que em meu próprio nome – que não precisais de mim para nada –, em nome de uma geração que está crescendo a vosso lado. Meninos puros, inteligentes, honestos, bem dotados para a criação, que trazem a generosa inquietação do rapaz que começa e que, ao contato de vosso espírito maior e do vosso desencanto total, irão transformar a terra ainda fértil neles em grandes peladas através das quais passarão a vida a se passear.

Sois gente simples. Vossa fala é simples, vossa maneira é simples, vosso corpo e vosso coração são simples. Vossa forma é quase sempre simples, sem retórica, enxuta, precisa, exata para se ler. O vosso convívio é simples e agradável. Dá uma impressão de se estar perfeitamente a salvo, a vosso lado, apesar de vos dizerem desconfiados. Mas o vosso orgulho não é simples, escritores de Minas. Ele vos isola numa terra ferida de morte. Ele vos dá em excesso complacência para com as vossas próprias feridas, que tanto cultivais. Ele vos dá esse olhar tímido e vos cerra os maxilares diante da emoção. Por que só sabeis chorar às escondidas, escritores de Minas? Por que não vindes às vezes vos banhar nos mares da costa? Por que vos enclausurais em vossa cidade mórbida, que vos estiola as faculdades do amor? Por que amais a vossa desolação? Por que não saís às vezes, não viajais, não lutais contra o erro de vós mesmos? Por que não fraquejais, não amaldiçoais, não apedrejais, não sofreis o generoso sofrimento da vida? Por que não vos interessa conhecer o Norte e o Sul do país, e os países distantes? Por que economizais e para quê: para comprar o vosso túmulo? Por que viveis como num claustro, entre essas montanhas de luz perfeita? Não vos dá vontade de louvar outra coisa que não seja a Deus e vossa angústia? Por que sois ordenados por fora e desencontrados por dentro? Por que vos persegue o pensamento da morte, que é o fim da vida?

Ah, escritores de Minas Gerais, deixai-me chorar o vosso destino. Deixai-me lamentar a prodigalidade com que vos dispensais os vossos raros dons. Deixai-me acusar-vos, escritores de Minas, de estardes a ponto de inutilizar para a vida mais uma geração de quem não quereis ser o amparo, contra vós mesmos. Não vos quero dizer mais, porque já muito me dói o que vos disse. Que não me queirais mal, no entanto. Por esta única indizível razão escrevo esta carta contra vós: por muito amar.

Demasiado humano

Pensador igualmente admirado por Albert Camus e Adolf Hitler, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), ou melhor, sua mais recente biografia “Eu Sou Dinamite! A vida de Friedrich Nietzsche” é tema de artigo assinado por Pedro Duarte e publicado no site da FSP. Segundo ele, o livro, da historiadora Sue Prideaux, lançado aqui pela Crítica/Grupo Planeta, tem entre seus méritos o fato de abordar não os grandes feitos da figura heróica do filósofo, mas “a vida de um homem ao rés do chão”. “É uma descida mundana que restitui a humanidade real dos personagens, em vez de corroborar sua idealização”, avalia. 

Matéria na íntegra pelo link https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/resenhas/b/a-vida-como-ela-e.

Veja o que foi comentado sobre a obra também nos principais jornais da Grã-Bretanha:

“Livro esplêndido. Um relato maravilhosamente escrito, e muitas vezes comovente, de uma vida dedicada à conquista da grandeza intelectual e à exploração das condições para o seu florescimento. Nietzsche ficaria orgulhoso…” – The Financial Times

“Esta é a biografia que Friedrich Nietzsche tem clamado desde o dia em que perdeu a razão e abraçou um cavalo em uma praça de Turim, em 1889. Prideaux traz uma luz calma e constante para suportar o mais incandescente dos poetas-filósofos, com resultados esclarecedores”. – The Guardian

