Desordenado glossário

Perry Edward Smith em foto da CBS News

Amostra do dicionário pessoal de Perry Smith, um dos responsáveis pelo brutal assassinato de quatro pessoas de uma mesma família, em 1959, numa cidadezinha do interior do Kansas, nos EUA. Um crime que chocou o país e foi tema daquele que se tornou um clássico da literatura norte-americana e do chamado Jornalismo Literário, “A Sangue Frio”, de Truman Capote (1924-1984). Conforme assinala o autor na obra, “uma miscelânea não ordenada alfabeticamente de palavras que ele (Perry) julgava ‘bonitas’ ou ‘úteis’, ou pelo menos ‘dignas de serem decoradas’.”

Tanatóide – mortífero; Omnilíngüe – versado em línguas; Sanção – castigo, multa; Néscio – ignorante; Facinoroso – atrozmente perverso; Hagiofobia – medo mórbio de locais & objetos sagrados; Lapidícola – que vive debaixo de pedras, como certos besouros cegos; Dispatia – falta de simpatia, de sentimento de camaradagem; Psilósofo – sujeito que gostaria de passar por filósofo; Omofagia – consumo de carne crua, ritual de algumas tribos selvagens; Depredar – pilhar, roubar e explorar; Afrodisíaco – droga ou substância semelhante que excita o desejo sexual; Megalodáctilo – que tem dedos anormalmente grandes; Mirtofobia – medo da noite e da escuridão.

Vida privada

“Stairway”, de Edward Hopper, de 1949. Do acervo do Whitney Museum of American Art

“É preciso fazer como os animais, que apagam seu rastro na porta da toca.”

“Il faut faire comme les animaux, qui effacent la trace à la porte de leur tainière.

Citação lembrada por Erich Auerbach na Introdução de “Ensaios”, de Michel de Montaigne (1533-1592), em edição da coleção Clássicos, da Penguin/Companhia das Letras.

Inconstância

“The False Mirror”, de René Magritte

“Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em consequência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras, é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal, avarento, pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim mesmo um juízo completo, simples, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra.”

Do jurista, filósofo, político e precursor do gênero Ensaio, Michel de Montaigne (1533-1592).

Fukuyama e a democracia

“Várias democracias têm avançado na direção errada, mas ainda essa ainda é a forma dominante de organização no mundo, e até países autoritários como a Rússia de (Vladimir) Putin ainda sentem que têm que passar pelo ritual das eleições porque não têm uma forma alternativa de legitimidade para oferecer em substituição à democracia como forma de governo.

Então, nesse sentido, acredito que a democracia ainda é uma ideia muito poderosa e continua a ser a principal ideia para nos organizarmos politicamente hoje no mundo.”

Do filósofo, cientista político e economista Francis Fukuyama (1952), em entrevista à repórter Paula Molina, da BBC News Mundo, onde aborda também questões como o avanço da ultradireita e dos populismos, ambas presentes no seu novo livro, “Identidades: A Exigência de Dignidade e a Política do Ressentimento”. Fukuyama virou uma celebridade do mundo acadêmico ao publicar, em 1989, o artigo “O Fim da História”, transformado em livro três anos depois.