O surto do prefeito e a reação dos ministros

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“Sob o signo do retrocesso, cuja inspiração resulta das trevas que dominam o poder do Estado, um novo e sombrio tempo se anuncia, da intolerância, da repressão ao pensamento, da interdição ostensiva ao pluralismo de ideias e do repúdio ao princípio democrático.”

Do ministro do Supremo, Celso de Mello, em nota da colunista Mônica Bergamo, da FSP, sobre o surto de censor do prefeito do Rio na tentativa de proibir a venda de uma HQ com um beijo gay na Bienal do Rio, encerrada no domingo.

Por duas vezes os fiscais de Crivella estiveram no evento na busca de obras atentatórias, num episódio de repercussão internacional. Posteriormente, o STF ratificou a decisão de proibir a censura e fez uma defesa do ambiente de livre trânsito de ideias no país, “um pressuposto para o regime democrático”, conforme o presidente da corte, Dias Toffoli.

Top ten do Nelson

Abaixo seleção de “máximas” (algumas atualíssimas) do teatrólogo, contista, romancista, jornalista, cronista e genial frasista Nelson Rodrigues, nascido há 107 anos, no dia 23 de agosto de 1912, na cidade do Recife, e falecido em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, no Rio de Janeiro.

“Amar é dar razão a quem não tem”

“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”

“Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo”

“Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra”

“O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade”

“O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca”

“O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe”

“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”

Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos

“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”

Segundo Schopenhauer

Jean-Michel Basquiat em foto de James van der Zee

“A piedade, princípio de toda a moralidade, toma também os animais sob a sua proteção, ao passo que nos outros sistemas de moral européia, têm para com ele pouquíssima responsabilidade e solicitude. A suposta ausência de direito dos animais, o preconceito de que o nosso procedimento para com eles não tem importância moral, que não existem, como se diz, deveres para com os animais, é justamente uma ignorância revoltante, uma barbaridade do Ocidente, cuja origem está no Judaismo…

É preciso recordar, a esses desprezadores dos animais, a esses ocidentais judaizados, que assim como eles foram amamentados pelas mães, também o cão teve mãe que o amamentou.

A piedade com os animais está tão intimamente ligada com a bondade de caráter, que se pode afirmar que quem é cruel com os animais não pode ser bom.”

Do livro “Dores do Mundo”, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), em edição da Ediouro.

Cânfora e champanhe na saída

Anton sentou-se extraordinariamente ereto e disse em voz alta e clara (embora ele não soubesse quase nada de alemão): Ich sterbe (“Estou morrendo”). O médico acalmou-o, pegou uma seringa, deu-lhe uma injeção de cânfora, e pediu champanhe. Anton tomou um copo cheio, examinou-o, sorriu para mim e disse: ‘Fazia um bom tempo que não bebia um copo de champanhe.’ Ele bebeu, e inclinou-se suavemente para esquerda, e eu só tive tempo de correr em sua direção e de colocá-lo na cama e chamá-lo, mas ele tinha parado de respirar e estava dormindo tranquilamente como uma criança…“.

Relato de Olga Knipper sobre os últimos momentos de vida do seu marido, o escritor russo Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904).

Desordenado glossário

Perry Edward Smith em foto da CBS News

Amostra do dicionário pessoal de Perry Smith, um dos responsáveis pelo brutal assassinato de quatro pessoas de uma mesma família, em 1959, numa cidadezinha do interior do Kansas, nos EUA. Um crime que chocou o país e foi tema daquele que se tornou um clássico da literatura norte-americana e do chamado Jornalismo Literário, “A Sangue Frio”, de Truman Capote (1924-1984). Conforme assinala o autor na obra, “uma miscelânea não ordenada alfabeticamente de palavras que ele (Perry) julgava ‘bonitas’ ou ‘úteis’, ou pelo menos ‘dignas de serem decoradas’.”

Tanatóide – mortífero; Omnilíngüe – versado em línguas; Sanção – castigo, multa; Néscio – ignorante; Facinoroso – atrozmente perverso; Hagiofobia – medo mórbio de locais & objetos sagrados; Lapidícola – que vive debaixo de pedras, como certos besouros cegos; Dispatia – falta de simpatia, de sentimento de camaradagem; Psilósofo – sujeito que gostaria de passar por filósofo; Omofagia – consumo de carne crua, ritual de algumas tribos selvagens; Depredar – pilhar, roubar e explorar; Afrodisíaco – droga ou substância semelhante que excita o desejo sexual; Megalodáctilo – que tem dedos anormalmente grandes; Mirtofobia – medo da noite e da escuridão.