Jabuti 2019

Depois da “surpresa” da escolha da poeta Elizabeth Bishop para a homenagem da edição do ano que vem da Flip, outra revelação inesperada foi a escolha de “Uma História de Desigualdade – A Concentração de Renda entre os Ricos no Brasil 1926-2013” o livro do ano na premiação do Jabuti. O mais tradicional prêmio literário do país anunciou os vencedores deste ano em evento na quinta-feira passada.

O livro de Pedro H. G. Ferreira de Souza, lançado pela Hucitec, aborda a história econômica brasileira e, segundo comentário do professor e pesquisador Marcelo Medeiros, “trata-se do resultado de um trabalho cauteloso, que envolveu uma coleta de dados atenta, selecionou as informações mais precisas e usou as melhores ferramentas, a fim de apresentar a série histórica mais longa e completa sobre a desigualdade no Brasil”.

Outro destaque do Jabuti foi o prêmio póstumo, na categoria “Crônica”, para Fernanda Young, por “Pos-F: Para Além do Masculino e do Feminino”. Na categoria “Romance”, o prêmio foi para “O Pai da Menina Morta”, de Tiago Ferro, lançado pela Todavia.  

Organizado pela Câmara Brasileira do Livro, a 61ª edição do Jabuti premiou obras em 19 categorias divididas em quatro eixos: literatura, ensaio, livro e inovação e homenageou a escritora Conceição Evaristo.

Outros vencedores:

CONTO

“Um Beijo por Mês”, Vilma Arêas – Luna Parque

INFANTIL

“A Avó Amarela”, Júlia Medeiros e Elisa Carareto – ôZé

POESIA

“Nuvens”, Hilda Machado – 34

BIOGRAFIA, DOCUMENTÁRIO E REPORTAGEM

“Jorge Amado”, Joselia Aguiar – Todavia

LIVRO BRASILEIRO PUBLICADO NO EXTERIOR

“A Resistência”, Julian Fuks

Um lugar para ficar quieto

Tela de Edward Hopper, do acervo do Metropolitan Museum of Art

Crônica de Rubem Braga, do livro “Ai de ti, Copacabana”, em edição da Record, de 2008.

A Casa

Outro dia eu estava folheando uma revista de arquitetura. Como são bonitas essas casas modernas; o risco é ousado e às vezes lindo, as salas são claras, parecem jardins com teto, o arquiteto faz escultura em cimento armado e a gente vive dentro da escultura e da paisagem.

Um amigo meu quis reformar seu apartamento e chamou um arquiteto novo.

O rapaz disse: “vamos tirar esta parede e também aquela; você ficará com uma sala ampla e cheia de luz. Esta porta podemos arrancar; para que porta aqui? E esta outra parede vamos substituir por vidro; a casa ficará mais clara e mais alegre.” E meu amigo tinha um ar feliz.

Eu estava bebendo a um canto, e fiquei em silêncio. Pensei nas casinhas que vira na revista e na reforma que meu amigo ia fazer em seu velho apartamento. E cheguei à conclusão de que estou velho mesmo.

Porque a casa que eu não tenho, eu a quero cercada de muros altos, e quero as paredes bem grossas e quero muitas paredes, e dentro da casa muitas portas com trincos e trancas; e um quarto bem escuro para esconder meus segredos e outro para esconder minha solidão.

Pode haver uma janela alta de onde eu veja o céu e o mar, mas deve haver um canto bem sossegado em que eu possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas, um canto sossegado onde um dia eu possa morrer.

A mocidade pode viver nessas alegres barracas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste; onde ele possa bradar, sem medo nem vergonha, o nome de sua amada: Joana, JOANA! – certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar de andar nu de corpo e alma, e sítio para falar sozinho.

Onde eu, que não sei desenhar, possa levar dias tentando traçar na parede o perfil de minha amada, sem que ninguém veja e sorria; onde eu, que não sei fazer versos, possa improvisar canções em alta voz para o meu amor, onde eu que não tenho crença, possa rezar a divindades ocultas, que são apenas minhas.

Casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo.

Rio, maio de 1957

Imperdíveis para ouvir

Em matéria assinada por Mariana Felipe, a revistabula.com listou 15 audiolivros imperdíveis do catálogo da Auti Books, plataforma lançada recentemente no país pelas editoras Sextante, Record e Intrínseca, em união com a Bronze Ventures.

“O Quinze”, Rachel de Queiroz

“Reinações de Narizinho”, Monteiro Lobato

“Vidas Secas”, Graciliano Ramos

“1984”, George Orwell

“Antes do Baile Verde”, Lygia Fagundes Telles

“O Guia do Mochileiro das Galáxias”, Douglas Adams

“O Fascismo Eterno”, Umberto Eco

“Sapiens”, Yuval Noah Harari

“Um Coração Ardente”, Lygia Fagundes Telles

“Dias Perfeitos”, Rafael Montes

“A Sutil Arte de Ligar o F*da-se”, Mark Manson

“Ted Talks”, Chris Anderson

“Trópicos Utópicos”, Eduardo Gianetti

“O Sol na Cabeça”, Geovani Martins

“21 Lições para o Século 21”, Yuval Noah Harari

Um assunto que não acabou

Obra de Jean-Baptiste Debret

Trecho de entrevista do escritor Laurentino Gomes, autor de “Escravidão”, lançado recentemente pela Globo Livros, ao jornal El País. Matéria completa no link https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/19/politica/1574203693_074968.html.

“Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão. Primeiro por uma razão estatística: o Brasil foi o maior território escravista da América, com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso dá 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. Foi o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, e o último a acabar com a própria escravidão, em 1888. O Brasil foi construído por escravos, em todos os ciclos econômicos, passando pelo açúcar, ouro, diamante, café. A escravidão não é um assunto acabado, tema de museu ou livro de história. Ela está presente na realidade brasileira. Os abolicionistas do século XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas abolições. A primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei Áurea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como cidadãos, dando terra, emprego, educação, e isso o Brasil jamais fez. O país abandonou sua população afrodescedente à própria sorte.”

Poeta americana é a homenageada da Flip 2020

Elizabeth Bishop e o gato Tobias. Foto de 1954, do Vassar College Library

Os organizadores da Festa Literária Internacional de Paraty oficializaram ontem o nome que será homenageado no ano que vem: Elizabeth Bishop. Partindo para sua décima-oitava edição, pela primeira vez a Flip celebra um autor estrangeiro. Bishop (1911-1979), nasceu em Worcester, nos EUA, foi premiada com o Pulitzer de poesia em 1956 e viveu 20 anos no Brasil, de 1951 a 1971, no Rio, em Petrópolis e Ouro Preto. Aqui, onde chegou para passar alguns dias, a poeta conheceu a arquiteta Lota de Macedo Soares, com quem passou a ter um relacionamento amoroso, marcado pelo estranhamento cultural, por crises de asma, depressão e alcoolismo.

Da escassa biografia em português, dois livros da autora e um sobre ela merecem destaque: “Poemas Escolhidos”, “Uma Arte: as Cartas de Elizabeth Bishop”, ambos com tradução de Paulo Henriques Britto e lançados pela Companhia das Letras, e “Flores Raras e Banalíssimas: A História de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop”, de Carmen L. Oliveira, lançado pela Rocco. Esse último deu origem ao filme de mesmo nome, de 2013, dirigido por Bruno Barreto com Glória Pires e Miranda Otto como protagonistas.