Clarice também faz 100 anos

Clarice (à direita) com as irmãs Tania e Elisa em foto do acervo pessoal da escritora

Também celebrando 100 anos de nascimento em 2020, Clarice Lispector é tema de peça que estreou ontem em São Paulo. “Minhas Queridas” foi criada a partir da correspondência entre a escritora e suas irmãs Elisa e Tania nas décadas de 40 e 50 e tem direção de Stella Tobar e Marilene Grama e Simone Evaristo no elenco. A peça está em cartaz no Sesc Pinheiros da capital paulista. Nascida em 10 de dezembro na Ucrânia, Clarice faleceu no Rio de Janeiro, um dia antes de completar 57 anos, vítima de um câncer de ovário.

Elizabeth escreve do Rio

Woman Writing – Pablo Picasso – 1934

À doutora Anny Baumann

Fazenda Alcobaça

Petropólis – 8 de janeiro de 1952

Feliz ano-novo […] Tenho uma longa história de infortúnios para lhe contar – há cerca de três semanas, de repente comecei a ter uma reação alérgica espantosa a alguma coisa. O médico achou que era a caju, porque foi a única coisa que comi que nunca tinha comido antes, e há pessoas que têm alergia a essa fruta. Mas só dei duas mordidas num caju, duas mordidas muito azedas. Naquela noite meus olhos começaram a arder, e no dia seguinte comecei a inchar – eu não sabia que era possível uma pessoa inchar tanto assim. Durante mais de uma semana fiquei sem enxergar nada. Comecei a tomar Piribenzamina e adrenalina, e então meus amigos chamaram o médico deles lá do Rio. Ele foi muito simpático – trabalhou cinco anos no Memorial Hospital de Nova York etc. -, mas nada do que ele tentou deu certo. (Foi só minha a minha cara que inchou, e depois as mãos.) O médico me passou um monte de pílulas que segundo ele eram a mesma coisa que Piribenzamina, só que melhor ainda, e tomei umas injeções de um anti-histamínico, e passei a ir diariamente a um hospital que tem aqui para tomar uns dez ou quinze centímetros cúbicos de cálcio na veia. Eu estava tendo crises de asma o tempo todo – aliás ainda estou – e apesar de explicar para ele que estava tendo que tomar sete ou oito centímetros cúbicos de adrenalina por dia, não consegui me fazer entender, porque ele me deu de presente uma ampola de meio centímetro cúbico para eu tomar “em caso de emergência”. Além disso, começaram a tirar quinze centímetros cúbicos de sangue de uma extremidade de meu corpo e injetá-lo na outra mais ou menos diariamente.

Depois de mais ou menos uma semana, tive um ataque de eczema, muito forte, principalmente nas orelhas e nas mãos – igualzinho como eu tinha quando era menina, mas nunca mais tive igual depois de adulta. Até que acabei me enchendo de ficar toda espetada feito são Sebastião, e simplesmente suspendi tudo de repente – e agora estou bem, fora um pouco de eczema, nada sério, e a asma que continua, embora eu só esteja precisando tomar três ou quatro centímetros cúbicos de adrenalina todas as noites. Fiquei todo esse tempo sem poder escrever à mão nem à máquina por causa das minhas mãos.

Ontem eu estava me sentindo muito melhor, tanto que resolvi lavar a cabeça, e desmaiei. A pobre da minha anfitriã [Lota] ficou tão assustada que começou a desmaiar – sem dúvida, é a anfitriã perfeita. Foi muito engraçado. Felizmente todo mundo tem sido gentilíssimo. Todos os amigos e parentes trazem sugestões e frascos de pílulas etc., e quando eu estava pior foi difícil convencer minha anfitriã a não telefonar para você. Acho que não ia adiantar nada eu lhe passar os ingredientes dos remédios antialérgicos daqui em português – mas como você conhece meu organismo muito bem, talvez possa me sugerir alguma coisa para eu tomar se tiver outra crise, e aí o médico traduz para o português. Antes de tudo começar, eu já havia reparado que minha boca doía quando eu comia abacaxi demais, pelo menos foi o que me pareceu, e por isso eu quase não comi mais abacaxi – e manga também – e senti, mesmo sem entender nada do assunto, que o cálcio estava piorando o eczema. Pode mesmo ter esse efeito? Minhas orelhas pareciam dois cogumelos enormes e em brasa, e ainda estão muito grandes e vermelhas. Ah, meu Deus. Fora isso, estou me divertindo muito, e tenho tanto trabalho para fazer – mas estou com um pouco de medo de embarcar  no dia 26 desse mês, a menos que eu fique completamente boa. Seja como for, é muito interessante adoecer e tomar remédio em português, e os brasileiros ficam na maior animação quando tem alguém doente – acho que minha doença fez com eles se afeiçoassem a mim.

