Bandeira cronista

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José Barbosa da Silva (Sinhô) na capa do programa da palestra “O retrato musical de Sinhô”, proferida por Almirante em 22 de abril de 1957. Instituto Piano Brasileiro.

O ENTERRO DO SINHÔ

J. B. SILVA, o popular Sinhô dos mais deliciosos sambas cariocas, era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente. Zeca Patrocínio, que o adorava e com quem ele tinha grandes afinidades de temperamento, era assim também: descarnado, lívido, frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um moribundo galvanizado provisoriamente para uma farra. Que doença era a sua? Parecia um tísico nas últimas. Diziam que tinha muita sífilis. Certamente o rim estava em pantanas. Fígado escangalhado. Ouvia-se de vez em quando que o Zeca estava morrendo. Ora em Paris, ora em Todos os Santos, subúrbio da Central. E de repente, na Avenida, a gente encontrava o Zeca às três da madrugada, de smoking, no auge da excitação e da verve. Assim me aconteceu uma vez, e o que o punha tão excitado naquela ocasião era precisamente a última marcha carnavalesca de Sinhô, o famoso Claudionor…

que pra sustentar família
foi bancar o estivador…

Me apresentaram a Sinhô na câmara-ardente do Zeca. Foi na pobre nave da igreja dos pretos do Rosário. Sinhô tinha passado o dia ali, era mais de meia-noite, ia passar a noite ali e não parava de evocar a figura do amigo extinto, contava aventuras comuns, espinafrava tudo quanto era músico e poeta, estava danado naquela época com o Vila e o Catulo, poeta era ele, músico era ele. Que língua desgraçada! Que vaidade! mas a gente não podia deixar de gostar dele desde logo, pelo menos os que são sensíveis ao sabor da qualidade carioca. O que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais profunda. De quando em quando, no meio de uma porção de toadas que todas eram camaradas e frescas como as manhãs dos nossos suburbiozinhos humildes, vinha de Sinhô um samba definitivo, um Claudionor, um Jura, com um “beijo puro na catedral do amor”, enfim uma dessas coisas incríveis que pareciam descer dos morros lendários da cidade, Favela, Salgueiro, Mangueira, São Carlos, fina-flor extrema da malandragem carioca mais inteligente e mais heróica… Sinhô!

Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana. Daí a fascinação que despertava em toda a gente quando levado a um salão.

Vi-o pela última vez em casa de Álvaro Moreyra. Sinhô cantou, se acompanhando, o “Não posso mais, meu bem, não posso mais”, que havia composto na madrugada daquele dia, de volta de uma farra. Estava quase inteiramente afônico. Tossia muito e corrigia a tosse bebendo boas lambadas de Madeira R. Repetiu-se a toada um sem número de vezes. Todos nós secundávamos em coro. Terán, que estava presente, ficou encantado.

Não faz uma semana eu estava em casa de um amigo onde se esperava a chegada de Sinhô para cantar ao violão. Sinhô não veio. Devia estar na rua ou no fundo de alguma casa de música, cantando ou contando vantagem, ou então em algum botequim. Em casa é que não estaria; em casa, de cama, é que não estaria. Sinhô tinha que morrer como morreu, para que a sua morte fosse o que foi: um episódio de rua, como um desastre de automóvel. Vinha numa barca da Ilha do Governador para a cidade, teve uma hemoptise fulminante e acabou.

