A pandemia de Trump

Foto: Alec Soth/Sleeping by the Mississippi. Luxora, Arkansas, USA. 2002. Magnum Photos

Trecho de entrevista do filósofo, sociólogo, escritor e ativista político norte-americano Noam Chomsky, de 91 anos, publicada no último final de semana pelo jornal espanhol El País. Chomsky é o fundador da linguística contemporânea e pensador referência para a esquerda norte-americana. Entrevista completa pelo link https://brasil.elpais.com/ideas/2020-05-17/noam-chomsky-se-nao-conseguirmos-um-green-new-deal-ocorrera-uma-desgraca.html

“Se não falarmos de sua causa (da pandemia), a próxima será inevitável e será pior do que a anterior, por culpa do aquecimento global. Quanta atenção se dedicou à raiz do problema? Isso é um sistema de propaganda eficiente: ignora o importante. Você não quer que as pessoas tenham ideias perigosas. Não digo que seja deliberado, acho que é automático, o ato reflexo de permanecer dentro do marco da doutrina estabelecida. Outro exemplo. Uma das coisas que essa administração faz para desviar a atenção de seus crimes é procurar bodes expiatórios. As políticas de Trump mataram centenas de milhares de pessoas, mas ele não quer que se saiba, de modo que joga a culpa em outro. Culpa a China, a Organização Mundial da Saúde (OMS). E é uma estratégia boa porque seus fãs não gostam das organizações internacionais. São nacionalistas, supremacistas brancos, não querem estrangeiros se metendo em seus assuntos. Mas o que acontece quando você deixa de apoiar a OMS? Mata pessoas no Iêmen, a pior crise humanitária do mundo, para onde enviam médicos, material sanitário etc. E na África, uma região ainda maior e com muitas doenças. Mas que veículos de imprensa explicam que, para otimizar suas possibilidades de reeleição, Trump está matando inúmeras pessoas? Assim funciona a propaganda: não preste atenção aos verdadeiros crimes e no que os motiva. Se você conta os crimes, mas não explica as estruturas institucionais em que eles ocorrem, as pessoas não entendem o que acontece e os crimes se repetem.”

O método Hemingway

Quarto ocupado por Hemingway no hotel Ambos Mundos. Foto: inHavana

Abaixo, trecho da entrevista concedida pelo escritor Ernest Hemingway ao jornalista George Plimpton e publicada no volume 2 da série “Os Escritores – As Históricas Entrevistas da Paris Review”, lançado pela Companhia das Letras e hoje fora de catálogo. Aqui, o Prêmio Nobel de 1954 comenta seus hábitos de produção.

-As horas que o senhor dedica à escrita propriamente dita são agradáveis?

-Muito.

-Poderia falar um pouco sobre esse processo? Em que período trabalha? O senhor segue uma programação estrita?

-Quando estou trabalhando em um livro ou um conto, escrevo diariamente de manhã, a partir da hora em que surge a primeira luz. Não tem ninguém para perturbar, é fresco, ou mesmo frio. Começo a trabalhar e vou esquentando conforme escrevo. Leio o que fiz no dia anterior e, como sempre paro num trecho a partir do qual sei o que vai acontecer, prossigo desse ponto. Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida; paro e tento sobreviver até o dia seguinte, para voltar à carga. Se começo às seis da manhã, digamos, posso ir até meio-dia, ou interromper o trabalho um pouco antes. A interrupção dá uma sensação de vazio, como quando se faz amor com quem se gosta. E ao mesmo tempo não é um vazio, mas um transbordamento. Não há nada que o atinja, nada acontece, nada tem sentido até o dia seguinte, quando você faz tudo de novo. Difícil é viver a espera até o dia seguinte.

-Consegue tirar da cabeça um projeto, seja ele qual for, quando está longe da máquina?

-Claro. Mas é preciso disciplina para se fazer isso, e essa disciplina se conquista. Tem de ser assim.

-O senhor reescreve alguma coisa ao reler o que escreveu no dia anterior? Ou isso vem depois, quando já está tudo pronto?