O sulfato de norisodrina parece não estar mais surtindo muito efeito, creio que porque tive que tomar demais. Assim mesmo, acho que eu devia encomendar mais […] Umas três caixas de doze cada, a 25%, devem dar, e por via aérea chega aqui em uma semana: a/c Lota de Macedo Soares, rua Antônio Vieira, 5, Leme, Rio de Janeiro, apto. 1101 […] Em troca, eu gostaria de lhe mandar (1) café, (2) um papagaio, (3) um desses macaquinhos que vivem no morro logo atrás aqui do prédio – eles assobiam. Talvez só o primeiro item interesse a você. Aqui servem café até nos ônibus de primeira classe – tem uma espécie de Kitchenette ao lado do motorista, e enquanto o ônibus desce a serra um garoto de jaleco branco fica enchendo umas xícaras pequenas e servindo-as aos passageiros, junto com caixinhas de biscoito onde está escrito: “Oferta”.

Fora a cara inchada e a asma, estou me sentindo bem, e embora saiba que dizer isso é provocar a Providência divina, há dez anos que não me sinto tão feliz […]

Carta de Elizabeth Bishop (1911-1979) à sua médica em Nova York, amiga e confidente, Anny Baumann. Fonte: “Uma Arte – As Cartas de Elizabeth Bishop”, edição de 1995, da Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.

De Erico para Luis

O escritor Erico Verissimo em foto do acervo do Instituto Moreira Salles

Em carta ao filho Luis Fernando, o escritor Erico Verissimo comenta sua indignação com a invasão da Tchecoslováquia por tropas da então União Soviética. A carta faz parte do acervo do Instituto Moreira Salles. Erico, entre outros clássicos, é autor de “O Tempo e o Vento”, cujo primeiro volume, “O Continente”, completou neste ano de 2019, setenta anos de lançamento. Completando a trilogia, foram lançados posteriormente “O Retrato” (1951) e “O Arquipélago” (1961).

McLean, 26 de agosto de 1968

Louie

A invasão da Tchecoslováquia me deixou consternado e indignado ao mesmo tempo. Há dias que ando pensando em fazer alguma coisa e não consigo descobrir o quê. Esbocei dois artigos (“Carta aberta a um comunista” e “A breve primavera de Praga”) mas concluí que estava muito mixed up para poder escrever o que quer que fosse. Uma noite destas, vendo na televisão um filme que mostrava os tanques russos entrando em Praga, em lugares que tua mãe e eu visitamos com amigos tchecos, fiquei tão comovido que tive de me levantar para pedir socorro a um valium. Bom. O que quero de ti é isto.

Se apareceu ou está para aparecer no Brasil algum manifesto de escritores, a teu critério decente, isto é, sem coronéis da nossa democracia nem fascistas ou gaviões do Vietnã – autorizo-te a incluir meu nome nesse manifesto. Mais ainda. Gostaria que desses divulgação à notícia (uma nota curta) de que minha posição nesse conflito é absolutamente contra a invasão ale… – imagina, eu ia escrevendo alemã – à invasão da Tchecoslováquia pelos russos e seus cupinchas. Se achares conveniente podes dizer (embora isto não me pareça importante) que estou escrevendo minhas impressões daquele país, e principalmente de Praga. Entrega uma nota ao Gastal*. Outra ao correspondente do Jornal do Brasil e outra ao Correio da Manhã. Pede ao Mario Lima que faça publicar a notícia no Jornal da Tarde de São Paulo do qual ele é correspondente aí em Porto Alegre. O IMPORTANTE PRA MIM É QUE SE SAIBA DA MINHA POSIÇÃO NESSA HISTÓRIA. Não quero que os conhecidos reacionários dessa e de outras praças digam que eu sou incoerente, pois me manifestei contra a agressão americana no Vietnã e fiquei calado diante da agressão comunista, etc.

Quando a gente está completamente sem comunicação com a pátria amada, fica completamente no ar. Confio em ti e te dou carte blanche (French) para resolver o assunto. E passemos a outras calamidades.

Lúcia**, agora entras tu, querida. Imaginem vocês que no dia seguinte ao da invasão da Tchecoslováquia chegou para nos visitar a famigerada Antonietta Cincotta, começou a falar no momento em que desceu do táxi, às 6h50 e continuou falando até às onze da noite. A mesma de sempre. Ou pior. Setenta e três anos. Rugas mais acentuadas, sim, mas sempre com o antigo zest, pep, etc. Deu o desespero na família. E durante dois dias e meio ninguém nesta casa ficou um instante tranquilo. Cincotta tomou conta de tudo e de todos. Entrou numa autobiografia alucinada. Nosso jantar que dura meia hora, durou uma hora e meia, porque entre uma garfada e outra a Cincotta contava uma história que durava de quinze a vinte minutos. Tudo em torno dela e de seus parentes. “You know, Erico, I’ve got style!” acha-se maravilhosa, com sex appeal, e está sempre pronta a contar que so and so a bolinou ou lhe propôs casamento. Eu estava desesperado. O caso tcheco estava me perturbando e eu escrevia artigos e protestos, mentalmente, mas a Cincotta não me dava trégua. Eu não podia pedir nem o sal, quando à mesa, porque ela exige toda a atenção do pobre interlocutor. Dave*** mostrou slides novos, tirados no skyline drive, mas a cadela não olhou para a tela e não me deixou olhar. Quando eu conseguia pegar um livro, ela me interrompia e me impunha outra leitura. À noite eu ia para a cama irritado e dizia: “Velha indigna! Velha abominável!”. E o pior de tudo – segurem-se! – é que ela queria ir conosco ao Brasil para uma visita ou então, possivelmente, para lá se instalar, já que está aposentada. Nesse momento entrou em cena a brava Mafalda, que lhe disse que não a podíamos convidar para a nossa casa porque a casa era de vocês, nós meros hóspedes.

