Notícias de Millôr para Otto

Millôr Fernandes em foto do acervo do IMS
Otto Lara Resende em foto do acervo do IMS

Carta do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista carioca Millôr Fernandes (1923-2012) para o também escritor e jornalista, mineiro de São João del-Rei, Otto Lara Resende (1922-1992), quando este era adido cultural na embaixada brasileira em Portugal. A carta faz parte do arquivo de Otto sob guarda do Instituto Moreira Salles (IMS).

Rio [de Janeiro], 16 de dezembro de 1967

Otto, meu caro, a situação que você me descreve é calamitosa: eu sou popular em Portugal! Você vê que não tem jeito, não; a gente acaba tendo o castigo que merece. Eu, por exemplo, que me venho furtando à popularidade (não por virtude, mas por timidez que, pouco a pouco, vai-se tornando doentia), acabo de receber um golpe. Essa do Vão Gôgo Boite*, então, é inacreditável – eu tinha ouvido falar, mas pensava que era brincadeira. Contudo, não importa. Isto é, já não importa. Tava tudo errado mesmo, Otto, mas quando eu fui apanhar a borracha era tarde. Alguém me disse, com malícia, que você era quem chovia aqui no Rio e levou as chuvas daqui aí pra Lisboa. Mas logo a pessoa teve que engolir o que disse, inclusive a parte líquida, porque aqui o dilúvio se tornou constante neste início de verão. Sol, quase nenhum. Tempo baço, sem ânimo, nada dos verões doutrora.

Que esta te encontre, porém, no mais sadio dos mais humores. Pois essa, sei, é tua fonte de brilho literário e de alegria de viver. Os portugueses já te entenderam?

Aqui a turma em geral vai bem. Vejo-os pouco, ou nada, mas sei deles. Fernando [Sabino], agora, anda de avião para baixo e para cima, vendendo a si próprio e aos amigos na Editora do Autor (Sabiá). Vai acabar numa figueira, o judas, assessorado pelo Rubem Braga. Noutro dia vi os dois fazendo a féria de uma noite de autógrafos, a qual dava exatamente 3300 dólares. (Veja a atualização, não só no tipo da moeda, como no valor fiduciário, dos 33 dinheiros). Rubem, entre um gole e outro, rosna lá de cima do seu terraço uma maldição bíblica. Paulinho [Mendes Campos] erudita na Manchete. E Hélio [Pellegrino] inflama. Quando há uma nesga de sol, as garotas passam na rua e nos amarguram a todos. A mais simples garota nos amargura a todos, com uma simples não olhada. (Vira. Você não, o papel!) Vou parar aqui, já que o papel acabou. Um dia destes te escrevo mais e te digo mais. Só posso te dizer (repetir) a minha velha história do homem (otimista) que se atirou do décimo andar e, ao passar pelo oitavo, murmurou: “Bom, até aqui, tudo bem!” Pois não tinha razão? Boa luz, ar fresco, boa paisagem, ainda faltavam oito andares, pra que se aborrecer e amargurar antecipadamente?

E quando ele foi passando pelo primeiro andar e o chão foi se aproximando, de novo ele refletiu: “Bem, se não me aconteceu nada nesses nove andares, não é nesse pedacinho que falta que eu vou me machucar”.

Enfim, meu caro Otto, há que ser otimista, nem que seja à porrada. Beijos às crianças, sobretudo as do sexo feminino, e aí por volta dos 18 anos de idade. Que Portugal te dê o que você merece, isto é, carinho e bons tratos gerais, ou de nada vale esse país. Dê meu grande abraço à Helena, minha mineira preferida. Que eu possa vê-lo dentro em breve.

Do velho amigo,

Millôr

*Casa noturna em Lisboa que tinha como nome a personagem criada por Millôr na revista A Cigarra, em 1939.

Caymmi conta as novidades para Jorge

Carta de Dorival Caymmi endereçada a Jorge Amado na Inglaterra. Fonte: correioims.com.br.

