O surto do prefeito e a reação dos ministros

Imagem: br.freepik.com

“Sob o signo do retrocesso, cuja inspiração resulta das trevas que dominam o poder do Estado, um novo e sombrio tempo se anuncia, da intolerância, da repressão ao pensamento, da interdição ostensiva ao pluralismo de ideias e do repúdio ao princípio democrático.”

Do ministro do Supremo, Celso de Mello, em nota da colunista Mônica Bergamo, da FSP, sobre o surto de censor do prefeito do Rio na tentativa de proibir a venda de uma HQ com um beijo gay na Bienal do Rio, encerrada no domingo.

Por duas vezes os fiscais de Crivella estiveram no evento na busca de obras atentatórias, num episódio de repercussão internacional. Posteriormente, o STF ratificou a decisão de proibir a censura e fez uma defesa do ambiente de livre trânsito de ideias no país, “um pressuposto para o regime democrático”, conforme o presidente da corte, Dias Toffoli.

A bizarrice do prefeito

O melhor das charges que, juntamente com os depoimentos indignados, protestos, beijaços e milhares de compartilhamentos da imagem censurada, derão o tom do penúltimo dia da Bienal do Rio 2019, que se encerra neste domingo e foi marcada pela ordem do alcaide para recolher do evento uma HQ com uma imagem de um beijo entre dois homens.

Abaixo resumo da história rocambolesca, conforme o site G1.

Na noite de quinta-feira, o prefeito Marcelo Crivella anuncia que vai mandar recolher exemplares de “Vingadores, a Cruzada das Crianças” da Bienal do Livro; 

Bienal informa que não vai retirar livros e que dá “voz a todos os públicos”;

Na manhã de sexta-feira, todos os exemplares à venda na Bienal se esgotam em pouco mais de meia hora;

No mesmo dia, fiscais da prefeitura vão ao local para identificar e lacrar livros considerados “impróprios”;

Fiscalização não encontra conteúdo em “desacordo com a legislação”;

Bienal recorre à Justiça para garantir “pleno funcionamento do evento”;

Desembargador concede liminar;

OAB diz que prefeitura não tem poder para recolher livros;

Fiscais da Secretaria de Ordem Pública (Seop) da Prefeitura do Rio voltam à Bienal na tarde de ontem, após decisão judicial que permitia a apreensão de livros com temática LGBT voltada para o público infanto juvenil sem lacre e avisos.

Bienal do Rio vai até domingo

Foto: Reprodução/G1

Prossegue até domingo que vem a 19ª Bienal do Livro do Rio. O evento foi aberto na sexta-feira (30), no Riocentro, com direito a pavilhão inédito dedicado às crianças e muitas atrações para o público jovem. Segundo matéria do G1, a expectativa dos organizadores é vender 5,5 milhões de livros até o dia 8. Lançamentos, como “Escravidão”, de Laurentino Gomes, 520 expositores, mesas-redondas e encontros com autores como Steven Levitsky, de “Como as Democracias Morrem”; C.J. Tudor, do “Homem de Giz” e Mark Manson, da “Sutil Arte de Ligar o F*da-se” movimentam a programação, que pode ser conferida na íntegra no site https://www.bienaldolivro.com.br/.

Ícone mundial do feminismo fará conferências no RJ e SP

Símbolo máximo da militância pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial nos EUA, Angela Davis em foto da Revista Cult

Divulgadas as datas das duas conferências que a filósofa e ativista Angela Davis dará em sua visita ao Brasil, onde promove também seu livro “Uma Autobiografia”, lançado aqui em abril passado pela Boitempo. A primeira A Liberdade É uma Luta Constante, acontece no dia 19 de outubro, no Sesc Pinheiros, na capital paulista. Dois dias depois, 21/10, a escritora volta ao centro do debate no auditório Ibirapuera, também em SP. Na sequência, Davis passa ainda pelo Rio de Janeiro, onde, no dia 23, apresenta conferência e recebe medalha da Assembleia Legislativa.

Vítimas da intolerância

Mais alguns passos e o Brasil entra em definitivo na Idade Média. O último movimento nessa direção veio da cidade de Jaraguá do Sul (SC), de onde a comissão organizadora da 13ª Feira do Livro da cidade decidiu cancelar, depois de já anunciada publicamente, a participação dos escritores e jornalistas Miriam Leitão e Sérgio Abranches no evento. O “veto”, segundo a organização, se deu em resposta a uma campanha dos moradores nas redes sociais, que veem o casal como oposicionista ao governo Jair Bolsonaro, presidente que contou com 83% dos votos válidos dos moradores de Jaraguá do Sul na última eleição. A feira tem o apoio da prefeitura local e está prevista para ocorrer entre os próximos dias 8 e 18 de agosto.