Drummond inédito

Abaixo, um dos três poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade, publicados na última edição do caderno “Ilustríssima”, do jornal FSP. Os poemas fazem parte de “Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto”, que acaba de ser lançado pela Editora Unesp. O livro foi organizado por Marcelo Bortoloti e reúne cartas trocadas entre os dois escritores, além de poemas enviados por Drummond para a apreciação de Couto, alguns deles publicados em jornais e outros inéditos. 

Choque

Tomei o bonde.
Sentei.
Abri o jornal.
Cacete.
Olhei à toa.
Anúncios ilustrados
apregoavam utilidades.
Foi então que encontrei
nos vimos
e intimamente nos amamos.
Me olhou só.
Não foi mais do que isso
nem lhe pedi mais.
Não a bolinei.
Não nos despedimos.
Até hoje não tornei a vê-la
não sei se a verei nunca.
Não foi mais do que isso.
Foi muito pouco
e foi tudo.

De Vinicius para os escritores mineiros

Vinicius, Helena e Fernando Sabino em foto da década de 40. Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br

Carta de Vinicius de Moraes escrita após encontro do poeta com Otto Lara Resende e Fernando Sabino, ocorrido em outubro de 1944, e publicada no “Jornal”, do Rio de Janeiro, em 5 de novembro do mesmo ano. Fonte: Correio IMS, do Instituto Moreira Salles.

Há uns dez pares de dias, ó escritores de Minas Gerais, uma conversa noturna que se iniciou num bar em Copacabana levou-me à casa de um jovem conterrâneo vosso, um prosador novo dessas terras altas, e, apraz-me dizer, um dos melhores e mais bem aquinhoados pela humanidade e pelo espírito. Com ele se achava outro moço escritor, também mineiro, também excepcionalmente dotado para a ingrata arte da poesia e, o que chega a ser excessivo, senhor de mão segura para a prosa. Num aprazível ambiente ao gosto moderno escutamos, de início, excelente música americana, se nos enlanguescendo a alma ao ritmo de mestres negros como Louis Armstrong e Duke Ellington e a forrar os nossos avessos de boa cerveja acompanhada de deliciosos salgadinhos. Aos poucos, o ritmo maior da noite veio penetrar nossos corações de melancolia essencial da natureza e, sem darmos por isso, encaminhados nossas ideias para o terreno das explicações de temperamento, inclusive o literário. Eu, infelizmente, nada tinha de novo que pudesse mostrar ao meu querido anfitrião e seu amigo, mas o mesmo não acontecia com este último, que, apesar da modéstia natural com que Deus e essa abençoada terra o dotaram, produziu, instado, uma peça em prosa e outra em verso, nas quais, em meio aos sublimes esgares da música, mergulhei com ânimo sério e precisão de sinceridade.

Digo-vos, ó homens das letras alterosas, que as peças eram, em verdade, muito belas e caprichosamente escritas. Li-as com amor e crítica, e tão bem me pareceram que, emocionado, saudei o moço escritor com palavras brotadas da sinceridade. No entanto, por me parecer a dita peça, posto bela, extremamente centrada sobre o eu íntimo do seu jovem autor, verberei-lhe, em nome do talento e da franqueza com que expunha a si mesmo os seus próprios desencontros e angústia, o fato de não lutar por colocar esse talento e essa franqueza a serviço de uma causa menos egoísta que ele mesmo.

Ao fazê-lo, vai se me deparou o problema de uma extensão a bem dizer ontológica e, mais particularmente, de fundo sociológico com relação ao Brasil. Àquele jovem que tinha diante de mim, dotado de todas as prendas do espírito e cuja bondade transparecia nos olhos, nas mãos, nos cabelos, nas atitudes proverbiais aos nativos de Minas, esmagava uma angústia milenar. Não lhe faltava nem coragem para lutar – que podia ver no seu modo franco – nem solidariedade humana – a transpirar das palavras com que, aceitando, esforçava-se por situar minha revolta dentro de seu coração afetuoso, num anseio de se libertar. Compreendi que diante de mim estava, mais que um caso de enclausuramento por livre arbítrio, uma fatalidade do mau privilégio que pesa sobre essa bem amada terra e a vem sufocando lentamente, com risco de segregá-la da comunidade de seus irmãos brasileiros. Porque, caríssimos, fostes dotados, desde sempre, na História desta amável pátria, dos melhores e mais pródigos dons para a palavra escrita. Não se passou geração em que não désseis à literatura brasileira um nome exemplar, e tanto melhor quanto sempre penetrado dessa misteriosa doçura e simpatia que faz de vós como que o povo escolhido para o carinho de todo o resto do Brasil.

