Segundo Schopenhauer

Jean-Michel Basquiat em foto de James van der Zee

“A piedade, princípio de toda a moralidade, toma também os animais sob a sua proteção, ao passo que nos outros sistemas de moral européia, têm para com ele pouquíssima responsabilidade e solicitude. A suposta ausência de direito dos animais, o preconceito de que o nosso procedimento para com eles não tem importância moral, que não existem, como se diz, deveres para com os animais, é justamente uma ignorância revoltante, uma barbaridade do Ocidente, cuja origem está no Judaismo…

É preciso recordar, a esses desprezadores dos animais, a esses ocidentais judaizados, que assim como eles foram amamentados pelas mães, também o cão teve mãe que o amamentou.

A piedade com os animais está tão intimamente ligada com a bondade de caráter, que se pode afirmar que quem é cruel com os animais não pode ser bom.”

Do livro “Dores do Mundo”, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), em edição da Ediouro.

Inconstância

“The False Mirror”, de René Magritte

“Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em consequência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras, é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal, avarento, pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim mesmo um juízo completo, simples, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra.”

Do jurista, filósofo, político e precursor do gênero Ensaio, Michel de Montaigne (1533-1592).

Fukuyama e a democracia

“Várias democracias têm avançado na direção errada, mas ainda essa ainda é a forma dominante de organização no mundo, e até países autoritários como a Rússia de (Vladimir) Putin ainda sentem que têm que passar pelo ritual das eleições porque não têm uma forma alternativa de legitimidade para oferecer em substituição à democracia como forma de governo.

Então, nesse sentido, acredito que a democracia ainda é uma ideia muito poderosa e continua a ser a principal ideia para nos organizarmos politicamente hoje no mundo.”

Do filósofo, cientista político e economista Francis Fukuyama (1952), em entrevista à repórter Paula Molina, da BBC News Mundo, onde aborda também questões como o avanço da ultradireita e dos populismos, ambas presentes no seu novo livro, “Identidades: A Exigência de Dignidade e a Política do Ressentimento”. Fukuyama virou uma celebridade do mundo acadêmico ao publicar, em 1989, o artigo “O Fim da História”, transformado em livro três anos depois.

Filosofia essencial

No rastro das discussões em torno da estupidez oficial do momento – o esvaziamento das faculdades de Ciências Humanas, em especial de cursos como Filosofia e Sociologia, Mariana Felipe, do www.revistabula.com, listou 25 títulos essenciais para entender os motivos desse tipo de disciplina ser a base para a construção de qualquer outro conhecimento.

“A Paisagem Moral”, Sam Harris – 2010

O autor defende o abandono da religião em nome da ciência. Tese defendida também por nomes como Richard Dawkins e Christopher Hitchens.

“Problemas de Gênero”, Judith Butler – 1990

Crítica contundente a um dos principais fundamentos do movimento feminista: a identidade. Butler é considerada hoje uma das principais teóricas do feminismo.

“Crítica da Razão Cínica”, Peter Sloterdijk – 1983

Destrincha e recompõe o legado da filosofia ocidental de cunho racionalista e progressista. Provocador e perspicaz.

“Vigiar e Punir”, Michel Foucault – 1975

Estudo sobre a evolução da legislação penal e dos métodos coercitivos e punitivos adotados pelo poder público na repressão à delinquência.

“História da Filosofia Ocidental”, Bertrand Russel – 1969

Obra monumental de um dos maiores pensadores dos séculos XIX e XX, reflete sobre a filosofia dos pré-socráticos aos dias atuais.

“A Sociedade do Espetáculo”, Guy Debord – 1967

Análise impiedosa da invasão de todos os aspectos do cotidiano pelo capitalismo moderno.

“A Condição Humana”, Hannah Arendt – 1958

Uma das filósofas mais influentes do século XX pondera sobre como e porque foi possível o surgimento do totalitarismo.