Salvador, 30 de setembro de 1976

Jorge meu irmão,

São onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Iemanjá pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês. Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer um blusão e ficar irresistível.

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu, e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta. Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí.

O tempo que tenho mal chega para viver: visitar dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o  firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu.

Por falar nisso, Stela de Oxossi é a nova iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, equedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu] que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha? Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui, é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom filho da puta é o que ele é, nosso irmãozinho.

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo [Ribeiro], daquelas duas línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Iemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar e na Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher, Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho.

A bênção, meu padrinho, Oxossi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, sua casa é aqui e eu sou seu irmão Caymmi.

Acervo da Fundação Casa de Jorge Amado

-Janaína é também conhecida como Iemanjá.
-Ápio Patrocínio da Conceição (1915-1994), o Camafeu de -Oxossi, foi mestre de capoeira, presidente do Afoxé Filhos de Gandhi e Obá no Axé do Opô Afonjá, que frequentava com Carybé, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Tinha três barracas no Mercado Modelo.
-Clóvis Graciano (1907-1988), pintor, desenhista, gravador, ilustrador e muralista.
-Jenner Augusto (1924-2003), pintor.
-Mirabeau Sampaio (1911-1993), médico, empresário, pintor, desenhista e professor universitário.
-Axé do Opô Afonjá, em Salvador, é uma das mais importantes casas de culto afro-brasileiro do país.
-No candomblé, filhos e filhas de santo que entram em transe são chamados iaôs, ou feitos e feitas. Os homens que não entram em transe são designados ogãs, e as mulheres, equedes.
-Obá é um orixá guerreiro cultuado no Axé do Opô Afonjá.
-Título honorífico que Jorge Amado recebeu no Axé do Opô Afonjá.
-James Amado (1922-2013), escritor e irmão caçula de Jorge Amado.

Rosa inventou a verdade, diz Clarice

Em 1956, morando com a família nos Estados Unidos, Clarice Lispector escreve a Fernando Sabino sobre seu estado de encantamento com o récem-lançado “Grande Sertão: Veredas”.

Carta publicada no Correio IMS, do site do Instituto Moreira Salles.  

Fernando,

Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente – e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade. Que mais se pode querer? Fico até aflita de tanto gostar. Agora entendo o seu entusiasmo, Fernando. Já entendia por causa de Sagarana, mas este agora vai tão além que explica ainda mais o que ele queria com Sagarana. O livro está me dando uma reconciliação com tudo, me explicando coisas adivinhadas, enriquecendo tudo. Como tudo vale a pena! A menor tentativa vale a pena. Sei que estou meio confusa, mas vai assim mesmo, misturado. Acho a mesma coisa que você: genial. Que outro nome dar? Esse mesmo.

Me escreva, diga coisas que você acha dele. Assim eu ainda leio melhor.

Um abraço da amiga,

Clarice

Raridades em leilão

Baudelaire
“Quando a senhorita Jeanne Lemer entregar-lhe esta carta, vou estar morto (…) Morro em terrível inquietação (…) Eu me mato porque não posso mais viver, a fadiga do sono e a fadiga do despertar é insuportável”.
Trecho da carta em que Charles Baudelaire anuncia à amante sua intenção de cometer suícidio aos 24 anos. O poeta, como é sabido, se esfaqueou sem consequências graves e viveu outros 22 anos. A carta original, de 1845, será leiloada neste domingo, na França, e deve ser levada, segundo estimativas dos organizadores do leilão, por algo entre 60 mil e 80 mil euros.
Na lista de cartas, manuscritos e imagens disponíveis na ocasião, estarão, além dos assinados pelo autor de As Flores do Mal, também documentos originais de nomes como Marcel Proust, Victor Hugo, Zola,  Louis-Ferdinand Céline, Freud, Flaubert, Einstein, Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine e Jean-Paul Sartre.