No entanto, ó escritores, que estranho destino vos faz orgulhosos do vosso triste privilégio! Sim, a alma que tantas vezes vos fervilha, vós a prendeis num corpo por demais estático, por demais consciente da ordem burocrática que vos vem matando. No entanto, esse orgulho que vos acorrenta os anseios da vida, por que vos dá ele coragem para vos automutilardes? Por que a paisagem escolhida para a vossa muda contemplação há de ser somente a bela, triste, desolada paisagem de vós mesmos?

Não vos digo que traís o vosso destino, porque sois honestos e puros como a terra. Mas essa terra, em verdade, a secastes em vós, escritores de Minas. Realmente, não há lugar para a palavra traição quando se fala de vós. Direis sempre aquilo que vos é imperioso dizer: o mundo de vós mesmos, e que bem o fazeis! Mas sabeis, no entanto, que maior que vós mesmos é a humanidade que vos circunda; maior que vossa casa é o mundo; maior que vossos casos particulares, vossos segredos, vossa contida existência doméstica é a miséria, a grandeza, a indiscrição, a sordidez do mundo. Por que vos negais tão friamente ao escândalo, ó homens de muito pudor? Por que afastais do vosso caminho a mulher e só tendes para o miserável o óbolo da vossa compaixão? Por que só olhais o mundo das janelas de vossas casas ou dos vossos escritórios? Por que vos machucais e por que sobrestimais a vossa inquietação? Mais inquieto que vós é o abismo da vida, onde rolam de envolta corpos em sangue e em poesia; mais inquietas que vós são as mulheres de cujo convívio selvagem vos afastais por discrição; mais inquietos que vós são os mares da distância, os ventos de outras paragens, os apelos dos que morrem sem pão e sem calor, desconhecidas almas vagabundas que clamam de vós, esperam de vós, vivem em vós e sobre quem, no entanto, silenciais.

Perdoai-me, se me puderdes perdoar, a franqueza destas palavras. Sei que me estimais, e eu, eu vos quero definitivamente bem. Poderá parecer-vos ingratidão, eu que já fui vosso hóspede e que já bebi convosco em vossos bares, vos falar assim, e sobretudo imodéstia ou consciência da minha verdade. Mas tal não se dá, e vós bem o sabeis. Não me considero nem portador de uma verdade nem sou juiz de ninguém, senão de mim mesmo. Mas o amor que vos dedico, e que se veio fortalecendo à medida que conhecia melhor vossas forças e fraquezas, me arrastou inelutavelmente a este discurso que não é do meu tom. Eis por que fi-lo assim, de afetação propositada, pois não vos quisera falar de assunto tão grave com palavras mais simples, que cairia no perigo de vos acarinhar, como é tendência minha sempre que falo de vós. Anima-me somente a certeza de tocar num ponto que, tão certo como eu estar vivo no momento em que vos escrevo, vos vai doer e fazer pensar.

Por que vos recusais a pensar, escritores de Minas, além do pensamento de vós mesmos que vos ocupa todas as horas? A vossa pobre, querida Minas esvai-se em amorosa consumpção. Por que não a revitalizais com o vosso espírito e a vossa ação? Os preconceitos vos abafam como o ar da seca: por que não vos libertais? Sois homens de coragem intelectual, não temeis vos dizer a vós mesmos o que só muito poucos se diriam; e tendes, sem embargo, consciência precisa do fim que vos espera nesse caminho de pura introspecção em que ides: tornar-vos-eis um órgão passivo dentro de um organismo em luta para se libertar de todos os seus humores tóxicos.

Vossa alma é patética, escritores de Minas. Eu a amo e admiro. Mas esse olhar perpetuamente para dentro vos secará o brilho dos olhos. Precisais de água, a água do mar, a água da mulher, a água da criação. Temeis errar: errai. Temeis mostrar a vossa nudez: desnudai-vos. Falo-vos mais que em meu próprio nome – que não precisais de mim para nada –, em nome de uma geração que está crescendo a vosso lado. Meninos puros, inteligentes, honestos, bem dotados para a criação, que trazem a generosa inquietação do rapaz que começa e que, ao contato de vosso espírito maior e do vosso desencanto total, irão transformar a terra ainda fértil neles em grandes peladas através das quais passarão a vida a se passear.

