IMS lança portal de crônicas

 

Das boas notícias recentes, merece destaque o lançamento hoje, 12/09, do Portal da Crônica Brasileira (cronicabrasileira.org.br). A louvável iniciativa do Instituto Moreira Salles (IMS) põe ao alcance de qualquer pessoa com acesso à internet 2.470 crônicas, na sua maioria também em versão fac-símile, ou seja, como foram originalmente publicadas, em páginas de revistas e jornais. São textos assinados pelos mais importantes autores do gênero no país. Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Clarice Lispector, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, entre eles. As crônicas fazem parte de acervos pessoais dos cronistas, hoje sob guarda do próprio IMS e de outras instituições. Segundo a coordenadora de Literatura do Instituto, Elvia Bezerra, nomes como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino devem ser incorporados ao site “num futuro próximo”. Caricaturas de Cássio Loredano/IMS.

 

 

Rosa garoto-propaganda

Anúncio de medicamentos com carta de Guimarães Rosa, na revista O Cruzeiro, em 1931

Nota do blog Painel das Letras, do jornalista Maurício Meireles, no site do jornal Folha de São Paulo, resgata fato inesperado na trajetória do cânone da literatura brasileira, Guimarães Rosa. O celebrado autor de “Grande Sertão: Veredas”, de 1956, foi garoto-propaganda de dois remédios, em 1931. A descoberta, segundo o jornalista, foi feita pelo bibliófilo Luís Pio Pedro, durante pesquisas para o dicionário de pseudônimos previsto para lançamento no ano que vem.

“O anúncio publicitário dos remédios Cascarobil e Metacal foi publicado naquele ano na revista O Cruzeiro, com uma carta de Rosa recomendando-os. Nela, o escritor dizia estar feliz que um paciente que sofria de “cólica hepática”, após o primeiro medicamento, achava-se “lépido, satisfeito, eufórico, cheio de saúde”.

 

A Odisseia em argila

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Conforme anúncio feito essa semana pelo ministro da Cultura da Grécia, arqueólogos descobriram o que acreditam ser o mais antigo fragmento do poema épico “Odisseia”, de Homero. Uma equipe de pesquisadores gregos e alemães teriam encontrado o fragmento em uma placa de argila entalhada na antiga Olímpia, berços dos jogos olímpicos localizado na península do Peloponeso. A placa contém 13 versos do Canto 14 da “Odisseia”. A obra tem 12.109 linhas de poesia contando a história de Ulisses, rei de Ítaca, que vaga durante 10 anos tentando voltar para casa após a queda de Tróia. A “Odisseia”, conforme assinalado nas notícias divulgadas pela imprensa mundial, é o segundo grande poema atribuído a Homero. O outro é a “Ilíada”. Ambos são considerados duas das maiores obras da literatura mundial em todos os tempos.

Do acervo do IMS

Manuscrito do poema “Para Cecília Meireles”. Arquivo Mario Quintana/ Acervo Instituto Moreira Salles.

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“Nas linhas tortas do manuscrito de “Para Cecília Meireles”, poema em gestação, o que se sobressai é a letra trêmula e oscilante de um Quintana que provavelmente teria cerca de 80 anos de idade quando do esboço do poema. Em alguns momentos, a escrita é quase indecifrável, hieroglífica, mas nela sempre presente a imagem dos belos olhos claros da poetisa.”

De Drummond para Cyro

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Em carta para Cyro dos Anjos, Drummond comenta os bastidores da transferência desse do México para Lisboa e suas saudades depois de assistir à exumação dos ossos da mãe de um cemitério de Itabira para se juntarem aos dos pai no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte. A correspondência entre os dois escritores faz parte do acervo do Instituto Moreira Salles, acessível pelo site do IMS.

Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1954

Em primeiro lugar, venha de lá um abraço pelo súbito imprevisto e feliz resultado do affaire Lisboa, que assinala a primeira e modesta vitória de um mineiro sobre a grei nortista, nestes 450 anos de vida brasileira. Só não lhe telegrafei transmitindo a grata notícia porque soube que o Chermont já o fizera. Segundo este contou ao nosso Rodrigo, o caso passou-se assim. Na véspera do embarque do ministro Rao para a Conferência de Caracas, o Chermont interpelou-o sobre o caso, ouvindo como resposta que já havia compromisso com o Aurélio para a vaga do Álvaro. Chermont, entretanto, pediu licença para aduzir alguns argumentos em favor de outra solução, que lhe parecia mais conveniente, e que o anunciado afastamento de Sérgio B. de Holanda tornava possível. Esses argumentos foram de tal ordem que o ministro se deixou convencer e autorizou-o a propor o Aurélio, já dono de Lisboa, o périplo México-Roma. Chermont não perdeu tempo, e convocando o Aurélio apresentou-lhe de surpresa a proposta; este, justiça seja feita, topou-a com galanteria, ao que me dizem. De sorte que, de uma hora para outra, e quando não se tinha mais esperança, a sorte mudou para o lado de você. Parece (é suposição minha) que a qualidade do trabalho realizado aí por você terá sido a razão maior, pois nenhum outro enviado cultural apresentou ainda nada de parecido com os Cuadernos brasileños (e aproveito o ensejo para lhe agradecer a oferta do primeiro número, agora recebido).

Tenho andado numa roda viva de trabalho, e isso explica a relativa escassez de cartas. Além disso, na semana passada fui a Minas cumprir um desejo de minha mãe, que desejaria ter seus despojos reunidos aos de meu pai, no cemitério de Belo Horizonte. Assisti em Itabira à exumação dos ossos, e ajudei a levá-los até ao Bonfim, onde agora repousam junto aos do velho. Se lhe disser que não fiquei arrasado pela cerimônia, você talvez se surpreenda; mas é que, nas duas horas e tanto que durou aquela pesquisa e recolhimento de pobres ossos, me visitava o pensamento consolador de que nada mais, nem alma nem corpo, restava de minha mãe, e ela era pura saudade dentro de mim e de algumas pessoas. Talvez este pensamento não se concilie bem com o que me ocorreu depois, no Bonfim, ao encaixarmos a urna no jazigo: já então, parecia-me que se celebrava uma última boda, dos restos dos restos de um com os restos dos restos de outra, e essa aproximação final dos despojos excluía toda tristeza e constituía uma vitória sobre as limitações do tempo, da natureza e da morte. Tudo isso, é claro, sentido mais do que pensado, e isento de literatura. Não creio que me tivesse deixado penetrar por essas imaginações para não sofrer; o que suponho é que assimilei já de tal modo a morte de meus pais que é como se eles estivessem vivos a meu lado – e realmente estão, pela frequência e intensidade com que os sinto, como algo de incorporado a mim mesmo, ou melhor, a que eu próprio os haja incorporado.

 

Sua sugestão sobre a nota a ser incluída nas Poesias completas parece-me boa, e vou resolver o assunto ao receber as provas. Ando dando duro na crônica diária para o Correio e num projeto de programa radiofônico para o Ministério da Educação. Ó vida cara, a quanto nos obrigas! Na colaboração jornalística, estou verificando em mim, com estupor, a tendência para meter o pau no próximo, quando já a madureza me parecia me soprar auras mais benévolas. Manolo e Maria Julieta estão circulando em São Paulo, onde há Bienal e Festival de Cinema. Os meninos estão aqui; o menor ainda é uma doçura de bebê, mas o Cafioto exige um exército para vigiá-lo e contê-lo. Excelente retrato o do Francisco de Assis no seu velocípede. Obrigado. Lembre-nos a Lilita.

Para você o melhor abraço do

Carlos