Seu corpo foi levado para o necrotério do Hospital Hahnemanniano, ali no coração do Estácio, perto do Mangue, à vista dos morros lendários… A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, macumbeiros (lá estava o velho Oxunã da Praça Onze, um preto de dois metros de altura com uma belida num olho), todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito, mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas… Essa gente não se veste toda de preto. O gosto pela cor persiste deliciosamente mesmo na hora do enterro. Há prostitutazinhas em tecido opala vermelho. Aquele preto, famanaz do pinho, traja uma fatiota clara absolutamente incrível. As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vaivém incessante da capela para o botequim. Os amigos repetem piadas do morto, assobiam ou cantarolam os sambas (Tu te lembra daquele choro?). No cinema d’a Rua Frei Caneca um bruto cartaz anunciava “A Última Canção” de Al Johnson. Um dos presentes comenta a coincidência. O Chico da Baiana vai trocar de automóvel e volta com um landaulet que parece de casamento e onde toma assento a família de Sinhô. Pérola Negra, bailarina da companhia preta, assume atitudes de estrela. Não tem ali ninguém para quebrar aquele quadro de costumes cariocas, seguramente o mais genuíno que já se viu na vida da cidade: a dor simples, natural, ingênua de um povo cantador e macumbeiro em torno do corpo do companheiro que durante tantos anos foi por excelência intérprete de sua alma estóica, sensual, carnavalesca.

Manuel Bandeira em “Os Reis Vagabundos e mais 50 crônicas”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1966

Café com o Braga

Robert Doisneau
Alberto e Anette Giacometti em Paris, 1957. Foto de Robert Doisneau

Crônica de do escritor e jornalista Rubem Braga (1913-1990).

CAFEZINHO

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase: – Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante. Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer: – Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago: – Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar: – Ele está? – alguém dará o nosso recado sem endereço. Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo: – Ele disse que ia tomar um cafezinho…

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão: – Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí…

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

Lembrando Stanislaw

Para marcar os 50 anos – completados hoje – sem o escritor, cronista, jornalista e radialista Sérgio Marcus Rangel Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, uma citação (atualíssima) e sua bibliografia, segundo a Wikipedia:

“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.”

stanislaw-ponte-preta-livros_jazz

Obras como Stanislaw Ponte Preta 

-“Tia Zulmira e Eu” – 1961

“Primo Altamirando e Elas” – 1962

“Rosamundo e os Outros” – 1963

Garoto Linha Dura” – 1964

“Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País” – 1966

“Febeapá 2 (Segundo Festival de Besteiras Que Assola o País)” – 1967

“Na Terra do Crioulo Doido” – 1968

“Febeapá 3” – 1968

“A Máquina de Fazer Doido” – 1968

-“Gol de Padre”

Como Sérgio Porto 

“Pequena História do Jazz” – 1953

“O Homem ao Lado” – 1958

“A Casa Demolida” – 1963

“As Cariocas” – 1967

Seja feliz

Crônica do pernambucano Antônio Maria (1921-1964). Nascido em Recife, Maria era também poeta, compositor, comentarista esportivo e autor de clássicos como “Manhã de Carnaval” e “Samba de Orfeu”, ambas em parceria de 1959 com Luís Bonfá. Morreu em 15 de outubro de 1964, em Copacabana, fulminado por um enfarte do miocárdio.

antonio maria
Em pé: Antonio Maria, Ary Barroso e Vinicius de Moraes. Sentados: Isaac Zuchman e Paulo Mendes Campos. Foto do acervo do Instituto Moreira Salles (IMS)

Seja Feliz e Faça os Outros Felizes

“O homem sente estranho prazer inconsciente em dar as notícias tristes. E, inconscientemente, só gosta de dar as notícias realmente tristes que, quanto mais tristes, mais lhe satisfazem.

No Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro (onde tudo acontece além da conta), o Homem ultrapassou o prazer inconsciente de dar as notícias desagradáveis, para atingir o gozo em cada vez que consegue fazer alguém muito infeliz.

