Morre Affonso Arinos

Morreu na manhã do domingo (15), aos 89 anos, o escritor, diplomata, jornalista e político Affonso Arinos de Mello Franco. Nascido em Belo Horizonte, o intelectual, imortal da Academia Brasileira de Letras eleito em julho de 1999, faleceu em sua casa no Rio de Janeiro de causa não informada pela família.

Abaixo, alguns títulos do autor, conforme bibliografia da ABL.

-“Tramonto”2013

“Tempestade no Altiplano (Diário de um Embaixador)” – 1998

“Introdução a Brasil – Holandês / Dutch – Brazil” – 1995

“Atrás do Espelho (Cartas de Meus Pais)” – 1994

“Três Faces da Liberdade” – 1988

“Primo Canto (Memórias da Mocidade)” – 1976

26 anos sem Bukowski

Poema “O Pássaro Azul”, do também contista e romancista Charles Bukowski. Nascido em 16 de agosto, em Andernach, na Alemanha, e falecido em 9 de março de 1994, em Los Angeles, nos EUA, Bukowski é autor de grandes sucessos como “Cartas na Rua”, “Factotum”, “Mulheres”, “Misto Quente”, “Pulp” e “Crônica de Um Amor Louco”.

136 anos da morte de Bernardo Guimarães

Primeiro capítulo da novela exibida pela TV Globo a partir de outubro de 1976

Há 136 anos morria o jornalista, professor, poeta e romancista Bernardo Guimarães. Nascido em Ouro Preto, mesma cidade onde faleceu aos 59 anos, foi autor de um dos maiores sucessos editoriais do país: “A Escrava Isaura”. Lançado em 1875, em plena campanha abolicionista, o livro conta a desventuras de uma escrava branca e educada, de caráter nobre, que é vítima de um senhor cruel e devasso, e ganhou imensa popularidade já no seu lançamento. Foi adaptada para uma telenovela pela Rede Globo em 1976 e tornou-se uma das produções televisivas brasileiras de maior sucesso mundial, transmitida em mais de 80 países.

Abaixo a bibliografia do autor, conforme a Academia Brasileira de Letras.

-“Cantos da Solidão”, 1852

-“Poesias”, 1865

-“O Ermitão de Muquém”, 1868

-“Lendas e Romances”, 1871

-“O Garimpeiro”, 1872

-“Histórias da Província de Minas Gerais”, 1872

-“O Seminarista”, 1872

-“O Índio Afonso”, 1873

-“A Morte de Gonçalves Dias”, 1873

-“A Escrava Isaura”, 1875

-“Novas Poesias”, 1876

-“Maurício ou os Paulistas em São João Del-Rei”, 1877

-“A Ilha Maldita”, 1879

-“O Pão de Ouro”, 1879

-“Rosaura, a Enjeitada”, 1883

-“Folhas de Outono”, 1883

-“O Bandido do Rio das Mortes”, 1904

98 anos de Paulo Mendes Campos

Para celebrar os 98 anos de nascimento do escritor Paulo Mendes Campos, completados hoje (28), crônica publicada no livro “O Amor Acaba”. Nascido em Belo Horizonte, o poeta, tradutor e jornalista foi, ao lado de Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino, um dos principais nomes de uma geração de mineiros que se consagrou na história da literatura brasileira. Campos faleceu de ataque cardíaco, aos 69 anos, no dia 1º de julho de 1991.

DECLARAÇÃO DE MALES

Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.

Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.

75 anos sem Mário

Abaixo, poema de Mário de Andrade para celebrar os 75 anos da morte do escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta brasileiro. Força-motriz da Semana de Arte Moderna, Mário foi autor de clássicos como “Paulicéia Desvairada” (1922), “Amar,Verbo Intransitivo” (1927) e “Macunaíma” (1928). Acima, depoimento do crítico Antonio Candido (1918-2017) sobre o escritor, morto em sua residência em São Paulo em função de um enfarte do miocárdio, em 25 de fevereiro de 1945, aos 51 anos.

A Serra do Rola-Moça

A Serra do Rola-Moça

Não tinha esse nome não…

Eles eram do outro lado,

Vieram na vila casar.

E atravessaram a serra,

O noivo com a noiva dele

Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite

Se lembraram de voltar.

Disseram adeus para todos

E se puseram de novo

Pelos atalhos da serra

Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,

Na altura tudo era paz.

Pelos caminhos estreitos

Ele na frente, ela atrás.

E riam. Como eles riam!

Riam até sem razão.

A Serra do Rola-Moça

Não tinha esse nome não.

As tribos rubras da tarde

Rapidamente fugiam

E apressadas se escondiam

Lá embaixo nos socavões,

Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam

Cada qual no seu cavalo,

E riam. Como eles riam!

E os risos também casavam

Com as risadas dos cascalhos,

Que pulando levianinhos

Da vereda se soltavam,

Buscando o despenhadeiro.

Ali, Fortuna inviolável!

O casco pisara em falso.

Dão noiva e cavalo um salto

Precipitados no abismo.

Nem o baque se escutou.

Fez um silêncio de morte,

Na altura tudo era paz…

Chicoteado o seu cavalo,

No vão do despenhadeiro

O noivo se despenhou.

E a Serra do Rola-Moça

Rola-Moça se chamou.