Fragmento de Anderson

…Eu costumava passar pela casa com algo estranhamente vivo em mim. Isso eu havia percebido. Um velho de barba e uma mulher de rosto pálido moravam lá. Havia uma cerca-viva alta e certa vez olhei através dela. Vi o homem andando nervosamente para cima e para baixo, num trecho do jardim, sob uma árvore. Ele apertava e desapertava as mãos, balbuciando palavras. As portas e as venezianas da casa misteriosa ficavam todas fechadas. Enquanto eu olhava, a velha com o rosto pálido abriu a porta um pouco e olhou para o homem. Então a porta se fechou novamente. Ela nada lhe disse. Será que ele o olhou com amor ou medo os olhos? Como eu saberia? Não pude ver.

Outra vez escutei a voz de uma jovem, embora eu jamais tenha visto uma jovem naquele lugar. Era noite e a mulher cantava – uma doce voz jovem.

Ai está. É tudo. A vida é mais próxima disso do que a maioria das pessoas supõe. Pequenos fragmentos de coisas. Isso é tudo que conseguimos….

Trecho do conto “Numa Cidade Estranha”, de Sherwood Anderson, do livro “Morte nos Bosques”, traduzido por Nils Skare em edição da curitibana L-Dopa Publicações.

Presente de Natal

Para as reflexões de final de ano, um conto de Anton Tchekhov (1860-1904).

ANGÚSTIA

A quem comunicar a minha tristeza?

Boca da noite. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinhava preguiçosa à volta dos lampiões que acabavam de se acender, e em camadas espessas e moles pousava sobre os telhados, as costas dos cavalos, os chapéus e as espáduas da gente. Jonas Potapof, o cocheiro de trenó, estava branco feito um espectro, tão encolhido quanto a um corpo humano é possível encolher-se, sem se mexer, no alto da boleia. Caísse lhe em cima todo um montão de neve, e ele nem julgaria necessário sacudir os ombros. O rocim também estava branco e imóvel. Na imobilidade de suas formas angulosas, na rigidez das suas pernas, que pareciam varas, lembrava até os cavalinhos de pão de mel de um copeque. Com toda a probabilidade, achava-se mergulhado em suas reflexões. A quem arrancaram ao arado, à habitual paisagem cinzenta, para lança-lo nesta voragem cheia de luzes incompreensíveis, de barulho incessante, de gente a correr, é impossível não pensar…

Havia muito que Jonas e o rocim não se movimentavam. Tinham saído de casa antes do almoço, e ainda não aparecera nenhum ganho. E a névoa da noite já ia baixando sobre a cidade. A pálida luz das lâmpadas colora-se, torna-se mais brilhante; aumenta o rebuliço das ruas.

-Ó cocheiro, para Viborgskaia! (bairro de São Petersburgo) – Jonas ouve gritar. – Ó cocheiro!

Jonas estremece e por entre as pestanas coladas de neve vê um militar de capote e capuz.

-Para Viborgskaia! – repete o militar. -Estás dormindo? Para Viborgskaia!

Em sinal de assentimento, Jonas puxa as rédeas, fazendo que se esbagoe a neve acumulada nas costas do cavalo e nos seus próprios ombros. O militar senta-se no trenó. O cocheiro dá um estalo com a língua, estica o pescoço à maneira de cisne, ergue-se e faz silvar o chicote mais por costume que por necessidade O cavalo também estica o pescoço, dobra as pernas de vara e indecisamente se arranca do lugar. 

-Aonde sobes, peste? – ouve logo Jonas alguém exclamar dentro da escuridão, na massa de transeuntes que se cruzam em todos os sentidos. -Para onde é que os diabos te carregam? Conserva a direita!

E o militar, por sua vez:

-Não sabes guiar! Conserva a direita!

O transeunte que atravessava a rua a correr e bateu com o ombro no focinho do cavalo, xinga o cocheiro e o carro, lança um olhar de raiva e sacode do braço a neve. Jonas mexe-se inquieto na boléia, como se estivesse sentado em espinhos, empurra os cotovelos para os dois lados, olha ao redor como um possesso: dir-se-ia que não compreende onde está e por que está ali. 

