Keynes comenta

O economista britânico na Conferência de Bretton Woods, em 1944

“O que sinto com respeito a “O Capital” é o mesmo que sinto com respeito ao “Alcorão”. Sei que é historicamente importante e sei que muitas pessoas, nem todas elas idiotas, julgam-no uma espécie de oráculo e fonte de inspiração. Mas, quando examino a obra, é inexplicável para mim que ela possa produzir tal efeito. Seu polemismo enfadonho, ultrapassado e acadêmico parece extraordinariamente inadequado como material para esses fins. Por outro lado, como já disse, sinto o mesmo com relação ao “Alcorão”. Como é que qualquer um desses livros pôde levar o fogo e a espada a metade do planeta? Não consigo entender. Está claro que existe algum defeito em minha compreensão”.

John Maynard Keynes em carta de 1934 ao escritor irlandês Bernard Shaw em resposta à sugestão de que a leitura de “O Capital” poderia ajudá-lo em seu trabalho teórico. Fonte: “O Livro das Citações”, de Eduardo Giannetti, no capítulo “A Interpretação dos Clássicos”.

Uma questão científica

Yuval Noah Harari comenta os impactos da subordinação da ciência à política ao responder pergunta sobre a série “Chernobyl”, da HBO, em entrevista recente à revista Trip.

“…narra um caso clássico do que acontece quando cientistas estão subordinados a políticos. Os políticos na União Soviética não quiseram admitir que houve um acidente e que milhões de pessoas estavam correndo perigo, nem assumir a responsabilidade por isso. E foi um desastre. Porque os cientistas não tinham a independência de falar para a população que esse era um acidente nuclear e que dezenas de milhões de pessoas estavam correndo perigo devido à radiação. Por isso é tão importante que os cientistas sejam independentes. Eles não deveriam ser encarregados de estabelecer políticas. Esse é o território de políticos eleitos pelas pessoas. Mas as políticas deveriam refletir os fatos. As mudanças climáticas são um exemplo clássico. Não cabe aos políticos, nem aos eleitores, decidir se elas são reais ou não. É uma questão científica. Já o que fazer em relação a essa questão é uma decisão política. Vamos criar um imposto de carbono? Estabelecer um acordo global? Vamos decidir não fazer nada? Ok, em 20, 40 anos vai ser difícil, mas se as pessoas votarem por isso tudo bem, faz parte da democracia. Mas elas deveriam votar conhecendo os fatos, e não negando-os.”

Nelson atualíssimo

Head of a Shouting Man/1st Art Gallery

Para lembrar os 39 anos da morte do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980). Além de frasista memorável, foi autor de clássicos como “Vestido de Noiva”, “A Falecida”, “Beijo no Asfalto” e “Toda Nudez Será Castigada”.

“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”

O primeiro romance

“Ainda lembro da minha surpresa quando soube que o primeiro grande romance da literatura universal foi escrito por uma dama de companhia da corte japonesa por volta do ano 1000.1 Não sabemos o nome verdadeiro da autora, que veio a ser conhecida como Murasaki Shikibu, sua inesquecível protagonista. Essa senhora anônima da corte criou um mundo literário de biombos, leques e poemas que era diferente de qualquer coisa escrita até então.”

Trecho do livro “O Mundo da Escrita”, de Martin Puchner

Equívocos na rede

Imagem: PicMix

Numa “Breve História dos Versos Apócrifos”, o jornal espanhol El País selecionou casos clássicos de poemas e textos que se disseminam pelas redes atribuídos a autores errados. No Brasil, Clarice Lispector já é campeã no gênero. Na lista do El País estão, entre outros, o caso do poema cujo começo diz “Primeiro vieram buscar os socialistas, e eu não disse nada, porque eu não era socialista”. O verso circula em diferentes versões e é usualmente atribuído a Bertold Brecht. Na verdade, é do pastor luterano Martin Niemöller.

“Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima tentaria cometer mais erros”, começa o poema Instantes, geralmente atribuído ao escritor Jorge Luis Borges, mas sua autora é a norte-americana Nadine Stair. O poema A Morte Devagar, da brasileira Martha Medeiros, segundo o jornal, viralizou atribuído falsamente ao Nobel chileno Pablo Neruda. Começa assim: “Morre lentamente quem não viaja, / quem não lê, / quem não ouve música”.