Drummond eterno

Paisagem de Ouro Preto, de Alberto da Veiga Guignard

Hoje, 17/8, completam-se 32 anos da morte do poeta, escritor, cronista e jornalista, Carlos Drummond de Andrade. Nascido em Itabira (MG) em 31 de outubro de 1902, escreveu seu último poema, “Elegia a um Tucano Morto” em 31 de janeiro de 1987. No dia 5 de agosto, depois de meses de internação, morre, vítima de câncer, sua filha Maria Julieta. Doze dias depois, Drummond falece, aos 84 anos, em decorrência de problemas cardíacos. É enterrado junto com a filha no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Abaixo poema do livro “As Impurezas do Branco”, de 1973.

CANTO MINERAL

Minas Gerais

Minerais

minas de Minas

demais,

de menos?

minas exploradas

no duplo, no múltiplo

sem-sentido

minas esgotadas

a suor e ais,

minas de mil

e uma noites presas

do fisco, do fausto,

da farra; do fim.

Minas de três séculos

mal digeridos

ainda minando

mineralgias míticas.

O ouro desfalece:

Minas na mira

Do erário real.

O diamante esmaece

Minas na surdina

da seresta exausta.

O ferro empalidece:

Minas na ruína

de simplórios donos

de roças mal lavradas.

Minas orgulhosa

de tanta riqueza,

endividada

de tanta grandeza

no baú delida.

Cada um de nós, rei

na sua fazenda,

cada pé de milho

erguia o pendão

de nossa realeza,

cada boi-de-coice

calcava o tesouro

da terra indefesa

negociada

com a maior fineza.

(Ai, que me arrependo

– me perdoa, Minas –

de ter vendido

na bacia das almas

meu lençol de hematita

ao louro da estranja

e de ter construído

filosoficamente

meu castelo urbano

sobre a jazida

de sonhos minérios.

Me arrependo e vendo.)

Minas, oi Minas,

tua estranha sina

delineada

ao bailar dos sinos

ao balir dos hinos

de festins políticos,

Minas mineiral

Minas musical

Minas pastorela

Minas Tiradentes

Minas liberal

Minas cidadela

Minas torturada

Minas surreal

Minas coronela

Minas tal e qual

a pedra-enigma

no labirinto da mina.

Do ferro líquido da forja

do Barão de Eschwege

resta a ficha histórica.

Do rude Cauê,

a TNT aplainado,

resta o postal

na gaveta saudosista,

enquanto milhares

milhafres

de vagões vorazes

levam para longe

a pedra azul guardada

para sua torre

para teu império

postergado sempre.

E as esmeraldas,

Minas que matavam

de esperança e febre

e nunca se achavam

eram verde engano?

Minas sub-reptícia

tarde defendida

de áureas cobiças

pelo astuto jogo

de pensar oculto,

do dizer ambíguo,

do nevoento pairar

de flocos de sigilo

no manifesto anil

sobre serranares.

Minas, nos ares,

Minas que te quero

Minas que te perco

e torno a ganhar-te

com seres metal

diluído em genes,

com seres aço

de minha couraça,

Minas que me feres

com pontiagudas

lascas de minério

e laminados de ironia,

vês?

No coração do manganês

pousa uma escritura

de hipoteca e usura

e o banco solerte

praticando a arte

do cifrão mais forte

Minas

Teimoso lume aceso

mesmo sob cinza,

Minas Acesita

Minas Usiminas

Minas Ipatinga

Minas felina

a custo ensaiando

o salto da serra

bem alto,

o romper de algemas

mais férreas que o ferro,

no rumo certeiro

do Intendente Câmara,

Minas que te miro

desprezando os prazos

de imemoriais atrasos,

de leve batendo à porta

da era espacial,

Minas tório urânio

Minas esperança

Minas detetando

o sinal

sob a tibieza dos homens

e o parangolé da retórica,

Minas mineiralmente

geral      Gerais

auriminas

turmaliniminas

diamantiniminas

muito abaixo da mais uterina

mina recôndita

luzindo

o cristalino

abafado

espírito de Minas.



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