Olhares sobre o mundo contemporâneo

A convite do jornal Valor Econômico, 20 personalidades de destaque em suas áreas de atuação indicaram livros que consideram fundamentais para entender o Brasil e o mundo de hoje. Confira os títulos sugeridos e quem indica.

“Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Eventos”, Robert Shiller – Princeton University Press (Ainda sem edição em português) – ANTONIO DELFIM NETTO/Economista

“A Terra Inabitável: Uma História do Futuro”, David Wallace-Wells – Companhia das Letras – AILTON KRENAK/Líder Indígena e escritor

“The Color of Modernity: São Paulo and the Making of Race and Nation in Brazil”, Barbara Weinstein – Duke University Press (Deve ser lançado em português ainda neste ano pela Edusp) – JAMES GREEN/Historiador brasilianista e professor

“21 Lições para o Século 21” – Yuval Noah Harari – Companhia das Letras – VIVIANE SENNA/Presidente do Instituto Ayrton Senna E DOM WALMOR OLIVEIRA DE AZEVEDO/Arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB

“Nietzsche Hoje: Sobre os Desafios da Vida Contemporânea”, Viviane Mosé – Vozes – VIVIANE MOSÉ/Doutora em Filosofia e escritora

“A Casa no Brasil”, Antonio Risério – Topbooks – TOM ZÉ/Cantor e compositor

“O Valor das Ideias: Debate em Tempos Turbulentos”, Marcos Lisboa, Samuel Pessôa e Outros – Companhia das Letras – EDUARDO GIANNETTI/Economista e ensaista

“Intervencionismo: Uma Análise Econômica”, Ludwig von Mises – LVM Editora – HELIO BELTRÃO/Engenheiro

“Sobre o Autoritarismo Brasileiro”, Lilia Moritz Schwarcz – Companhia das Letras – ILONA SZABÓ/Cientista política

“Essencialismo: A Disciplinada Busca por Menos”, Greg McKeown – Sextante – BERNARDINHO/Treinador de vôlei e empresário

“O Ambiente na Encruzilhada: Por um Futuro Sustentável”, Viriato Soromenho-Marques (Org.) – Esfera do Caos – MARINA SILVA/Ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente

“O Livro do Apocalipse, da Bíblia”, SONIA GUIMARÃES/Professora do ITA

“Mulheres Empilhadas”, Patrícia Melo – Leya – ANDRÉA PACHÁ/Juíza e escritora

“Essa Gente”, Chico Buarque – Companhia das Letras – MARTHA BATALHA/Escritora

“Escravidão”, Laurentino Gomes – Globo Livros – RAUL CUTAIT/Médico e professor

“Como as Democracias Morrem”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt – Zahar – MARCELO FREIXO/Deputado federal

“Como a Democracia Chega ao Fim”, David Runciman – Todavia – LAURA CARVALHO/Economista e professora

“Organizações Exponenciais”, Salim Ismail, Michael S. Malone e Yuri Van Geest – Alta Books – GUILHERME BENCHIMOL/CEO da XP Inc.

“10% Humano: Como os Micro-Organismos são a Chave para a Saúde do Corpo e da Mente”, Alanna Collen – Sextante – FERNANDO MEIRELLES/Cineasta

98 anos de Paulo Mendes Campos

Para celebrar os 98 anos de nascimento do escritor Paulo Mendes Campos, completados hoje (28), crônica publicada no livro “O Amor Acaba”. Nascido em Belo Horizonte, o poeta, tradutor e jornalista foi, ao lado de Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino, um dos principais nomes de uma geração de mineiros que se consagrou na história da literatura brasileira. Campos faleceu de ataque cardíaco, aos 69 anos, no dia 1º de julho de 1991.

DECLARAÇÃO DE MALES

Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.

Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.

Giannotti coteja Martin e Ludwig

Saindo, pela Companhia das Letras, Heidegger/Wittgenstein – Confrontos, uma obra combativa, segundo apresentação da editora, que põe no ringue dois dos principais filosófos do século passado. Assinado pelo professor emérito da Universidade de São Paulo, José Arthur Giannotti, o livro aborda os confrontos e as surpreendentes proximidades entre o intelectual alemão e o austríaco, naturalizado britânico. O primeiro é associado a uma vertente fundacionista da filosofia, na qual a pergunta pelo ser – por seu significado, por seu fundamento – tem papel de destaque. Já para Wittgenstein, a pergunta pelo fundamento deve ser substituída pelas condições em que se dá a pergunta.

Os melhores da década, segundo os leitores da Bula

Pesquisa realizada pela Revista Bula no ano passado entre seus assinantes aponta os 10 melhores romances e os 10 melhores livros de poesia brasileira da primeira década do século. Confira abaixo os mais citados.