Sois gente simples. Vossa fala é simples, vossa maneira é simples, vosso corpo e vosso coração são simples. Vossa forma é quase sempre simples, sem retórica, enxuta, precisa, exata para se ler. O vosso convívio é simples e agradável. Dá uma impressão de se estar perfeitamente a salvo, a vosso lado, apesar de vos dizerem desconfiados. Mas o vosso orgulho não é simples, escritores de Minas. Ele vos isola numa terra ferida de morte. Ele vos dá em excesso complacência para com as vossas próprias feridas, que tanto cultivais. Ele vos dá esse olhar tímido e vos cerra os maxilares diante da emoção. Por que só sabeis chorar às escondidas, escritores de Minas? Por que não vindes às vezes vos banhar nos mares da costa? Por que vos enclausurais em vossa cidade mórbida, que vos estiola as faculdades do amor? Por que amais a vossa desolação? Por que não saís às vezes, não viajais, não lutais contra o erro de vós mesmos? Por que não fraquejais, não amaldiçoais, não apedrejais, não sofreis o generoso sofrimento da vida? Por que não vos interessa conhecer o Norte e o Sul do país, e os países distantes? Por que economizais e para quê: para comprar o vosso túmulo? Por que viveis como num claustro, entre essas montanhas de luz perfeita? Não vos dá vontade de louvar outra coisa que não seja a Deus e vossa angústia? Por que sois ordenados por fora e desencontrados por dentro? Por que vos persegue o pensamento da morte, que é o fim da vida?

Ah, escritores de Minas Gerais, deixai-me chorar o vosso destino. Deixai-me lamentar a prodigalidade com que vos dispensais os vossos raros dons. Deixai-me acusar-vos, escritores de Minas, de estardes a ponto de inutilizar para a vida mais uma geração de quem não quereis ser o amparo, contra vós mesmos. Não vos quero dizer mais, porque já muito me dói o que vos disse. Que não me queirais mal, no entanto. Por esta única indizível razão escrevo esta carta contra vós: por muito amar.

A solidão de Caio

Foto: pantagruelista.com

Carta do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996) publicada pela revistaprosaversoearte.com.

A Nair e Zaél Abreu

São Paulo, 12 de agosto de 1987

Querida mãe, querido pai,

Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos — quase quarenta — anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês — que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio — que é tão ou mais delicado.

Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida — como quem olha de uma janela — mas não consegue vivê-la.

Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco — todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado — nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.

Amo vocês, seu filho

Caio

As cartas de dois mestres da literatura japonesa

A boa dica de lançamento vem em matéria de Antonio Gonçalves Filho, publicada no final de semana pelo O Estado de SP. É “Kawabata-Mishima Correspondência 1945-1970”, que acaba de sair pela Estação Liberdade e mostra a longa e intensa relação intelectual e afetiva entre dois dos principais nomes da literatura japonesa contemporânea: Yasunari Kawabata (1899-1972) e Yukio Mishima (1925-1970).

Kawabata foi o primeiro escritor do país a ganhar o Nobel de Literatura, em 1968, e Mishima, o escritor japonês mais conhecido no mundo ocidental. Ambos morreram de maneira trágica. Em 25 de novembro de 1970 Mishima recorre ao seppuku (ritual suicida praticado por samurais) e, dois anos depois, inconsolável com a perda do discípulo e amigo, Kawabata se mata, inalando gás em casa, no dia 16 de abril de 1972.

Confira alguns títulos dos dois autores lançados no Brasil. Fontes: Livraria da Folha (Kawabata), Companhia das Letras e Estante Virtual (Mishima)

Yasunari Kawabata

-“A Dançarina de Izu”

De 1926, é a primeira obra de destaque do autor, traz temas como o amor impossível, a solidão e a sexualidade velada.

 –“Contos da Palma da Mão”

Reúne textos escritos entre 1923 e 1964 traduzidos diretamente do japonês por Meiko Shimon.

-“A Casa das Belas Adormecidas”

Lançado em 1961, busca desvendar o universo do corpo feminino em um culto ao belo e ao inalcançável.

“A Gangue Escarlate de Asakusa”

Publicada num jornal de Tóquio entre 1929 e 1930, é uma das raras narrativas urbanas do autor.

“Beleza e Tristeza”

Obra de 1965, aborda a sublimação do amor frente ao medo e aos preconceitos da sociedade japonesa.

“Mil Tsurus”

Escrito entre os anos de 1949 e 1951, resgata valores do Japão, fazendo da cerimônia do chá o pano de fundo para a história.

“O País das Neves”

Marco na obra de Kawabata, expõe a densidade e as contradições das relações humanas.

“Kyoto”

De 1962, foi uma das últimas obras finalizadas pelo autor e traz uma narrativa rica em descrições da capital imperial do Japão.

“O Som da Montanha”

Aborda a sociedade japonesa e reflete sobre a vida e a morte, especialmente sobre a possibilidade do suicídio.

Yukio Mishima

“Cores Proibidas”

Lançado pela Companhia das Letras em 2002, narra a história de Shunsuke e sua profunda misoginia.

