O método Hemingway

Quarto ocupado por Hemingway no hotel Ambos Mundos. Foto: inHavana

Abaixo, trecho da entrevista concedida pelo escritor Ernest Hemingway ao jornalista George Plimpton e publicada no volume 2 da série “Os Escritores – As Históricas Entrevistas da Paris Review”, lançado pela Companhia das Letras e hoje fora de catálogo. Aqui, o Prêmio Nobel de 1954 comenta seus hábitos de produção.

-As horas que o senhor dedica à escrita propriamente dita são agradáveis?

-Muito.

-Poderia falar um pouco sobre esse processo? Em que período trabalha? O senhor segue uma programação estrita?

-Quando estou trabalhando em um livro ou um conto, escrevo diariamente de manhã, a partir da hora em que surge a primeira luz. Não tem ninguém para perturbar, é fresco, ou mesmo frio. Começo a trabalhar e vou esquentando conforme escrevo. Leio o que fiz no dia anterior e, como sempre paro num trecho a partir do qual sei o que vai acontecer, prossigo desse ponto. Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida; paro e tento sobreviver até o dia seguinte, para voltar à carga. Se começo às seis da manhã, digamos, posso ir até meio-dia, ou interromper o trabalho um pouco antes. A interrupção dá uma sensação de vazio, como quando se faz amor com quem se gosta. E ao mesmo tempo não é um vazio, mas um transbordamento. Não há nada que o atinja, nada acontece, nada tem sentido até o dia seguinte, quando você faz tudo de novo. Difícil é viver a espera até o dia seguinte.

-Consegue tirar da cabeça um projeto, seja ele qual for, quando está longe da máquina?

-Claro. Mas é preciso disciplina para se fazer isso, e essa disciplina se conquista. Tem de ser assim.

-O senhor reescreve alguma coisa ao reler o que escreveu no dia anterior? Ou isso vem depois, quando já está tudo pronto?

-Eu sempre reescrevo, na manhã seguinte, o trecho do dia anterior. Naturalmente, quando acabo, repasso tudo outra vez. E tem-se mais uma chance de corrigir e reescrever quando outra pessoa datilografa, e se vê o texto passado a limpo, datilografado. A última oportunidade é nas provas. É bom ter tantas chances diferentes.

-Quantas vezes reescreve um texto?

-Depende. Reescrevi o final de “Afarewell to Arms”, a última página, trinta e nove vezes, até ficar satisfeito.

-Por quê? Havia algum problema técnico? O que o preocupava?

-Pôr as palavras do jeito certo.

-Essa releitura que recupera a “seiva” o “gás”?

-A releitura me coloca no ponto exato onde tem que haver a continuação, dando a noção de que tudo está tão bom quanto possível. A seiva está sempre em algum lugar.

-Mas existem momentos em que a inspiração não vem de jeito nenhum?

-Sem dúvida. Mas ao parar num ponto em que sabia o que viria depois, posso ir em frente. Desde que consiga começar, tudo bem. O gás aparece.

-Thornton Wilder fala de recursos mnemônicos que ajudam o escritor a saber a quantas anda o seu dia de trabalho. Ele diz que uma vez o senhor contou que apontou vinte lápis.

-Acho que nunca cheguei a ter vinte lápis ao mesmo tempo. Gastar sete lápis número 2 é um bom dia de trabalho.

-Pode citar alguns dos lugares que considera mais propícios para trabalhar? O hotel Ambos Mundos deve ter sido um deles, a julgar pelo número de livros que escreveu lá. Ou, na sua opinião, o ambiente tem pouca influência sobre o trabalho?

-O Ambos Mundos, em Havana, foi um lugar muito bom para trabalhar. O Finca é um lugar fantástico, ou melhor, foi. Mas eu trabalho bem em qualquer lugar. Quer dizer, consigo trabalhar tão bem quanto me é possível nas circunstâncias mais variadas. Telefone e visitas são inimigos mortais do trabalho.

-É necessário ter estabilidade emocional para se escrever bem? O senhor me disse uma vez que só conseguia escrever bem quando estava apaixonado. Poderia se estender um pouco mais nesse assunto?

-Mas que pergunta! Nota dez pela tentativa. Você consegue escrever sempre que as pessoas deixam você em paz e não interrompem. Quer dizer, consegue se for duro o bastante em relação a isso. Mas, com toda certeza, escreve-se melhor quando se está apaixonado. Se você estiver de acordo, prefiro não me estender sobre esse assunto.

-E a questão da segurança financeira? Pode prejudicar a qualidade do que se escreve?

Se ela vem relativamente cedo e você ama a vida tanto quanto o seu trabalho, é preciso ser muito forte para resistir às tentações. Uma vez que escrever tenha se tornado seu maior vício e seu maior prazer, só a morte pode acabar com isso. A segurança financeira, então, é uma grande ajuda, já que evita que você fique se preocupando. A preocupação destrói a capacidade de escrever. Uma doença incomoda, na medida em que gera uma preocupação subconsciente, minando suas reservas.

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