Olhando as nuvens

Fernand Léger - 340 Artworks, Bio & Shows on Artsy
Fernand Léger

NO MAR

Se soubesse cantar alguma coisa cantaria O Ébrio, de Vicente Celestino. “Tornei-me um ébrio…”

Um grande cansaço pesava em todo o seu corpo, por onde a água escorria. Fechou o chuveiro, começou a se enxugar lentamente. Quando foi se vestir, a porta do armário estava aberta, a que tem o espelho dentro, e ele se viu nu. Achou-se branco, destestavelmente branco como um europeu, sentiu-se meio gordo e mole. Há quanto tempo não tomava um banho de mar!

Odiou, de repente, sua vida de trabalho e de bar, vivida quase toda sob a luz artificial. Tinha mil coisas a fazer na cidade; precisava ir ao escritório daquele sujeito, telefonar para quatro ou cinco pessoas, providenciar aqueles papéis.

O telefone bateu. Ia atender, mas sentiu que se atendesse ficaria preso – preso àquele fio negro, aos compromissos, às salas dos edifícios do centro, à vida de todo dia. O telefone ainda tocava quando ele saiu. O sol era leve. Comprou três mexericas, saltou para a praia, esticou-se se na areia, de bruços, os olhos dobre um braço, recebendo nas costas o calor do sol. Dentro de sua cabeça ainda giravam conversas e músicas da madrugada, rostos de mulheres, encrencas de negócios.

Quando se levantou e começou a andar pela praia, teve a impressão de que, sob um guarda-sol colorido, estava um casal conhecido. Passou longe; não queria encontrar ninguém, tinha um certo pudor de seu corpo assim branco pesado, sem graça. Foi andando e sentindo prazer em andar ao sol, em encher os pulmões de vento de mar. Num trecho de praia deserto teve vontade de fazer ginástica; mas se deixou ir andando a chapinhar, como menino, pela água cheia de espumas.

Foi quando parou, e ficou olhando as espumas, enquanto a marola se retirava, levando um pouco de areia sob os seus pés, e sentiu uma leve tontura, e teve consciência de como se afastara do mar, de como se fizera estranho ao mar, de como se esquecera do mar, como quem se esquece de um grande amigo ou de grande um cão querido, de uma pátria idolatrada, de uma mulher amada. Foi avançando devagar; recebeu no peito, depois na cara, os primeiros borrifos de espuma e, como sentisse frio, deu mais alguns passos depressa, para poder mergulhar. Teve prazer em beber um pouco de água salgada, depois em receber no corpo uma lambada de onda mais forte. Avançou ainda, passou a arrebentação, começou a nadar para fora; depois se voltou de costas, ficou boiando. Olhava duas nuvens brancas no céu muito azul. Era como se fossem as mesmas nuvens de vinte anos atrás, de trinta anos atrás, no mesmo céu da infância – e tudo o que tinha acontecido depois fora escuro e sem sentido, os homens com quem lidara, as mulheres que amara, e as brigas e tristezas – tudo era remoto e absurdo como um pesadelo em um túnel. As nuvens se moviam devagar. Sentiu que seu corpo ia afundando, moveu levemente os pés, sentia o sol quente na cara molhada.

Quando começou a nadar para voltar à terra, percebeu que uma forte corrente o puxava para fora, com uma força invencível, e que os músculos de seus braços doíam de fadiga. Debateu-se ainda, algum tempo, com uma súbita raiva de animal que não quer morrer, e a água abafou o seu grito rouco. Pensou confusamente que deixara as três mexericas na praia, e o telefone tocando no apartamento. Longe, no horizonte, passava um vapor.

Rubem Braga – Rio, abril de 1952 – Do livro “A Borboleta Amarela”, Record/1982

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s