ROMANCE

“Barba Ensopada de Sangue”, Daniel Galera – 2012

“Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas”, Elvira Vigna – 2016

“O Drible”, Sérgio Rodrigues – 2013

“O Amor dos Homens Avulsos”, Victor Heringer – 2016

“Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos”, Evandro Affonso Ferreira – 2014

“Quarenta Dias”, Maria Valéria Rezende – 2014

“O Tribunal da Quinta-feira”, Michel Laub – 2016

“A Máquina de Madeira”, Miguel Sanches Neto – 2012

“Presos no Paraíso”, Carlos Marcelo – 2017

“Naqueles Morros, Depois da Chuva”, Edival Lourenço – 2011

POESIA

“Anjo Noturno”, Sérgio Sant’Anna – 2017

“A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos”, Sérgio Rodrigues – 2019

“Sem Vista para o Mar”, Carol Rodrigues – 2014

“Desgracida”, Dalton Trevisan – 2010

“As Coisas”, Tobias Carvalho – 2018

“A Bicicleta de Carga e Outros Contos”, Miguel Sanches Neto – 2018

“Essa Coisa Brilhantes que é a Chuva”, Cintia Moscovich – 2012

“O Sol na Cabeça”, Geovani Martins – 2018

“Alguns Humanos”, Gustavo Pacheco – 2018

“Amora”, Natalia Borges Polesso – 2016

Mário perde a vergonha

Bloco Cordão da Bola Preta na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, Carnaval de 1959

Carta de Mário de Andrade para Manuel Bandeira, do acervo do Instituto Moreira Salles.

[São Paulo, fevereiro de 1923]

Não me condenes antes que me explique.

Depois perdoarás.

Foi assim. Desde que cheguei ao Rio disse aos amigos: dois dias de carnaval serão meus. Quero estar livre e só. Para gozar e observar. Na segunda-feira, passarei o dia com Manuel, em Petrópolis.  Voltarei à noite para ver os meus afamados cordões.

Meu Manuel… Carnaval!… Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia… Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar… Fui ordinaríssimo. Além do mais: uma aventura curiosíssima. Desculpa contar-te toda esta pornografia. Mas… Que delícia, Manuel, o carnaval do Rio! Que delícia, principalmente, meu carnaval! Se estivesses aqui, a meu lado, vendo-me o sorriso camarada, meio envergonhado, meio safado com que te escrevo: ririas. Ririas cheio de amizade e de perdão.

Nada me faz esquecer-te. Mas quem falou em esquecimentos e abandonos? Nem tu, tenho certeza disso. Foi leviandade. Criançada, nada mais. Meu cérebro acanhado, brumoso de paulista, por mais que se iluminasse em desvarios, em prodigalidades de sons, luzes, cores, perfumes, pândegas, alegria, que sei lá!, nunca seria capaz de imaginar um carnaval carioca, antes de vê-lo. Foi o que se deu. Imaginei-o paulistamente. Havia um quê de neblina, de ordem, de aristocracia nesse delírio imaginado por mim. Eis que sábado, às 13 horas, desemboco na Avenida. Santo Deus! Será possível!…

Sabes: fiquei enojado. Foi um choque terrível. Tanta vulgaridade. Tanta gritaria. Tanto, tantíssimo ridículo. Acreditei não suportar um dia a funçanata chula, bunda e tupinambá. Cafraria vilíssima, dissaborida. Última análise: “Estupidez”!

Assim julguei depois de dez minutos que não ficaria meia hora na cidade.

Mas, por isso talvez que tanto tenho sofrido dos julgamentos levianos, jurei para mim olhar sempre as coisas com amor e procurar compreendê-las antes de as julgar. Comecei a observar. Comecei a compreender. Uma conversa iluminava-me agora sobre uma ridícula baiana que há pouco vira. A pobreza de uns explicava-me a brincadeira de outros.

Admirei repentinamente o legítimo carnavalesco, o carnavalesco carioca, o que é só carnavalesco, pula e canta e dança quatro dias sem parar. Vi que era um puro! Isso me entonteceu e me extasiou. O carnavalesco legítimo, Manuel, é um puro. Nem lascivo, nem sensual. Nada disso. Canta e dança. Segui um deles uma hora talvez. Um samba num café. Entrei. Outra hora se gastou.

Manuel: sem comprar um lança-perfume, uma rodela de confete, um rolo de serpentina, diverti-me 4 noites inteiras e o que dos dias me sobrou do sono merecido.

E aí está porque não fui visitar-te.

Estou perdoado.

Sei que me perdoarás principalmente quando souberes que até parentes, moradores da rua Dona Mariana, deixei de visitar.

Principalmente quando souberes que tendo perdido tantas coisas no carnaval, não perdi a máquina fotográfica, antes cinematográfica de meu subconsciente. Aqui estou na vida quotidiana. Pois não é que ontem começaram a se revelar fotografias e fotografias dentro de mim! Pois não é que, no écran das folhas brancas, começou a se desenrolar o filme moderníssimo dum poema!

“Carnaval Carioca”. Está saindo. Parece mesmo que estou satisfeito com ele. Será mais ou menos longo. E muito meu. Há um trechinho sobre o destino do poeta, descrevo a dona de minha aventura, rezo, canto, grito… O diabo! O menos jeune fille dos meus poemas. Quando estiver pronto, receberás cópia.

Me basta de carnaval.

Quero agora dizer-te quanto me agradou o carinho e a verdade do teu artigo. És muito bom e muito amigo. Muito obrigado. ­­­– Nem podes imaginar como é grande este “muito obrigado” porque não imaginas o benefício que me fazes. Eu, diretor (ex, porque já chegou o homem que eu substituía) do Conservatório, crítico gritador, homem corajoso, forte… Pura máscara! Puro carnaval! No fundo sou uma criança. Infantil. Titubeio. Duvido. Se não tivesse raiva de mim mesmo, creio que choraria.

O que vocês, rapazes do Rio, fizeram por mim, é coisa que nunca pagarei.

Trago-te comigo.

Até breve.

Até junho ver-nos-emos no Rio? Ou em Petrópolis se ainda lá estiveres.

Dessa vez nenhum carnaval me fará roer a corda.

Até breve, mais uma vez.

MÁRIO