Café com o Braga

Robert Doisneau
Alberto e Anette Giacometti em Paris, 1957. Foto de Robert Doisneau

Crônica de do escritor e jornalista Rubem Braga (1913-1990).

CAFEZINHO

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase: – Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante. Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer: – Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago: – Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar: – Ele está? – alguém dará o nosso recado sem endereço. Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo: – Ele disse que ia tomar um cafezinho…

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão: – Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí…

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

Lembrando Stanislaw

Para marcar os 50 anos – completados hoje – sem o escritor, cronista, jornalista e radialista Sérgio Marcus Rangel Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, uma citação (atualíssima) e sua bibliografia, segundo a Wikipedia:

“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.”

stanislaw-ponte-preta-livros_jazz

Obras como Stanislaw Ponte Preta 

-“Tia Zulmira e Eu” – 1961

“Primo Altamirando e Elas” – 1962

“Rosamundo e os Outros” – 1963

Garoto Linha Dura” – 1964

“Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País” – 1966

“Febeapá 2 (Segundo Festival de Besteiras Que Assola o País)” – 1967

“Na Terra do Crioulo Doido” – 1968

“Febeapá 3” – 1968

“A Máquina de Fazer Doido” – 1968

-“Gol de Padre”

Como Sérgio Porto 

“Pequena História do Jazz” – 1953

“O Homem ao Lado” – 1958

“A Casa Demolida” – 1963

“As Cariocas” – 1967

Seja feliz

Crônica do pernambucano Antônio Maria (1921-1964). Nascido em Recife, Maria era também poeta, compositor, comentarista esportivo e autor de clássicos como “Manhã de Carnaval” e “Samba de Orfeu”, ambas em parceria de 1959 com Luís Bonfá. Morreu em 15 de outubro de 1964, em Copacabana, fulminado por um enfarte do miocárdio.

antonio maria
Em pé: Antonio Maria, Ary Barroso e Vinicius de Moraes. Sentados: Isaac Zuchman e Paulo Mendes Campos. Foto do acervo do Instituto Moreira Salles (IMS)

Seja Feliz e Faça os Outros Felizes

“O homem sente estranho prazer inconsciente em dar as notícias tristes. E, inconscientemente, só gosta de dar as notícias realmente tristes que, quanto mais tristes, mais lhe satisfazem.

No Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro (onde tudo acontece além da conta), o Homem ultrapassou o prazer inconsciente de dar as notícias desagradáveis, para atingir o gozo em cada vez que consegue fazer alguém muito infeliz.

A simples explicação do fenômeno talvez não convença o leitor de que estamos falando a sério. Desçamos, portanto, a alguns exemplos. Primeiro: É com certa dificuldade, vencendo vários limites e impedimentos seus, que você consegue fazer qualquer confissão mais agradável a alguém. Pense em quantas vezes você teve que discutir com você mesmo, para dizer que a gravata do seu amigo era bonita. Conseguiu dizer, sim, mas depois de se considerar mesquinho por não ter dito antes, na frase descuidada que lhe veio do coração à boca. Segundo: Pense em quantas vezes você disse a alguém que a gravata não lhe ia bem. A gravata aqui vale todas as coisas que você considera e elogia. Pense ainda na hipocrisia dos vários preâmbulos e rodeios que já fez para censurar – uma gravata: “Você me desculpe, mas”…”Você não me leve a mal, mas”… E sempre esta detestável e mais hipócrita das preparações: “Eu vou lhe falar com toda minha franqueza.” Tenho horror a quem me diz franquezas de bar. Na realidade, só existe uma franqueza, que é a do amor.

Não é possível curar a humanidade de sua eterna má vontade. Mas, ao menos aqui no Rio de Janeiro, assim como se fazem as semanas “da Asa”e “do Trânsito”, podia-se organizar a “Semana da Felicidade”. O comércio varejista não entraria (como nos dias do Papai e da Mamãe) com a sua propaganda ostensiva de rádios e televisores. Não haveria presente na “Semana da Felicidade” para não corromper a constante felicidade, que se estaria oferecendo. Apenas as pessoas, durante sete dias, só iriam dizer coisas agradáveis umas às outras.

Nesta altura é preciso dar uma explicação necessária. Dizer coisas agradáveis não seria dizer a Maria que ela é bonita, quando ela é feia; nem a Pedro que ele está mais magro, quando Pedro está visivelmente mais gordo. Não. Sem grande esforço, encontrar-se-á, em cada pessoa, dez valores elogiáveis. E, quando não houver um só, conte-se uma história qualquer, que faça bem. Conte-se, por exemplo, como foi o amanhecer. Como ficou o céu, com os laivos vermelhos do amanhecer. Como estava o mar, na primeira luz sobre seu brilho baço do amanhecer. Ou se fale de um trecho de canção, da ária ou de um tema tocado pro Milles Davies. Do piano de Garner, seu ritmo comparável ao improviso da Fitzgerald e da Vaughan. Ou, com patriotismo, do sax-tenor de Cipó ou do trombones, do irmão Maciel mais novo. Conte-se bem uma cidade inesperada de sua viagem. Como eram as montanhas ou a cor da planície. As pessoas, seus olhos e suas blusas.