-Eu sempre reescrevo, na manhã seguinte, o trecho do dia anterior. Naturalmente, quando acabo, repasso tudo outra vez. E tem-se mais uma chance de corrigir e reescrever quando outra pessoa datilografa, e se vê o texto passado a limpo, datilografado. A última oportunidade é nas provas. É bom ter tantas chances diferentes.

-Quantas vezes reescreve um texto?

-Depende. Reescrevi o final de “Afarewell to Arms”, a última página, trinta e nove vezes, até ficar satisfeito.

-Por quê? Havia algum problema técnico? O que o preocupava?

-Pôr as palavras do jeito certo.

-Essa releitura que recupera a “seiva” o “gás”?

-A releitura me coloca no ponto exato onde tem que haver a continuação, dando a noção de que tudo está tão bom quanto possível. A seiva está sempre em algum lugar.

-Mas existem momentos em que a inspiração não vem de jeito nenhum?

-Sem dúvida. Mas ao parar num ponto em que sabia o que viria depois, posso ir em frente. Desde que consiga começar, tudo bem. O gás aparece.

-Thornton Wilder fala de recursos mnemônicos que ajudam o escritor a saber a quantas anda o seu dia de trabalho. Ele diz que uma vez o senhor contou que apontou vinte lápis.

-Acho que nunca cheguei a ter vinte lápis ao mesmo tempo. Gastar sete lápis número 2 é um bom dia de trabalho.

-Pode citar alguns dos lugares que considera mais propícios para trabalhar? O hotel Ambos Mundos deve ter sido um deles, a julgar pelo número de livros que escreveu lá. Ou, na sua opinião, o ambiente tem pouca influência sobre o trabalho?

-O Ambos Mundos, em Havana, foi um lugar muito bom para trabalhar. O Finca é um lugar fantástico, ou melhor, foi. Mas eu trabalho bem em qualquer lugar. Quer dizer, consigo trabalhar tão bem quanto me é possível nas circunstâncias mais variadas. Telefone e visitas são inimigos mortais do trabalho.

-É necessário ter estabilidade emocional para se escrever bem? O senhor me disse uma vez que só conseguia escrever bem quando estava apaixonado. Poderia se estender um pouco mais nesse assunto?

-Mas que pergunta! Nota dez pela tentativa. Você consegue escrever sempre que as pessoas deixam você em paz e não interrompem. Quer dizer, consegue se for duro o bastante em relação a isso. Mas, com toda certeza, escreve-se melhor quando se está apaixonado. Se você estiver de acordo, prefiro não me estender sobre esse assunto.

-E a questão da segurança financeira? Pode prejudicar a qualidade do que se escreve?

Se ela vem relativamente cedo e você ama a vida tanto quanto o seu trabalho, é preciso ser muito forte para resistir às tentações. Uma vez que escrever tenha se tornado seu maior vício e seu maior prazer, só a morte pode acabar com isso. A segurança financeira, então, é uma grande ajuda, já que evita que você fique se preocupando. A preocupação destrói a capacidade de escrever. Uma doença incomoda, na medida em que gera uma preocupação subconsciente, minando suas reservas.

A arrogância da ignorância

Foto: Harvard/Divulgação

Em entrevista recente à BBC News Brasil, o professor de História e de Estudos Africanos e Afro-americanos na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Sidney Chalhoub, faz uma análise sobre a responsabilidade de governos e possíveis legados positivos da pandemia da Covid-19. Chalboub é autor, entre outros livros, de “Cidade Febril: Cortiços e Epidemias na Corte Imperial”, em descreve como doenças infecciosas mudaram o Brasil na virada do século 19 para o 20, “Trabalho, Lar e Botequim”, sobre a vida nas classes baixas cariocas, e de “Visões da Liberdade”, sobre as últimas décadas de escravidão na cidade.

Abaixo trecho da entrevista com o comentário de Chalhoub sobre a possibilidade de a pandemia nos deixar legados positivos. Entrevista completa pelo link: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52250448.