“Mar Inquieto”

Fábula de inspiração shakespeariana, narra o amor proibido entre um jovem pescador e a filha de um poderoso morador da ilha de Utajima.

 –“Confissões de uma Máscara”

Considerada sua obra-prima, o romance autobiográfico conta a história de um adolescente que descobre sua homossexualidade no Japão da Segunda Guerra.

“O Pavilhão Dourado”

Narrado de forma densa e original, mostra que a beleza absoluta pode ser tão opressiva e enlouquecedora quanto qualquer imperfeição.

“Neve de Primavera”

As tensões entre a velha e a nova aristocracia na Tóquio de 1912.

“O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar”

Uma das mais breves e belas novelas do autor, é visto como uma representação simbólica da sociedade japonesa do pós-guerra.

“Morte em Pleno Verão”

Lançado aqui em 1986 pela Rocco, reúne alguns dos melhores e inspiradores contos de Mishima.

Notícias de Millôr para Otto

Millôr Fernandes em foto do acervo do IMS
Otto Lara Resende em foto do acervo do IMS

Carta do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista carioca Millôr Fernandes (1923-2012) para o também escritor e jornalista, mineiro de São João del-Rei, Otto Lara Resende (1922-1992), quando este era adido cultural na embaixada brasileira em Portugal. A carta faz parte do arquivo de Otto sob guarda do Instituto Moreira Salles (IMS).

Rio [de Janeiro], 16 de dezembro de 1967

Otto, meu caro, a situação que você me descreve é calamitosa: eu sou popular em Portugal! Você vê que não tem jeito, não; a gente acaba tendo o castigo que merece. Eu, por exemplo, que me venho furtando à popularidade (não por virtude, mas por timidez que, pouco a pouco, vai-se tornando doentia), acabo de receber um golpe. Essa do Vão Gôgo Boite*, então, é inacreditável – eu tinha ouvido falar, mas pensava que era brincadeira. Contudo, não importa. Isto é, já não importa. Tava tudo errado mesmo, Otto, mas quando eu fui apanhar a borracha era tarde. Alguém me disse, com malícia, que você era quem chovia aqui no Rio e levou as chuvas daqui aí pra Lisboa. Mas logo a pessoa teve que engolir o que disse, inclusive a parte líquida, porque aqui o dilúvio se tornou constante neste início de verão. Sol, quase nenhum. Tempo baço, sem ânimo, nada dos verões doutrora.

Que esta te encontre, porém, no mais sadio dos mais humores. Pois essa, sei, é tua fonte de brilho literário e de alegria de viver. Os portugueses já te entenderam?

Aqui a turma em geral vai bem. Vejo-os pouco, ou nada, mas sei deles. Fernando [Sabino], agora, anda de avião para baixo e para cima, vendendo a si próprio e aos amigos na Editora do Autor (Sabiá). Vai acabar numa figueira, o judas, assessorado pelo Rubem Braga. Noutro dia vi os dois fazendo a féria de uma noite de autógrafos, a qual dava exatamente 3300 dólares. (Veja a atualização, não só no tipo da moeda, como no valor fiduciário, dos 33 dinheiros). Rubem, entre um gole e outro, rosna lá de cima do seu terraço uma maldição bíblica. Paulinho [Mendes Campos] erudita na Manchete. E Hélio [Pellegrino] inflama. Quando há uma nesga de sol, as garotas passam na rua e nos amarguram a todos. A mais simples garota nos amargura a todos, com uma simples não olhada. (Vira. Você não, o papel!) Vou parar aqui, já que o papel acabou. Um dia destes te escrevo mais e te digo mais. Só posso te dizer (repetir) a minha velha história do homem (otimista) que se atirou do décimo andar e, ao passar pelo oitavo, murmurou: “Bom, até aqui, tudo bem!” Pois não tinha razão? Boa luz, ar fresco, boa paisagem, ainda faltavam oito andares, pra que se aborrecer e amargurar antecipadamente?

E quando ele foi passando pelo primeiro andar e o chão foi se aproximando, de novo ele refletiu: “Bem, se não me aconteceu nada nesses nove andares, não é nesse pedacinho que falta que eu vou me machucar”.

Enfim, meu caro Otto, há que ser otimista, nem que seja à porrada. Beijos às crianças, sobretudo as do sexo feminino, e aí por volta dos 18 anos de idade. Que Portugal te dê o que você merece, isto é, carinho e bons tratos gerais, ou de nada vale esse país. Dê meu grande abraço à Helena, minha mineira preferida. Que eu possa vê-lo dentro em breve.

Do velho amigo,

Millôr

*Casa noturna em Lisboa que tinha como nome a personagem criada por Millôr na revista A Cigarra, em 1939.