Rosa inventou a verdade, diz Clarice

Em 1956, morando com a família nos Estados Unidos, Clarice Lispector escreve a Fernando Sabino sobre seu estado de encantamento com o récem-lançado “Grande Sertão: Veredas”.

Carta publicada no Correio IMS, do site do Instituto Moreira Salles.  

Fernando,

Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente – e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade. Que mais se pode querer? Fico até aflita de tanto gostar. Agora entendo o seu entusiasmo, Fernando. Já entendia por causa de Sagarana, mas este agora vai tão além que explica ainda mais o que ele queria com Sagarana. O livro está me dando uma reconciliação com tudo, me explicando coisas adivinhadas, enriquecendo tudo. Como tudo vale a pena! A menor tentativa vale a pena. Sei que estou meio confusa, mas vai assim mesmo, misturado. Acho a mesma coisa que você: genial. Que outro nome dar? Esse mesmo.

Me escreva, diga coisas que você acha dele. Assim eu ainda leio melhor.

Um abraço da amiga,

Clarice

Raridades em leilão

Baudelaire
“Quando a senhorita Jeanne Lemer entregar-lhe esta carta, vou estar morto (…) Morro em terrível inquietação (…) Eu me mato porque não posso mais viver, a fadiga do sono e a fadiga do despertar é insuportável”.
Trecho da carta em que Charles Baudelaire anuncia à amante sua intenção de cometer suícidio aos 24 anos. O poeta, como é sabido, se esfaqueou sem consequências graves e viveu outros 22 anos. A carta original, de 1845, será leiloada neste domingo, na França, e deve ser levada, segundo estimativas dos organizadores do leilão, por algo entre 60 mil e 80 mil euros.
Na lista de cartas, manuscritos e imagens disponíveis na ocasião, estarão, além dos assinados pelo autor de As Flores do Mal, também documentos originais de nomes como Marcel Proust, Victor Hugo, Zola,  Louis-Ferdinand Céline, Freud, Flaubert, Einstein, Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine e Jean-Paul Sartre.

De Graciliano para Cândido

Portinari I

Carta de Graciliano Ramos ao pintor Cândido Portinari. Fonte: site oficial do escritor.

Rio, 18 de fevereiro, 1946

Caríssimo Cândido:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem for da ate e são cultivadas pelos que nos censuram.

O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores tão perverso como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você me mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza.

Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece? Veja como os nossos ricaços em geral são burros.

Julgo naturalmente que seria bom enforca-los, mas se isto nos trouxesse a tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto não temos arte.

E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraços para você e para Maria.

Graciliano

Clarice indignada

clarice - the telegraph
Clarice Lispector em foto do The Telegraph

Carta da escritora Clarice Lispector ao ministro da Educação no governo do general Costa e Silva (1967-1969), Tarso Dutra, publicada no site de cartas do Instituto Moreira Salles (www.correioims.com.br).

[Rio de Janeiro], 17 de fevereiro de 1968

Em primeiro lugar queríamos saber se as verbas destina­das para a educação são distribuídas pelo senhor. Se não, esta carta deveria se dirigir ao presidente da República. A este não me dirijo por uma espécie de pudor, enquanto sin­to-me com mais direito de falar com o ministro da Educação por já ter sido estudante.

O senhor há de estranhar que uma simples escritora escre­va sobre um assunto tão complexo como o de verbas para educação — o que no caso significa abrir vagas para os excedentes. Mas o problema é tão grave e por vezes patético que mesmo a mim, não tendo ainda filhos em idade univer­sitária, me toca.

O MEC, visando evitar o problema do grande número de candidatos para poucas vagas, resolveu fazer constar nos editais de vestibular que os concursos seriam classificatórios, considerando aprovados apenas os primeiros colocados den­tro do número de vagas existentes. Esta medida impede qualquer ação judicial por parte dos que não são aproveita­dos, não impedindo no entanto que os alunos tenham o im­pulso de ir às ruas para reivindicar as vagas que lhes são negadas.

Senhor ministro ou senhor presidente: “excedentes” num país que ainda está em construção?! e que precisa com urgên­cia de homens e mulheres que o construam? Só deixar entrar nas Faculdades os que tirarem melhores notas é fugir com­pletamente ao problema. O senhor já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiraram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacita­dos para resolverem na vida real os grandes problemas que existem. E nem sempre quem tira as melhores notas e ocupa uma vaga tem pleno direito a ela. Eu mesma fui universitária e no vestibular classificaram-me entre os primeiros candi­datos. No entanto, por motivos que aqui não importam, nem sequer segui a profissão. Na verdade eu não tinha direito à vaga.

Não estou de modo algum entrando em seara alheia. Esta seara é de todos nós. E estou falando em nome de tantos que, simbolicamente, é como se o senhor chegasse à janela de seu gabinete de trabalho e visse embaixo uma multidão de rapazes e moças esperando seu veredicto.

Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime. Perdoe a violência da palavra. Mas é a palavra certa.

Se a verba para universidades é curta, obrigando a dimi­nuir o número de vagas, por que não submetem os estudan­tes, alguns meses antes do vestibular, a exames psicotécnicos, a testes vocacionais? Isso não só serviria de eliminatória para as faculdades, como ajudaria aos estudantes que estivessem em caminho errado de vocação. Esta ideia partiu de uma estudante.

Se o senhor soubesse do sacrifício que na maioria das vezes a família inteira faz para que um rapaz realize o seu sonho, o de estudar. Se soubesse da profunda e muitas ve­zes irreparável desilusão quando entra a palavra “exceden­te”. Falei com uma jovem que foi excedente, perguntei-lhe como se sentira. Respondeu que de repente se sentira de­sorientada e vazia, enquanto ao seu lado rapazes e moças, ao se saberem excedentes, ali mesmo começaram a chorar. E nem poderiam sair à rua para uma passeata de protesto por­que sabem que a polícia poderia espancá-los.

O senhor sabe o preço dos livros para pré-vestibulares? São caríssimos, comprados à custa de grandes dificuldades, pagos em prestações. Para no fim terem sido inúteis?

Que estas páginas simbolizem uma passeata de protesto de rapazes e moças.