-Mas como toda essa gente é infame! -troça o militar. – Como aguardam a ocasião de esbarrar em ti ou de cair debaixo do cavalo! É uma combinação!

Jonas olha para o passageiro, abrem-se lhe os lábios… Vê-se que deseja dizer alguma coisa, mas da garganta não lhe sai senão um ronco.

-Que tens? – pergunta o militar.

Jonas torce a boca para um sorriso, força a garganta e diz em voz rouca:

-É que… meu senhor… é… meu filho morreu esta semana.

-Hum… de que morreu?

Jonas volta-se para o passageiro com todo o corpo a fim de responder:

-Quem sabe! Deve ter sido de febre… Passou três dias no hospital e morreu. Era a vontade de Deus.

Do escuro parte uma voz:

-Desvia-te, diabo! Estás cego, velho cachorro? Onde estás com os olhos?

-Anda, anda… -diz o passageiro. – Assim não chegamos nem amanhã. Açoita!

O cocheiro estica de novo o pescoço, ergue-se um pouco, e com pesada graça vibra o chicote. Em seguida, volta-se repetidas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos: evidentemente, não está disposto a ouvi-lo. Leva-o a Viborgskaia; depois, fica parado ao pé de um botequim, encolhe-se na boléia, e imobiliza-se de novo. Mais uma vez a neve pinta-o de branco, a ele e ao cavalo. Escoa-se uma hora, e mais outra.

Na calçada, arrastando ruidosamente as galochas e brigando, passam por ele três moços, dois magros e altos e um baixinho e corcunda.

-Ó cocheiro, para a Ponte Policial! – grita o corcunda em voz surda. – Os três… vinte copeques. 

Jonas puxa as rédeas e dá um estalo com os lábios. O preço de vinte copeques não é razoável… mas que lhe importa o preço? Rublo ou pitaca (moeda de cinco copeques), tanto faz agora, contando que tenha fregueses. Acotovelando-se e trocando palavrões, os moços trepam no assento, os três ao mesmo tempo. Começam por discutir o problema de saber quais os dois que poderão sentar-se e qual o terceiro que permanecerá em pé. Após longa troca de palavras feias, após recriminações e discussões, chega-se à conclusão de que é o corcunda quem deverá viajar em pé, por ser o menor de todos. 

-Bem, vai para a frente! – berra este depois de instalado.

O seu hálito fere a nuca de Jonas:

-Corre! Mas que gorro tens, irmãozinho! Não se encontra pior em toda São Petersburgo…

Jonas ri-se:

-Hi-hi… É isso mesmo…

-Seja como for, toca para a frente! Pretendes fazer todo o percurso nesta marcha? Olha que apanharás no pescoço!

-Minha cabeça vai estalar – diz um dos moços altos. – Ontem, em casa dos Dukmassofs, eu e o Vasca (diminutivo de Vássili) bebemos, os dois, quatro garrafas de conhaque.

-Não compreendo por que essas mentiras – diz o outro rapaz alto, aborrecido. – Mentes pelos cotovelos.

-Deus me castigue se não é verdade…

-É verdade como a tosse do piolho.

-Hi-hi… Os senhores estão de bom humor! – declara Jonas sorrindo.

-O diabo te leve! – xinga de novo o corcunda. – Andas ou não andas, peste velha? Será que te arrastarás assim? Chicote nele, diabo! Vai, açoita-o melhor!

Jonas sente atrás de si o agitar-se do corpo do corcunda, sete na nuca o frêmito da sua voz, ouve as palavras grosseiras que lhe são dirigidas, e o sentimento de solidão vai aos poucos caindo-lhe do peito. O corcunda xinga-o, até que se engasga com os palavrões enormes, rebuscados, sufocado numa crise de tosse. Os dois pernudos falam de certa Nadejdia Petrovna. Jonas olha para trás. Aguarda uma breve pausa, espreita outra vez e balbucia: 

-Essa semana o meu…morreu o meu filho.

-Todos morremos – diz o corcunda num suspiro, enxugando os lábios depois da tosse. – Bem, anda, anda! Decididamente, senhores, eu não aguento mais. Qaundo chegaremos, afinal?

-Incita-o de leve – no pescoço! 