“O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir – 1949

Procura compreender de que maneira a mulher ocupou a posição de segundo sexo em diferentes sociedades, como ela se coloca no mundo e como contribui para essa configuração social.

“O Ser e o Nada”, Jean-Paul Sartre – 1943

Prodigioso sistema de “explicação total do mundo” por meio de um exame detalhado da realidade humana como ela se manifesta, estudando o abstrato concretamente.

“O Mito de Sísifo”, Albert Camus – 1942

Ensaio clássico sobre o absurdo e o suicídio, publicado durante a Segunda Guerra Mundial.

“Ser e Tempo”, Martin Heidegger – 1927

Livro fundamental para quem pretende conhecer e entender o ser humano de forma integral.

“Sobre a Liberdade”, John Stuart Mill – 1859

Defesa da individualidade e da autonomia diante da sociedade e do Estado.

“Ou-ou: Um Fragmento de Vida”, Kierkegaard – 1843

Obra ímpar da literatura e da filosofia ocidentais, desenvolve conceitos sobre o estético e o ético, o ético e o religioso, desespero e esperança.

“O Mundo como Vontade e Representação”, Arthur Schopenhauer – 1819

Obra fundamental do autor, escrita em estilo claro, elegante e contundente, abrange temas que vão da epistemologia à ética.

-“Fenomenologia do Espírito”, Georg W. Friedrich Hegel – 1807

Obra inicia tentativa do autor de construir um Sistema de Filosofia, com a Fenomenologia do Espírito, onde a fenomenologia desempenha a função de ser uma introdução à Ciência.

-“Reivindicação dos Direitos da Mulher”, Mary Wollstonecraft -1792

Considerado um dos documentos fundadores do feminismo, o livro denuncia a exclusão das mulheres do acesso a direitos básicos no século 18. Mary é mãe de Mary Shelley, autora de “Frankenstein” (1818).

“Crítica da Razão Pura”, Immanuel Kant – 1781

Para o autor, considerado o último grande filósofo dos princípios da era moderna, a razão desdobra-se em contradições, mas apenas aparentes.

-“Investigação Sobre os Princípios da Moral”, David Hume – 1751

Mostra que uma investigação deve proceder de fatos observados sobre o comportamento humano, deixando de lado quaisquer esquemas puramente hipotéticos e idealizados acerca da “real natureza” do homem.

-“Discurso do Método”, René Descartes – 1637

Penso, logo existo: tal proposição resume o espírito de René Descartes, sábio francês cuja obra inaugurou a filosofia moderna.

-“Os Ensaios”, Michel de Montaigne – 1595

Considerado o inventor do gênero ensaio, foi alfabetizado em latim e prefeito de Bordeaux. Na obra, temas como o medo, a covardia, a preparação para a morte, a educação dos filhos, a embriaguez, a ociosidade.

-“O Príncipe”, Nicolau Maquiavel -1532

Em 26 capítulos, o autor elenca os tipos de principado existentes e as diferenças entre cada um deles. Ainda hoje, é considerado um guia sobre como chegar ao poder e mantê-lo.

-“Cartas a Lucílio”, Sêneca – 1494

Consideradas a grande obra-prima do filósofo latino, apresentam uma síntese dos princípios de sabedoria, virtude e liberdade que o pensador perseguiu em vida.

-“Confissões”, Agostinho de Hipona – 398 d.C.

Pela densidade poética e pela originalidade da escrita, representam um marco único na história da literatura ocidental. O autor é considerado o mais importante teólogo dos primeiros séculos do cristianismo.

-“A República”, Platão – 308 a.C.

Exposição das ideias políticas, filosóficas, estéticas e jurídicas de um dos pilares da filosofia ocidental.

-“A Ética a Nicômaco”, Aristóteles

Na obra o autor expõe sua concepção teleológica de racionalidade prática, sua ideia de virtude como moderação e suas considerações acerca do papel do hábito e da prudência.