Manoel de Barros no palco

A atriz Cássia Kis em foto de Gal Oppido

O poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014) é homenageado na peça “Meu Quintal É Maior do que o Mundo”, com Cássia Kis e o músico Gilberto Rodrigues sob direção de Ulysses Cruz. No momento, o espetáculo está em cartaz no Teatro do Sesi, em São Paulo, onde permanece até o próximo dia 17.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Atualíssimo Euclides da Cunha

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Já tem data – 10 a 14 de julho – e homenageado – Euclides da Cunha – o evento literário mais badalado do país: a Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2019. Afora a qualidade literária indiscutível, a obra de Euclides, é defendida pela curadora Fernanda Diamant, em recente entrevista à Folha, também pela atualidade assombrosa com que ainda contribui para o debate nacional em torno de temas como política, história, jornalismo, racismo, religião, ecologia, violência etc. etc.

Autor de um dos mais aclamados títulos brasileiros, Euclides da Cunha era engenheiro e membro do Exército Nacional, mas foi como jornalista que fez história. Escrevendo para o jornal “A Província de São Paulo”, mais tarde “O Estado de São Paulo”, Euclides foi, no final de 1890, para o interior da Bahia com o objetivo de cobrir a Revolta de Canudos. Lá, presenciou o bárbaro massacre promovido pelos militares, com a benção do Estado, contra os membros do movimento liderado por Antônio Conselheiro, pondo em xeque suas ideias e sua fé no governo republicano. Dois anos depois, publicava seu grande clássico “Os Sertões”.

O autor morreu no Rio de Janeiro, em 1909, aos 43 anos, assassinado pelo amante da sua mulher Ana, Dilermando de Assis, a quem tentara também balear. Dilermando, como se sabe, acabou sendo absolvido por um júri popular, alegando legítima defesa. Fato também lembrado na entrevista, pela atualidade do momento em que parte da sociedade sai em defesa de menores restrições ao porte de armas no país.

Dupla homenagem a Ziraldo

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Ziraldo na década de 60. Foto/Casa Ziraldo de Cultura

Duas exposições, em São Paulo, celebram a obra do mais popular cartunista do país. “Ziraldo…de A a Zi” foi aberta essa semana no Sesc Interlagos e prossegue até agosto do ano que vem. São cinco espaços temáticos abordando sete décadas de produção. Dos primeiros desenhos até os mais recentes. Na Casa Melhoramentos fica em exposição, de amanhã, 18/10, até 22 de dezembro “Os Planetas Ziraldo”. Ambas têm entrada gratuita.

Começa a Feira de Frankfurt

Frankfurt

Começa hoje, com baixa expectativa por parte dos editores brasileiros, a 70ª edição do principal evento literário mundial, a Feira do Livro de Frankfurt. Com muitas negociações feitas em dólar e um real em desvalorização, aliado à uma grave crise no mercado editorial brasileiro que vem se arrastando desde 2014, tem deixado os ânimos de editores e agentes numa temperatura mais morna. Soma-se ainda o achatamento mundial do mercado. Segundo relatório da própria feira, na última década houve encolhimento do mercado livreiro na grande maioria dos países, com exceção da China. Só na Alemanha, sede do evento, o número de consumidores de livros teria diminuído mais de 6 milhões entre 2012 e 2016. A feira reúne 7,3 mil expositores de mais de 100 países e dura cinco dias.

 

3×4 da Bienal de SP

BIENAL-2018

Matéria recente do “Caderno 2” do Estadão faz um balanço da Bienal Internacional de São Paulo, encerrada domingo passado, e mostra que além de mais pessoas circulando nos corredores do Anhembi, o evento teve menos expositores (197 este ano contra 280 na edição de 2016) e maior valor do gasto médio dos visitantes (cerca de R$ 160 contra R$ 121). Entre outros participantes ouvidos pela reportagem, a editora Sextante estimava, naquele momento, vendas 50% superiores às registradas em 2016; a Record falava em crescimento da ordem de 20% nas vendas e a Melhoramentos, de 57%. Entre as que apostavam num empate com relação à Bienal anterior estavam Autêntica e Sesc. Comentou ainda a ausência da Livraria Saraiva e da editora Fundamento, conhecida pelo catálogo voltado para aquele que foi o maior público do evento: o infanto-juvenil.