-Estás ouvindo, peste velha? Vou bater no teu pescoço! Não adianta fazer cerimônia com gente da tua laia… antes ir logo a pé. Ouviste, bicho-papão? Parece que cospes no que nós dizemos.

E Jonas ouve mais do que sente o ruído de uma palmada na nuca.

-Hi-hi… Os senhores estão de bom humor. Deus lhes dê saúde.

-Ó cocheiro, és casado? – perguntou um dos pernaltos.

-Ah-ah-ah… Os senhores estão de bom humor. A minha mulher, agora… é a terra úmida… ah-ah-ah… que dizer, a cova… Morreu o meu filho, e eu estou vivo… Coisa esquisita: a mortese enganar de porta! Em vez de me levar, foi levar o meu filho.

E Jonas volta-se para contar como seu filho morreu; mas neste momento o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, acabam de chegar. Recebidos os vinte copeques, Jonas fica muito tempo a seguir com os olhos os três farristas, que desaparecem atrás de um portão escuro.

Está sozinho de novo, e de novo o silêncio o agride… A angústia, desaparecida por algum tempo, reaparece, oprimindo-lhe o peito ainda com mais força. Alarmados e agoniados, os olhos do cocheiro correm a multidão que vai e vem nos dois lados da rua: entre aquele milhar de pessoas não se encontrauma só, pelo menos, que lhe dê atenção. A multidão passa e não o nota, nem a ele nem à sua angústia, uma angústia imensa, sem limites. Se ela rebentasse o peito de Jonas, derramar-se-ia e inundaria o mundo inteiro; e, entretanto, ningúem a vê. Ela conseguiu abrigar-se numa concha tão humilde que não se deixa perceber nem sequer à luz do dia.

Jonas vê um porteiro com um saco e resolve conversar com ele.

-Que horas serão, meu caro? – pergunta-lhe.

-Dez. Mas por que paraste? Anda, vai para a frente.

Jonas avança alguns passos, torce-se, e entrega-se toda à angústia. Dirigir-se aos transeuntes não vale a pena. Mal decorridos cinco minutos, reergue-se, abana a cabeça, como sacudido por uma dor aguda, e puxa as rédeas. Não aguenta mais.

-“Para a hospedaria – pensa -, para a hospedaria!”

O rocim, como se entendesse  o pensamento do cocheiro, põe-se a correr a trote. Ao cabo de hora e meia, Jonas já está sentado ao pé de um grande forno sujo. Em cima do forno, no chão e nos bancos ronca gente. Jonas fita os adormecidos, coça-se, e sente-se arrependido de ter voltado tão cedo.

-“Nem o preço da aveia ganhei; por isso é que veio a angústia. Um home que sabe fazer o seu trabalho… come à vontade, tem o cavalo farto e anda sempre tranquilo.”

Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, boceja meio adormecido e estira-se para o balde com água.

-Queres beber?

-Naturalmente!

-Então, bom proveito… Pois a mim, irmão, meu filho morreu. Ouviste? Morreu no hospital esta semana… É um caso sério!

Jonas procura o efeito das suas palavras: não vê nenhum. O rapaz cobre a cabeça, e já dorme. O velho suspira e coça-se. Assim como o outro teve vontade de beber, assim está ele com vontade de falar. Dentro em pouco haverá uma semana que lhe morreu o filho, e ele ainda não pôde falar razoavelmente com ninguém… É necessário falar sem pressa, claramente… É preciso contar como o filho adoeceu, o que disse antes de morrer, como morreu… É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospital para receber as roupas do defunto… Sua filha Anísia ficou lá na aldeia; dela também é preciso falar… Porém de pouco pode falar agora de tudo isso! O ouvinte deveria espantar-se, lamentá-lo, gemer com ele. Com mulheres até se entenderia melhor. Ainda que tolas, bastam duas palavras para fazê-las chorar.

