Uma questão científica

Yuval Noah Harari comenta os impactos da subordinação da ciência à política ao responder pergunta sobre a série “Chernobyl”, da HBO, em entrevista recente à revista Trip.

“…narra um caso clássico do que acontece quando cientistas estão subordinados a políticos. Os políticos na União Soviética não quiseram admitir que houve um acidente e que milhões de pessoas estavam correndo perigo, nem assumir a responsabilidade por isso. E foi um desastre. Porque os cientistas não tinham a independência de falar para a população que esse era um acidente nuclear e que dezenas de milhões de pessoas estavam correndo perigo devido à radiação. Por isso é tão importante que os cientistas sejam independentes. Eles não deveriam ser encarregados de estabelecer políticas. Esse é o território de políticos eleitos pelas pessoas. Mas as políticas deveriam refletir os fatos. As mudanças climáticas são um exemplo clássico. Não cabe aos políticos, nem aos eleitores, decidir se elas são reais ou não. É uma questão científica. Já o que fazer em relação a essa questão é uma decisão política. Vamos criar um imposto de carbono? Estabelecer um acordo global? Vamos decidir não fazer nada? Ok, em 20, 40 anos vai ser difícil, mas se as pessoas votarem por isso tudo bem, faz parte da democracia. Mas elas deveriam votar conhecendo os fatos, e não negando-os.”

Um assunto que não acabou

Obra de Jean-Baptiste Debret

Trecho de entrevista do escritor Laurentino Gomes, autor de “Escravidão”, lançado recentemente pela Globo Livros, ao jornal El País. Matéria completa no link https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/19/politica/1574203693_074968.html.

“Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão. Primeiro por uma razão estatística: o Brasil foi o maior território escravista da América, com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso dá 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. Foi o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, e o último a acabar com a própria escravidão, em 1888. O Brasil foi construído por escravos, em todos os ciclos econômicos, passando pelo açúcar, ouro, diamante, café. A escravidão não é um assunto acabado, tema de museu ou livro de história. Ela está presente na realidade brasileira. Os abolicionistas do século XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas abolições. A primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei Áurea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como cidadãos, dando terra, emprego, educação, e isso o Brasil jamais fez. O país abandonou sua população afrodescedente à própria sorte.”

Risério e as moradias

Resposta de Antonio Risério à pergunta do repórter do Estadão, Guilherme Evelin, sobre o “problema” do programa Minha Casa, Minha Vida, duramente criticado pelo antropólogo. Entrevista completa, publicada na última edição do caderno “Aliás” no link abaixo (para assinantes): https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,minha-casa-minha-vida-constroi-hoje-as-favelas-de-amanha-diz-antonio-riserio,70002940746

“Como o BNH, o Minha Casa, Minha Vida nasceu principalmente não para atender a uma demanda popular, mas para injetar dinheiro na veia do empresariado, num momento de crise. Mais: o governo cedeu o controle do chão da cidade à burguesia da construção civil, monopolização fundiária que impede planejamentos socialmente justos e de médio e longo prazos. Dona do solo citadino, a burguesia decide onde vai implantar isso ou aquilo: um shopping aqui, um bairro de luxo ali, um conjunto habitacional popular adiante. Reserva para si as melhores fatias do chão da cidade e joga os conjuntos populares nas pirambeiras da periferia, carentes dos serviços públicos mais elementares. Com isso, esses núcleos distantes se favelizam. Foi o que aconteceu, no passado, com a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. É o que começa a acontecer com os assentamentos do programa petista. É por isso que digo que o Minha Casa, Minha Vida constrói, hoje, as favelas de amanhã.”

Autor de vasta obra na área musical e na poesia e mais de 20 livros publicados, Antonio Risério (1953) lançou recentemente, pela TopBooks, “A Casa no Brasil”, parte da trilogia que já teve publicados “A Cidade no Brasil” (2012) e “Mulher, Casa e Cidade” (2015).

El País entrevista Cardenal

Cardenal é repreendido ao tentar beijar a mão de João Paulo II, no aeroporto de Manágua, em março de 1983

O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal, 94 anos, um dos maiores defensores da Teologia da Libertação na América Latina e ministro da Cultura no primeiro governo de Daniel Ortega, é o entrevistado de matéria publicada no final de semana pelo El País (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/20/internacional/1555774595_576493.html).

Na entrevista a Javier Lafuente, Cardenal se reafirma um perseguido político e diz que, sobre o confronto com o papa João Paulo II, em 1984, a sanção papal não o afetou: “Meu sacerdócio é diferente, é pastoral. Eu me tornei sacerdote pela união com Deus, é algo místico”.

Abaixo, poema de 1961.

Epigramas

Te dou Claudia, estes versos, porque tu és a dona
os escrevi simples para que tu os entendas.
São para ti somente, mas se a ti não te interessam,
um dia se divulgarão, talvez por toda Hispanoamerica…
e se ao amor que os ditou, tu também o desprezas,
outras sonharão com este amor que não foi para elas.
E talvez verás, Claudia, que estes poemas,
(escritos para conquistar-te) despertam
em outros casais enamorados que os leiam
os beijos que em ti não despertou o poeta.

Ao perder-te eu a ti, tu e eu perdemos:
Eu, porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era o que te amava mais
mas de nós dois tu perdes mais que eu:
porque eu poderei amar a outras como te amava a ti,
mas a ti não te amarão como te amava eu.

Moças que algum dia leiam emocionadas estes versos
e sonheis com um poeta:
Sabei que eu os fiz para uma como vós
e que foi em vão.

Epigramas

Te doy Claudia, estos versos,
porque tú eres su dueña.
Los he escrito sencillos
para que tú los entiendas.
Son para ti solamente,
pero si a ti no te interesan,
un día se divulgarán,
tal vez por toda Hispanoamérica…
Y si al amor que los dictó,
tú también lo desprecias,
otras soñarán
con este amor
que no fue para ellas.
Y tal vez verás,
Claudia,
que estos poemas,
(escritos para conquistarte a ti)
despiertan
en otras parejas
enamoradas que los lean
los besos que en ti
no despertó el poeta.

Al perderte yo a ti,
tú y yo hemos perdido:
yo, porque tú eras
lo que yo más amaba,
y tú, porque yo era
el que te amaba más.
Pero de nosotros dos,
tú pierdes más que yo:
porque yo podré
amar a otras
como te amaba a ti,
pero a ti nadie te amará
como te amaba yo.

Muchachas que algún día
leaís emocionadas estos versos
Y soñéis con un poeta
Sabed que yo los hice
para una como vosotras
y que fue en vano.