Sobre opiniões divergentes

The EyeDate – 1932/35, do belga René Magritte

“São talvez as vantagens de nosso tempo que trazem consigo um retrocesso e uma ocasional subestimação da vita contemplativa. […] Como falta tempo para pensar e tranquilidade no pensar, as pessos não mais ponderam as opiniões divergentes: contentam-se em odiá-las. Com o enorme aceleramento da vida, o espírito e o olhar se acostumam a ver e julgar parcial ou erradamente, e cada qual semelha o viajante que conhece terras e povos pela janela do trem.”

Nietzsche (1878)

Ontem e hoje

Virgem no Portão de Varvarsky: beijos de fiéis em busca de proteção transformaram ícone no mais mortífero centro de contágio da peste bubônica em Moscou

Não é de agora que as pandemias aterrorizam a humanidade. Do tétano à meningite, passando pelo tifo, varíola e a gripe espanhola, milhares de pessoas vêm sendo abatidos ao longo do tempo planeta afora diretamente pelas doenças ou indiretamente pelos desgovernos de suas lideranças no enfrentamento a elas. Mudam-se os vírus, as bactérias, os reis e os presidentes, mas o pêndulo da história continua se movimentando. Abaixo, trecho da biografia de “Catarina – A Grande”, de Robert K. Massie, lançada aqui pela Rocco. No Século XVIII, entre uma guerra com a Polônia e mais uma com a Turquia, um outro inimigo espreitava a imperatriz e o povo russo: a peste bubônica.

“A peste era uma ameaça perene nas fronteiras ao Sul com a Turquia ocidental. Acreditava-se que ocorria apena em climas quentes. A relação com pulgas e ratos era desconhecida. A defesa tradicional era o isolamento, desde a quarentena de indivíduos portadores até cordões de isolamento feitos por tropas vedando regiões inteiras.

Em março de 1770, a peste apareceu nas tropas russas que ocupavam a província balcânica turca de Valáquia. Em setembro, chegou a Kiev, na Ucrânia. O frio do outono retardou o avanço da doença, mas já havia refugiados indo para o Norte. Em meados de janeiro de 1771, o susto tinha passado, mas com o primeiro degelo da primavera os moscovitas começaram a apresentar as manchas escuras e as glândulas inchadas características da peste. Cento e sessenta operários morreram numa única semana numa fábrica têxtil da cidade. Em 17 de março, Catarina decretou medidas de quarentena de emergência em Moscou. Foram suspensos todos os bailes, representações teatrais e todas as grandes aglomerações públicas. Uma súbita queda da temperatura no fim de março provocou uma redução abrupta da taxa de mortalidade. Catarina e as autoridades municipais diminuíram as restrições. Ao fim de junho, porém, a peste ressurgiu. Em agosto devastava a cidade. Soldados que removiam corpos nas ruas caíam doentes e morriam. O chefe do departamento médico de Moscou solicitou licença médica de um mês para tratar da doença. Em 5 de setembro, Catarina foi informada de que o número de mortes diárias estava entre trezentos e quatrocentos; corpos largados enchiam as ruas, a rede de pontos de inspeção em torno da cidade estava inoperante, e o povo estava passando fome porque não havia entrega de suprimentos. Homens, mulheres e crianças doentes eram orientados a dar entrada nos centros de quarentena.

A imposição de precauções médicas resultou em tumulto. Na população aterrorizada de Moscou, muitos passaram a crer que os médicos e seus remédios é que tinham trazido a peste à cidade. Recusavam-se a obedecer às proibições de se reunir nos mercados e nas igrejas, e de beijar ícone supostamente milagrosos na esperança de ter proteção. Pelo contrário, se reuniam em torno desses ícones em busca de consolo e salvação. Uma famosa imagem da Virgem no Portão de Varvarsky era um verdadeiro imã. Dia após dia, uma multidão de doentes se amontoava aos seus pés. Ela se tornou o mais mortífero centro de contágio em Moscou.

(…)

Catarina viu que Moscou e sua população estavam fugindo ao controle. Os nobres tinham deixado a cidade, seguindo para suas propriedades rurais. As fábricas e as oficinas estavam fechadas. Os operários, os servos e os camponeses urbanos, morando amontoados em casas de madeira cheias de ratos e infestadas de pulgas transmissoras da peste, foram deixados ao deus-dará. No fim de setembro, a imperatriz recebeu uma mensagem do governador de Moscou, o general Pedro Saltykov, de 72 anos, dizendo que o número de mortes passava de oitocentas por dia, e ele não sabia o que fazer. A situação estava totalmente fora de controle e ele pedia autorização para sair da cidade até a chegada do inverno.”

O medo eterno

Death and the Maiden, do pintor austríaco Egon Schiele

Trecho final de artigo do escritor Mario Vargas Llosa, publicado pelo jornal espanhol El País, após aportar sua confiança no fato de que, a exemplo, de outras pestes, a Pandemia do Coronavírus será logo debelada pelos cientistas. Artigo na íntegra pelo link https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-18/retorno-a-idade-media.html.

“O que não passará é o medo da morte, do além, que é o que se aninha no coração destes terrores coletivos que são o temor em relação às pestes. A religião aplaca esse medo, mas nunca o extingue, sempre fica, no fundo dos crentes, esse mal-estar que aumenta às vezes e se transforma em medo pânico, do que haverá uma vez que se cruze aquele limiar que separa a vida do que há além dela: a extinção total e para sempre? Essa fabulosa divisão entre o céu para os bons e o inferno para os malvados de um deus brincalhão, que as religiões prognosticam? Alguma outra forma de sobrevivência que não foram capazes de notar os sábios, os filósofos, os teólogos, os cientistas? A peste de repente traz estas perguntas, que na vida cotidiana normal estão confinadas nas profundezas da personalidade humana, para o momento presente, e homens e mulheres devem responder a elas, assumindo sua condição de seres passageiros. Para todos nós é difícil aceitar que tudo de belo que tem a vida, a aventura permanente que ela é ou poderia ser, é obra exclusiva da morte, de saber que em algum momento esta vida terá ponto final. Que se a morte não existisse a vida seria imensamente chata, sem aventura nem mistério, uma repetição cacofônica de experiências até a saciedade mais truculenta e estúpida. Que é graças à morte que existem o amor, o desejo, a fantasia, as artes, a ciência, os livros, a cultura, ou seja, todas aquelas coisas que tornam a vida suportável, imprevisível e excitante. A razão nos explica isso, mas a injustiça que também nos habita nos impede de aceitá-lo. O terror à peste é, simplesmente, o medo da morte que nos acompanhará sempre como uma sombra.”