-“Vamos olhar para o cavalo – diz entre si. – Para dormir, sempre tens tempo. Sem dúvida, dormirás bastante…”

Veste-se e vai à estrebaria, onde o cavalo está descansando. Pensa na aveia, no tempo que fará. No filho é que não pode pensar quando está sozinho. FAlar com alguém sobre ele, isto sim… mas pensar nele, sozinho, e evocar a imagem dele, é penoso, é insuportável…

-Estás mastigando? – pergunta Jonas ao cavalo, vendo-o com os olhos brilhantes. – Mastiga, mastiga… Já que não ganhamos bastante para cobrar aveia, vamos comer feno… Pois é… Já estou velho para guiar… Meu filho – ele é quem deveria guiar, e não eu… Ele é que era cocheiro de verdade… Homem para viver muito ainda!

Cala-se um momento e recomeça:

-É assim mesmo, irmão cavalo… Não existe mais Cosme Jonitch. Mandou-nos viver muito tempo. Pegou e foi morrer à toa… Faz de conta que tu tinhas um poldrinho… para esse cavalinho tu eras o pai… E de repente, faz de conta, esse mesmo cavalinho te mandava viver muito tempo… Não seria uma lástima?

O rocim escuta, mastigando, e sopra na mão do dono.

Então, arrebatado, Jonas põe-se a contar-lhe tudo…

A inconveniência da gratidão

“A Obra de Arte”

Conto do médico e escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904)

Tchekhov

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do “Mensageiro da Bolsa”, Sacha Smirnoff , filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer… Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida… curando-me de grave enfermidade e… não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito…

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico… como diria?… um tanto ou quanto ousado… Não é apenas decotada; é… sei lá, que diabos!

— Mas… por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!… Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra… Veja bem… Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!…

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras…

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente… Sou o filho único de mamãe… somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu… seu filho único… lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão… esta ninharia que… É um bronze antigo… uma obra rara… de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim… Trata-se um objeto belíssimo… em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores… Já mamãe e eu não nos ocupamos disso…

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida… Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e… só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato… Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui… Aparecem muitas senhoras… Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!… Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui… Hum… Está criado o problema… Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

“Às mil maravilhas!”, decidiu. “Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança… E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto…” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada… — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação… Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente… Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido… É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo…

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque… Mamãe vem aqui, meus clientes… e além do mais é constrangedor em relação aos criados…

— Ora, essa é boa!… Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!… Trata-se de um objeto de arte… Que movimentos! Que expressão!… Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta…

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo”, pensou. “Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa… Melhor seria oferecê-lo a alguém… Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia…”

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos… Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: “Pode-se entrar?”, logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff… Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho…

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade… Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!… Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!… Mamãe está se sentindo tão feliz!… E o senhor me salvou a vida…

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.

NYT comenta Machado

Machado EUA

Precisar não precisava. Mas é sempre bom ter a importância de Machado regularmente reconhecida internacionalmente. Dessa vez foi em artigo assinado pela crítica Parul Sehgal no The New York Times. O texto foi a propósito do lançamento, nos EUA, de “The Collected Stories of Machado de Assis”.

Intitulado Um mestre da narrativa do Brasil do século XIX, herdeiro de gigantes e totalmente sui generis, o artigo apresenta ao leitor norte-americano um escritor comparado a Dickens, Kafka, Sterne, Beckett, Gogol, Borges, Joyce e vários outros de igual calibre. São 76 contos do Bruxo do Cosme Velho na nova edição americana.

Vertigem no Vidigal

O sol

Aclamado por nomes como Chico Buarque, Milton Hatoun e Caetano Veloso, o livro de contos “O Sol na Cabeça”, de Geovani Martins vem sendo apontado como um dos grandes lançamentos recentes da literatura brasileira. Editado pela Companhia das Letras (e com amostra grátis no site da editora), o livro mostra o cotidiano de crianças e adolescentes do andar de baixo no morro, na praia e, sempre à margem da sociedade da Zona Sul dp Rio de Janeiro, numa narrativa vertiginosa e empolgante. A tiragem inicial mostra o tamanho da aposta: 10 mil exemplares.

“Geovani pula da oralidade mais rasgada para o português canônico como quem respira. Uma nova língua brasileira chega à literatura com força inédita”, assinala João Moreira Salles. Morador do morro do Vidigal, no Rio, o autor tem 26 anos e já teve seu título de estréia comprado para o cinema e contrato de tradução fechado com pelo menos oito países.