Pesquisador analisa perfil do escritor brasileiro

“Writer on a chair”, de Oleksandra Fedoruk/Saatchi Art

Informações apuradas pelo cientista social Marcello Stella e comentados no blog “Página Cinco”, do jornal FSP, mostram alguns indicativos de como se dá a profissionalização de escritores no país. Para escrever a dissertação de seu mestrado na USP, Stella pesquisou 354 autores publicados por nove editoras e constatou, entre outros dados, que:

-O escritor brasileiro trabalha também como jornalista (23%), professor universitário (13%), editor, roteirista ou exclusivamente como escritor (5% cada);

-É formado em Letras (18,93%), Jornalismo (14,69%), Direito (5,08%), História (3,11%), Filosofia ou Publicidade e Propaganda (2,82% cada).

-A esmagadora maioria reside no Sudeste (75,38%) e o gênero favorito para a estreia é o conto (46,15%), seguido do romance (29.23%) e da poesia (13,85%).

Matéria completa, assinada por Rodrigo Casarin, no link

https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/08/21/pesquisa-aponta-perfil-dos-escritores-e-confirma-dificuldade-para-mulheres/

Os essenciais de agosto, segundo o “Aliás”

Seleção de agosto da equipe do caderno Aliás, do Estadão, de 10 livros lançados recentemente para incluir na estante.

-“35 Ensaios de Silviano Santiago” – Companhia das Letras

Parte da produção do ficcionista e crítico literário selecionada por Ítalo Moriconi, com ensaios dedicados a Lévi-Strauss, Drummond, Eça de Queiroz e jovens poetas surgidos na década de 1970.

-“Oblómov”, Ivan Gontcharov – Companhia das Letras

Traduzido por Rubens Figueiredo, o livro, publicado há 160 anos, é um clássico da literatura russa e retrata, segundo a editora, “com indulgência e ironia a elite russa às vésperas de uma mudança radical”.

-“Nova Cosmogonia e Outros Ensaios”, Stanislaw Lem -Perspectiva

Mais conhecido como autor de “Solaris”, o escritor polonês, renomado autor de ficção científica, foi também um ensaísta que não fugia de temas insólitos.  

-“Mary Ventura e o Nono Reino”, Sylvia Plath – Biblioteca Azul

Conto inédito no Brasil da poeta norte-americana escrito aos 20 anos, narra uma viagem de trem até o Nono Reino, ponto final da trajetória de uma jovem prestes a ingressar na vida adulta.  

-“O Futuro da Humanidade”, Michio Kaku – Crítica

Cientista conhecido com cocriador da teoria do campo de cordas, aborda no livro, a conquista de Marte, viagens interestelares com robôs, imortalidade e transumanismo.

-“Churchill & Orwell”, T.E. Ricks – Zahar

Mostra como essas duas figuras foram fundamentais, em tempos de ódio, autoritarismo e retrocessos, para a manutenção da liberdade, um por meio da literatura e o outro com sua prática política.

-“O Mundo Ainda É Jovem”, Domenico de Masi – Vestígio

Na obra, o sociólogo se debruça sobre temas como o trabalho e a longevidade para analisar as opções que se abrem para a humanidade no mundo contemporâneo. 

-“A Mercadoria Mais Preciosa”, Jean-Claude Grumberg -Todavia

Primeira obra do roteirista, dramaturgo e escritor é uma fábula que se distingue por tratar com delicadeza de um dos temas mais pesados da história, o Holocausto.  

-“Serpentário”, Felipe Castilho – Intrínseca

Une elementos das mitologias indígenas, do folclore nacional e da cultura popular a referências cinematográficas e literárias na chave da fantasia ou do horror.  

-“Ecos do Mundo”, Eça de Queiroz – Carambaia

Reúne artigos publicados em jornais, entre 1871 e 1899, e é dividido em quatro seções – Brasil, Inglaterra, França e Mundo. Nosso país é visto com deferência, especialmente em comparação com Portugal.