A arrogância da ignorância

Foto: Harvard/Divulgação

Em entrevista recente à BBC News Brasil, o professor de História e de Estudos Africanos e Afro-americanos na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Sidney Chalhoub, faz uma análise sobre a responsabilidade de governos e possíveis legados positivos da pandemia da Covid-19. Chalboub é autor, entre outros livros, de “Cidade Febril: Cortiços e Epidemias na Corte Imperial”, em descreve como doenças infecciosas mudaram o Brasil na virada do século 19 para o 20, “Trabalho, Lar e Botequim”, sobre a vida nas classes baixas cariocas, e de “Visões da Liberdade”, sobre as últimas décadas de escravidão na cidade.

Abaixo trecho da entrevista com o comentário de Chalhoub sobre a possibilidade de a pandemia nos deixar legados positivos. Entrevista completa pelo link: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52250448.

“Acho que sim. Por mais que tenhamos passado os últimos anos governados pelas fake news, nessa hora todo mundo espera a salvação pela ciência.

Espero que a epidemia ajude a desautorizar políticos levianos que têm governado várias partes do mundo com a arrogância da ignorância. Essa arrogância está agora sendo desmascarada por fatos trágicos.

No Brasil, a figura do presidente, que é uma caricatura disso, mostra como a ignorância é impotente contra a tragédia.

Não há solução fora de uma vacina, ou da descoberta de medicamentos eficazes, ou de seguir recomendações sanitárias que diminuam o estrago imediato.

Isso mudou em relação às epidemias dos séculos 19 e início do 20. Hoje há uma medicalização muito maior da sociedade e o entendimento da eficácia da medicina científica.

O que torna essa pandemia mais assustadora é que ela é uma metáfora perfeita da globalização. Ela segue a trilha das mercadorias e da circulação de pessoas de maneira tão radical e tão incontrolável quanto a ideologia neoliberal imaginava que a economia poderia ser.

Sempre houve uma relação direta entre a circulação de mercadorias e a de vírus e bactérias. A cólera e a febre amarela só viraram pandemias no século 19 quando os navios ficaram mais rápidos e quando começou a ter estrada de ferro.

Só que a pandemia atual é ainda mais rápida. Esse neoliberalismo agressivo que tomou conta das políticas econômicas internacionais criou outro problema, porque essas políticas diminuíram o Estado, e, de repente, os países se veem despreparados para lidar com uma crise aguda de saúde pública.

É por isso que ela também ataca o imaginário de forma tão radical. Ela coloca em questão todo um meio de vida e de pensar a economia nas últimas décadas, o Estado mínimo e a naturalização das desigualdades.

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