Ainda sobre a intolerância

SE A INTOLERÂNCIA PODE SER DE DIREITO NATURAL E DE DIREITO HUMANO

Direito natural é aquele que a natureza indica a todos os homens. Você cria um filho, ele lhe deve respeito na qualidade de seu pai e reconhecimento na qualidade de seu benfeitor. Você tem direito aos produtos da terra que cultivou com suas próprias mãos. Você fez ou recebeu uma promessa; ela deve ser cumprida.

O direito humano não pode ser fundamentado em nenhum caso senão sobre esse direito da natureza; e o grande princípio, o princípio universal de um e de outro, é o mesmo em toda a terra: “Não faças aos outros o que não queres que te façam”. Ora, não se percebe como, segundo esse princípio, um homem pode dizer a outro: “Crê no que eu creio e não no que não podes crer; caso contrário, morrerás”. É isso que se diz em Portugal, na Espanha ou em Goa. Atualmente, em alguns outros países, prefere-se dizer: “Crê, ou te odiarei; crê, ou te farei todo o mal que estiver a meu alcance; monstro, se não tens minha religião, então não tens religião nenhuma; terás de ser um motivo de horror para teus vizinhos, tua cidade e tua província”.

Se fosse o direito humano que nos levasse a nos conduzirmos dessa maneira, seria necessário que os japoneses detestassem os chineses, que, por sua vez, execrariam os siameses; estes perseguiriam os habitantes do Ganges, que se lançariam contra os moradores do Indo; um mongol arrancaria o coração do primeiro malabar que encontrasse; os malabares poderiam matar os persas, que poderiam massacrar os turcos; e todos juntos se lançariam contra os cristãos, se bem que estes vêm de fato devorando uns aos outros há muito tempo.

O direito da intolerância é, portanto, absurado e bárbaro; é o direito dos tigres, sendo bem mais horrível também, porque os tigres dilaceram suas presas para comer, enquanto nós exterminamos por causa de alguns parágrafos.

Capítulo VI do “Tratado sobre a Tolerância”, de Voltaire, em edição da L&PM, de 2011.

Fica a dica

Foto: Companhia das Letras

Trecho de entrevista recente da escritora e filósofa Djamila Ribeiro à BBC Brasil onde analisa o comportamento do brasileiro perante o racismo.

“É importantíssimo a gente refletir, parar de naturalizar aqui no Brasil esses assassinatos de jovens negros — a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. E o quanto a gente precisa pensar esses desafios aqui dentro do nosso país, sobretudo num momento de muita repressão aos movimentos sociais, num momento de corte de políticas públicas para populações negras.

Acho extremamente importante o que acontece nos Estados Unidos, mas chamo atenção para que as pessoas tenham mais consciência sobre o que se passa aqui no Brasil, na nossa realidade, que as pessoas negras historicamente vêm denunciando mas que infelizmente as pessoas parece que não enxergam quão grave é esse problema ético que temos no país, de assassinato de pessoas negras.”

Arendt para entender os tempos atuais

O periódico espanhol El País publicou recentemente matéria abordando o boom editorial envolvendo os livros da filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975), que refletiu em sua extensa produção literária sobre temas que seguem preocupando a humanidade: o perigo das emoções na política, a confusão entre fatos e opiniões, a crise da cultura e totalitarismo.

Abaixo, obras assinadas por Arendt que auxiliam a interpretar o que nos acontece no século XXI. Matéria completa pelo link https://brasil.elpais.com/babelia/2020-05-31/hannah-arendt-continua-pensando.html.

-“Eichmann em Jerusalém”

-“Origens do Totalitarismo”

-“A Condição Humana”

-“A Vida do Espírito”

-“Da Revolução”

-“Entre o Passado e o Futuro. Oito Exercícios Sobre a Reflexão Política”

-“Compreender: formação, exílio e totalitarismo; ensaios (1930-1954)”

-“Crises da República”

-“Tiempos Presentes”

-“Homens em Tempos Sombrios”

-“Diário Filosófico”

-“Poemas”

Sobre opiniões divergentes

The EyeDate – 1932/35, do belga René Magritte

“São talvez as vantagens de nosso tempo que trazem consigo um retrocesso e uma ocasional subestimação da vita contemplativa. […] Como falta tempo para pensar e tranquilidade no pensar, as pessos não mais ponderam as opiniões divergentes: contentam-se em odiá-las. Com o enorme aceleramento da vida, o espírito e o olhar se acostumam a ver e julgar parcial ou erradamente, e cada qual semelha o viajante que conhece terras e povos pela janela do trem.”

Nietzsche (1878)