Eu entrei nesse momento e vi os olhos da Cincotta brilhantes de lágrimas. Finalmente o monstro foi embora há dois dias para a Califórnia. Ufa! Tudo e todos bem aqui. Os sobrinhos de vocês são de tal maneira loucos (o Mike menos) que a gente não pode deixar de achar graça. A última piada do Mike: “Vote for Nixon, and you’ll get an Agnew free”. (We have only a limited amount of Agnews left.).

Nossa pobre amiga Stella está no fim. Comunicamo-nos com ela ou com o Seligman dia sim dia não, pelo telefone. É questão de tempo. Temos uma pena danada da coitada, mas, como dizia a grande Bega*, que é que se vai fazer? Tenho mais coisas para contar, mas o papel está no fim e tenho de pôr esta carta no correio hoje.

Tivemos dez dias pavorosos de calor e umidade. Temperatura quase nos cem. Continuei dando minha caminhada diária de uma hora… mas em casa. Prometo escrever mais em breve. Espero a lista dos livros e das assinaturas de revista. Estive no Dr. Segal. Tudo okay.

Louie, manda me contar mais coisas do movimento (ou da apatia) política do Brasil. Lúcia, keep writing. Muita saudade de vocês. Mandem dizer quando (mais ou menos) pretendem estar no Rio e até quando. Lúcia, abraços especiais para tua mãe, que espero esteja ainda aí. (Na nossa opinião ela é a hóspede modelo. A anti-Cincotta.).

Beijos, beijos, beijos para todos!

Erico

*Paulo Fontoura Gastal (1922-1966), jornalista, crítico de cinema do Rio Grande do Sul.

**Lúcia Helena Massa Verissimo, mulher de Luis Fernando Verissimo.
***David Jaffe, genro de Erico Verissimo, casado com sua filha Clarissa, em cuja casa os pais estavam hospedados.

****Abegahy Lopes, mãe de Erico Verissimo.

A história de uma geração nas cartas de Efratia Gitai

Edição francesa do livro de correspondências de Efratia Gitai

Já em pré-venda no site da Ubu (ubueditora.com.br) “Em Tempos como Estes”, de Efratia Gitai. A obra reúne parte da correspondência da mãe do cineasta Amos Gitai, uma mulher de opinião própria, libertária, com posições feministas e ideais socialistas. As cartas vão de 1929 a 1994 e retratam, segundo a editora, “numa escrita saborosa e de um ponto de vista subjetivo”, contextos políticos e sociais vividos por ela, na condição de mulher e judia, numa Europa marcada pela guerra e pela constituição do Estado de Israel. 

“Efratia, como as mulheres de sua geração nascidas em Israel, não é uma mulher da diáspora. Não é também israelense. Israel ainda não existe. Essa geração vai inventar sua pertença. Efratia escreveu cartas durante toda a sua vida. Desde nova, ela as conservou, como que para reter os momentos de sua história, como se o íntimo incarnasse o destino dessa terra. As cartas deste livro falam da vida de uma mulher, Efratia, minha mãe, de suas reflexões íntimas e de suas hesitações de jovem menina, de sua sede por independência, de seus debates apaixonados com o pai sobre o destino do país, o amor, o culto à amizade e à maternidade, além do luto, da velhice e dos momentos difíceis. Ainda escuto sua voz, seu hebraico arcaico de alguém que queria que os filhos falassem o hebraico moderno, dos nossos tempos.” – Amos Gitai

Drummond inédito

Abaixo, um dos três poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade, publicados na última edição do caderno “Ilustríssima”, do jornal FSP. Os poemas fazem parte de “Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto”, que acaba de ser lançado pela Editora Unesp. O livro foi organizado por Marcelo Bortoloti e reúne cartas trocadas entre os dois escritores, além de poemas enviados por Drummond para a apreciação de Couto, alguns deles publicados em jornais e outros inéditos. 

Choque

Tomei o bonde.
Sentei.
Abri o jornal.
Cacete.
Olhei à toa.
Anúncios ilustrados
apregoavam utilidades.
Foi então que encontrei
nos vimos
e intimamente nos amamos.
Me olhou só.
Não foi mais do que isso
nem lhe pedi mais.
Não a bolinei.
Não nos despedimos.
Até hoje não tornei a vê-la
não sei se a verei nunca.
Não foi mais do que isso.
Foi muito pouco
e foi tudo.