“Acho que sim. Por mais que tenhamos passado os últimos anos governados pelas fake news, nessa hora todo mundo espera a salvação pela ciência.

Espero que a epidemia ajude a desautorizar políticos levianos que têm governado várias partes do mundo com a arrogância da ignorância. Essa arrogância está agora sendo desmascarada por fatos trágicos.

No Brasil, a figura do presidente, que é uma caricatura disso, mostra como a ignorância é impotente contra a tragédia.

Não há solução fora de uma vacina, ou da descoberta de medicamentos eficazes, ou de seguir recomendações sanitárias que diminuam o estrago imediato.

Isso mudou em relação às epidemias dos séculos 19 e início do 20. Hoje há uma medicalização muito maior da sociedade e o entendimento da eficácia da medicina científica.

O que torna essa pandemia mais assustadora é que ela é uma metáfora perfeita da globalização. Ela segue a trilha das mercadorias e da circulação de pessoas de maneira tão radical e tão incontrolável quanto a ideologia neoliberal imaginava que a economia poderia ser.

Sempre houve uma relação direta entre a circulação de mercadorias e a de vírus e bactérias. A cólera e a febre amarela só viraram pandemias no século 19 quando os navios ficaram mais rápidos e quando começou a ter estrada de ferro.

Só que a pandemia atual é ainda mais rápida. Esse neoliberalismo agressivo que tomou conta das políticas econômicas internacionais criou outro problema, porque essas políticas diminuíram o Estado, e, de repente, os países se veem despreparados para lidar com uma crise aguda de saúde pública.

É por isso que ela também ataca o imaginário de forma tão radical. Ela coloca em questão todo um meio de vida e de pensar a economia nas últimas décadas, o Estado mínimo e a naturalização das desigualdades.

Uma questão científica

Yuval Noah Harari comenta os impactos da subordinação da ciência à política ao responder pergunta sobre a série “Chernobyl”, da HBO, em entrevista recente à revista Trip.

“…narra um caso clássico do que acontece quando cientistas estão subordinados a políticos. Os políticos na União Soviética não quiseram admitir que houve um acidente e que milhões de pessoas estavam correndo perigo, nem assumir a responsabilidade por isso. E foi um desastre. Porque os cientistas não tinham a independência de falar para a população que esse era um acidente nuclear e que dezenas de milhões de pessoas estavam correndo perigo devido à radiação. Por isso é tão importante que os cientistas sejam independentes. Eles não deveriam ser encarregados de estabelecer políticas. Esse é o território de políticos eleitos pelas pessoas. Mas as políticas deveriam refletir os fatos. As mudanças climáticas são um exemplo clássico. Não cabe aos políticos, nem aos eleitores, decidir se elas são reais ou não. É uma questão científica. Já o que fazer em relação a essa questão é uma decisão política. Vamos criar um imposto de carbono? Estabelecer um acordo global? Vamos decidir não fazer nada? Ok, em 20, 40 anos vai ser difícil, mas se as pessoas votarem por isso tudo bem, faz parte da democracia. Mas elas deveriam votar conhecendo os fatos, e não negando-os.”

Um assunto que não acabou

Obra de Jean-Baptiste Debret

Trecho de entrevista do escritor Laurentino Gomes, autor de “Escravidão”, lançado recentemente pela Globo Livros, ao jornal El País. Matéria completa no link https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/19/politica/1574203693_074968.html.

“Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão. Primeiro por uma razão estatística: o Brasil foi o maior território escravista da América, com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso dá 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. Foi o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, e o último a acabar com a própria escravidão, em 1888. O Brasil foi construído por escravos, em todos os ciclos econômicos, passando pelo açúcar, ouro, diamante, café. A escravidão não é um assunto acabado, tema de museu ou livro de história. Ela está presente na realidade brasileira. Os abolicionistas do século XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas abolições. A primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei Áurea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como cidadãos, dando terra, emprego, educação, e isso o Brasil jamais fez. O país abandonou sua população afrodescedente à própria sorte.”