Na criação da “Semana da Felicidade”, não sei para quem deva apelar. Não sei a que governo transmitir a idéia. Federal ou Municipal. Ou a que Departamento de Turismo. Não. O apelo tem que ser feito a cada um dos meus possíveis leitores e por cada um transmitido às pessoas de sua sociedade. Quanto a mim, devo dizer que vivo, permanentemente, em semana de felicidade. Quando não posso fazer alguém feliz, com uma confissão ou uma história, não digo nada. Em troca, peço que não me tirem a alegria. Que não dêem notícias, sobre mim e sobre os outros, que, de leve, possam arranhar minha naturalidade feliz. E, de um modo especial, não me digam franquezas.”

IMS lança portal de crônicas

 

Das boas notícias recentes, merece destaque o lançamento hoje, 12/09, do Portal da Crônica Brasileira (cronicabrasileira.org.br). A louvável iniciativa do Instituto Moreira Salles (IMS) põe ao alcance de qualquer pessoa com acesso à internet 2.470 crônicas, na sua maioria também em versão fac-símile, ou seja, como foram originalmente publicadas, em páginas de revistas e jornais. São textos assinados pelos mais importantes autores do gênero no país. Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Clarice Lispector, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, entre eles. As crônicas fazem parte de acervos pessoais dos cronistas, hoje sob guarda do próprio IMS e de outras instituições. Segundo a coordenadora de Literatura do Instituto, Elvia Bezerra, nomes como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino devem ser incorporados ao site “num futuro próximo”. Caricaturas de Cássio Loredano/IMS.

 

 

O sofrido adeus de PMC

Notório apreciador da bebida, como tantos de sua geração, o mineiro, de Belo Horizonte, Paulo Mendes Campos (1922-1991) é o autor da dolorosa carta de despedida publicada no jornal Diário Carioca, onde trabalhou nos Anos 40. A crônica, inédita em livro, integra o acervo do escritor, hoje sob responsabilidade do Instituto Moreira Salles.

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Paulo Mendes Campos em visita à Rubem Braga, na companhia de Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Foto do Acervo do jornal O Globo.

CARTA DE SEPARAÇÃO À GARRAFA DE UÍSQUE

Creio, meu bem, que chegou finalmente o momento de dizermos adeus. Tentei todas as acomodações possíveis. Não posso ser acusado de não ter tido para contigo boa vontade e ca­rinho. Não posso admitir que se diga por aí, à boca pequena, que a culpa foi minha, que não tive compreensão da realidade. Os fatos são os fatos, e contra eles não podemos lutar. Não se pode dizer que não nos demos bem, é verdade. Não posso eu dizer que não devo a teu calor algumas das melhores horas de minha vida, de descanso, de alegria, até mesmo de poético en­levo, por que não. Naquele tempo em que ainda eras pura, e em que tuas exigências de di­nheiro, sem nunca ser modestas, ainda não atribulavam meu orçamento, pude manter-te com decência, não faltando jamais a nossos encon­tros. (Lembro-me agora, confesso, com indis­farçável ternura, esses pontos amoráveis de nos­sos antigos encontros, na esquina de Nilo Peçanha com a rua do México, na rua Senador Dan­tas, em Copacabana etc. etc.).

Quando foi mesmo que te encontrei pela primeira vez? Não posso precisá-lo, tantos anos já passaram, mas sei que foi amor à primeira vista, um amor que infelizmente, por tua causa, agora se interrompe.

Há já uns dois que vinha desconfiando de ti. Fingia que não o notava apenas por covardia, receoso de causar escândalo. Já andavas falsa, dissimulada. Àquela noite, na boate, custou-me engolir-te. Só agora vejo que nada ga­nhei com essa complacência senão muita dor de cabeça. Só agora vejo que só tinha a ganhar se houvesse te deixado quando desconfiei que já estavas misturada a más companhias, e que já não te portavas bem com quem por ti muitas vezes perdeu a cabeça. Por ti, quase fui preso; por ti, cheguei a brigar; por ti, fiz os piores pa­péis; por ti, perdi noites de sono; por ti, pedi dinheiro emprestado; por ti, prejudiquei minha saúde. No entanto, de que valeram tantos sacrifícios? Terias a coragem de não reconhecer que és falsa? Poderias negar que me levarias a uma situação econômica insustentável? Hoje, só um insensato deixaria de ver que as nossas relações não podem continuar mais. Resta-me um pou­co de equilíbrio e de amor próprio. Falta-me dinheiro para sustentar-te. Ah, se fosses pelo menos fiel, eu seria capaz de um esforço su­premo. Mas como estás, não, meu bem. Assim não é possível. Não há outro jeito senão uma separação que, de minha parte, deixa muitas saudades.

P. M. C.

Crônica de Paulo Mendes Campos publicada no Diário Carioca, Rio de Janeiro, 29/10/1953. Arquivo Paulo Mendes Campos / Acervo IMS.