A simples explicação do fenômeno talvez não convença o leitor de que estamos falando a sério. Desçamos, portanto, a alguns exemplos. Primeiro: É com certa dificuldade, vencendo vários limites e impedimentos seus, que você consegue fazer qualquer confissão mais agradável a alguém. Pense em quantas vezes você teve que discutir com você mesmo, para dizer que a gravata do seu amigo era bonita. Conseguiu dizer, sim, mas depois de se considerar mesquinho por não ter dito antes, na frase descuidada que lhe veio do coração à boca. Segundo: Pense em quantas vezes você disse a alguém que a gravata não lhe ia bem. A gravata aqui vale todas as coisas que você considera e elogia. Pense ainda na hipocrisia dos vários preâmbulos e rodeios que já fez para censurar – uma gravata: “Você me desculpe, mas”…”Você não me leve a mal, mas”… E sempre esta detestável e mais hipócrita das preparações: “Eu vou lhe falar com toda minha franqueza.” Tenho horror a quem me diz franquezas de bar. Na realidade, só existe uma franqueza, que é a do amor.

Não é possível curar a humanidade de sua eterna má vontade. Mas, ao menos aqui no Rio de Janeiro, assim como se fazem as semanas “da Asa”e “do Trânsito”, podia-se organizar a “Semana da Felicidade”. O comércio varejista não entraria (como nos dias do Papai e da Mamãe) com a sua propaganda ostensiva de rádios e televisores. Não haveria presente na “Semana da Felicidade” para não corromper a constante felicidade, que se estaria oferecendo. Apenas as pessoas, durante sete dias, só iriam dizer coisas agradáveis umas às outras.

Nesta altura é preciso dar uma explicação necessária. Dizer coisas agradáveis não seria dizer a Maria que ela é bonita, quando ela é feia; nem a Pedro que ele está mais magro, quando Pedro está visivelmente mais gordo. Não. Sem grande esforço, encontrar-se-á, em cada pessoa, dez valores elogiáveis. E, quando não houver um só, conte-se uma história qualquer, que faça bem. Conte-se, por exemplo, como foi o amanhecer. Como ficou o céu, com os laivos vermelhos do amanhecer. Como estava o mar, na primeira luz sobre seu brilho baço do amanhecer. Ou se fale de um trecho de canção, da ária ou de um tema tocado pro Milles Davies. Do piano de Garner, seu ritmo comparável ao improviso da Fitzgerald e da Vaughan. Ou, com patriotismo, do sax-tenor de Cipó ou do trombones, do irmão Maciel mais novo. Conte-se bem uma cidade inesperada de sua viagem. Como eram as montanhas ou a cor da planície. As pessoas, seus olhos e suas blusas.

Na criação da “Semana da Felicidade”, não sei para quem deva apelar. Não sei a que governo transmitir a idéia. Federal ou Municipal. Ou a que Departamento de Turismo. Não. O apelo tem que ser feito a cada um dos meus possíveis leitores e por cada um transmitido às pessoas de sua sociedade. Quanto a mim, devo dizer que vivo, permanentemente, em semana de felicidade. Quando não posso fazer alguém feliz, com uma confissão ou uma história, não digo nada. Em troca, peço que não me tirem a alegria. Que não dêem notícias, sobre mim e sobre os outros, que, de leve, possam arranhar minha naturalidade feliz. E, de um modo especial, não me digam franquezas.”

IMS lança portal de crônicas

 

Das boas notícias recentes, merece destaque o lançamento hoje, 12/09, do Portal da Crônica Brasileira (cronicabrasileira.org.br). A louvável iniciativa do Instituto Moreira Salles (IMS) põe ao alcance de qualquer pessoa com acesso à internet 2.470 crônicas, na sua maioria também em versão fac-símile, ou seja, como foram originalmente publicadas, em páginas de revistas e jornais. São textos assinados pelos mais importantes autores do gênero no país. Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Clarice Lispector, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, entre eles. As crônicas fazem parte de acervos pessoais dos cronistas, hoje sob guarda do próprio IMS e de outras instituições. Segundo a coordenadora de Literatura do Instituto, Elvia Bezerra, nomes como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino devem ser incorporados ao site “num futuro próximo”. Caricaturas de Cássio Loredano/IMS.