Sobre a virtude

A virtude, assim como o gênio, não se ensina; a ideia que se faz da virtude é estéril, e só pode servir de instrumento, como as coisas técnicas em matéria de arte. Esperar que os nossos sistemas de moral e nossas éticas possam tornar os homens virtuosos, nobres e santos, é tão insensato como imaginar que os nossos tratados sobre estética possam produzir poetas, escultores, pintores e músicos.

Não há senão três causas fundamentais das ações humanas, e nada se faz sem elas. Temos primeiro: a) o egoismo, que quer o seu próprio bem (não tem limites); b) a maldade, que deseja o mal de outrem (vai até à extrema crueldade); c) a piedade, que quer o bem de outrem (vai até à generosidade, à grandeza de alma). Toda a ação humana depende de uma destas três causas ou mesmo de duas.

Do filósofo alemão do Século XIX, Arthur Schonpenhauer.

Tudo é opinião

“Os deuses não revelaram aos homens desde o início todas as coisas; mas por meio da procura eles com o tempo encontram o melhor. […] Pois jamais houve nem haverá quem possua a verdade plena sobre os deuses e sobre todas as coisas das quais eu falo. E, mesmo se, por acaso, um homem conseguisse expressar a verdade inteira, ainda assim ele próprio não se aperceberia disso. A opinião tudo permeia.”

Xenófanes (Século V A.C.)

Carpe diem, ensina Horácio

 

Trecho de um dos mais famosos poemas de Horácio (65 a.C.-8 a,C.), a Ode 1.11, conforme publicado pelo site revistaprosaversoearte.com.

Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.

[Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi 
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios 
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati. 
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, 
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare 
Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi 
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida 
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.]

Aprendendo com Sêneca

A 3715
O Suicídio de Sêneca,(1871), de Manuel Domínguez Sánchez – Museu do Prado

“Podes me indicar alguém que dê valor ao que seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.”

Trecho de “Aprendendo a viver: cartas a Lucílio”

O jogo de dados de Schopenhauer

 

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) reflete sobre a vida e a morte.

“Não conhecemos maior jogo de dados que o jogo do nascimento e da morte; preocupados, interessados, ansiosos ao último ponto, assistimos a cada partida, porque a nosso olhos tudo se resume nisso. A natureza, pelo contrário, que não mente nunca, a natureza, sempre franca e aberta, exprime-se a este respeito de um modo muito diverso: diz ela que a vida ou a morte do indivíduo em nada lhe importa; é o que exprime entregando a vida do animal e também do homem a todos os acasos, sem empregar o mínimo esforço para os salvar. Observem o inseto no nosso caminho: o menor desvio involuntário do nosso pé decide sua vida ou sua morte. Veja-se a lesma dos bosques, destituída de qualquer meio de fugir, de se defender, de enganar, de se ocultar, presa, exposta a todos os perigos; veja-se o peixe a saltitar sem inquietação na rede ainda aberta; a rã cuja moleza a impede de fugir e de escapar; a ave sob o olhar do falcão que paira por cima dela e que esta não vê; a ovelha que o lobo espreita oculto no arvoredo; todas essas vítimas fracas, desarmadas, imprudentes, vagueiam, no meio de perigos ignorados, que a todo momento as ameaçam. A natureza abandonando assim sem resistência os seus organismos, obras de uma arte infinita, não só à avidez do mais forte, mas ao mais cego dos acasos, à fantasia do primeiro imbecil que passa, à maldade da criança – a natureza exprime dessa maneira, no seu estilo lacônico, oracular, que o aniquilamento desses seres lhe é indiferente, que não a pode prejudicar, que nada significa, e que em casos idênticos a causa é tão indiferente quanto o efeito…

Portanto, quando essa mãe soberana, universal, expõe sem escrúpulo algum os filhos a mil perigos iminentes, sabe que quando sucumbem é para voltarem ao seu seio onde os conserva ocultos; a sua morte não passa de uma brincadeira. Sucede com o homem o mesmo que com os animais. O oráculo da natureza estende-se a nós; a nossa vida ou a nossa morte não a comove, e não deveria comover-nos, porque também fazemos parte dessa natureza.”