O mar de Drummond

William Turner/National Gallery

O MAR, NO LIVING

O mar entra no living

mal a primeira tinta

do dia se define.

Passa pelo vidro

e em pouco submergem

pessoas e tapetes,

poltronas, gestos,

nomes,

quadros,

vozes.

O mar tudo recobre

sem nada asfixiar.

No côncavo marinho

o ir-e-vir espelha

a vida costumeira

de peixes adestrados

que observam a lei

de viventes em casa.

Ao meio-dia, o mar

instala-se por completo

nos metais e na pele

dos moradores.

Deixa esparso no ar

um tremor de prata

incendiada.

Pela tarde singramos

o mar e nos quedamos

na mesma onda imóvel

que na beira dos copos

junta ao álcool dourado

a amargura do sal

sem que sal se perceba.

Quando a noite descerra

as pétalas de sombra

sem recorte sonâmbulo

de lua sobre as águas,

e o sono deposita-se

em cada castiçal,

cinzeiro, campanhia

e dobra de cortina,

e os passos amortecem

no surdo corredor,

eis que o mar se retira

para si mesmo e longe,

ou nós é que emergimos

da espessura das águas

tornadas invísiveis.

O mar chega de volta,

mal a primeira tinta

se define, do dia,

e o living, baía,

com todo o mobiliário

e pessoas, imersos,

prossegue o balouçante

estar sozinho e verde,

verdisozinho imenso

em pura escuridão.

Carlos Drummond de Andrae, “As Impurezas do Branco”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s