Ao mar

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David Dark . Illustration

Para saudar a chegada do novo mês, o trecho inicial de “Moby Dick”, de Herman Melville.

MIRAGEM

Chamai-me Ismael. Há alguns anos – quantos precisamente não vem ao caso – tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorrou-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. É a minha maneira de dispersar o spleen e de regular a circulação do sangue. Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parado involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam…então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é meu substituto  para a pistola e a bala. Com alarde filosófico Catão se arremessou sobre a sua espada; quanto a mim, embarco tranquilamente. Não há nisso nada de surpreendente. Se a maioria dos homens o soubesse, fosse qual fosse a sua categoria social, compartilharia comigo, numa época ou noutra, os sentimentos que o oceano me inspira.

Começos célebres

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Desenho de Sandro Botticelli para “A Divina Comédia”.

O trecho inicial de algumas obras clássicas, conforme publicado no El País.

“Odisseia” – Homero. Século VIII antes de Cristo. “Fala-me, Musa, do varão de grande engenho…”.

“Ilíada” – Homero. Século VIII antes de Cristo. “Canta, Deusa, a cólera de Aquiles…”.

“Eneida” – Virgílio. Século I antes de Cristo. “Canto às armas e a esse homem que das costas de Troia chegou primeiro à Itália …”.

“A Divina Comédia” – Dante Alighieri. 1321. “Na metade do caminho da vida, me encontrava em uma selva escura porque perdi o verdadeiro caminho…”.

“Dom Quixote de la Mancha” – Miguel de Cervantes. 1615. “Em um lugar da Mancha, de cujo nome não quero me lembrar, não faz muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor”.

“O Contrato Social” – Jean-Jacques Rousseau. 1762. “O homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado”.

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” – Machado de Assis. 1881. “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

“Moby-Dick” – Herman Melville. 1851. “Chamai-me Ismael”.

“Anna Karenina” – León Tolstói. 1877. “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz o é à sua maneira”.

“A Metamorfose” – Franz Kafka. 1915. “Em uma manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto”.

“Em Busca do Tempo Perdido” – Marcel Proust. 1913-1927. “Durante muito tempo fui me deitar cedo”.

“Lolita” – Vladimir Nabokov. 1955. “Lolita, luz da minha vida, fogo das minhas entranhas”.

“Cem Anos de Solidão” – Gabriel García Márquez. 1967. “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

“Em busca do tempo perdido” – Marcel Proust. 1913-1927. “Muito tempo tenho estado deitando-me temporão”.

Amor shakespeariano

William-Shakespeare (1)

Soneto XXVII

Exausto com o trabalho corro ao leito,
Repouso de meus membros tão cansados;
Mas corre a mente agora o curso feito,
Estando o labor do corpo terminado.
Lá de onde eu moro, agora, o pensamento
Parte qual peregrino a ti buscando
E mantém meu olhar alerta e atento
Pra escuridão que o cego vê, olhando;
Em fantasia minha alma cegada
À vista sem visão teu vulto traz,
Que, gema em noite terrível mostrada,
Faz linda a noite e seu rosto refaz.
E assim, ao dia o corpo, à noite a mente
Por ti e por mim mesmo paz não sente.
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Sonnet XXVII

Weary with toil, I haste me to my bed,
The dear respose for limbs with travel tired,
But then begins a journey in my head
To work my mind, when body’s work’s expired.
For then my thoughts (from far where I abide)
Intend a zealous pilgrimage to thee,
And keep my drooping eyelids open wide,
Looking on darkness which the blind do see.
Save that my soul’s imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view,
Which like a jewel (hung in ghastly night)
Makes black night beauteous, and her old face new.
Lo thus by day my limbs, by night my mind,
For thee, and for my self, no quiet find.

“Poemas de amor de William Shakespeare” em tradução de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro. Ediouro.

Machado raro

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Machado (segundo da esq. para a direita) na companhia de amigos e intelectuais, entre eles, Joaquim Nabuco.

No mês em que se celebra os 110 anos de sua morte, uma das mais importantes coleções das primeiras edições de obras do Bruxo do Cosme Velho pode ser vista na exposição, aberta esta semana em São Paulo, “Machado de Assis na BBM – Primeiras Edições e Raridades”. São 108 itens pertencentes à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, hoje sob guarda da Universidade de São Paulo (USP) entre livros, periódicos e edições póstumas. A mostra, com entrada gratuita, prossegue até o próximo dia 22 de novembro na Sala Multiuso da Biblioteca Mindlin, que fica na Vila Universitária da USP.

Nosso herói sem nenhum caráter faz 90 anos

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“O Batizado de Macunaíma”, de Tarsila do Amaral

Marco do Movimento Modernista, “Macunaíma – O herói sem nenhum caráter” está completando neste ano de 2018, nove décadas de seu lançamento. Segundo seu autor, o poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, historiador da arte, folclorista e ensaísta, Mário de Andrade (1893-1945), o livro foi escrito em seis dias. Lançado em tiragem inicial de apenas 800 exemplares – um deles hoje no acervo de obras raras da Biblioteca Nacional, foi já em sua origem visto como o carro-chefe do primeiro movimento literário genuinamente brasileiro.