Para lembrar de Auschwitz

Prestes a completar 75 anos da libertação de Auschwitz-Birkenau, em 27 de janeiro de 1945 – também Dia Mundial da Lembrança do Holocausto, matéria do El País comenta algumas das principais obras que abordam o horror vivido no campo de extermínio nazista localizado no Sul da Polônia. A enorme produção literária e histórica que rendeu milhares de títulos nos mais variados idiomas, segundo a matéria, pode ser dividida em três categorias principais. “A primeira, a fundamental, os relatos dos que estiveram lá, entre os quais se contam algumas obras-primas, como as de (Eli) Wiesel, Primo Levi e Imre Kertész”. Nessa categoria, a matéria inclui ainda a HQ “Maus”, de Art Spiegelman, obra ganhadora do Pulitzer que narra a vida do pai do autor, um sobrevivente do campo, e “O Diário de Anne Frank”, que permitiu compreender o terror vivido pelos judeus europeus fora dos campos.

Na segunda categoria estariam os ensaios que reconstroem o funcionamento de Auschwitz por meio de depoimentos de sobreviventes, de algozes e de documentos. Por fim comenta a categoria dos romances, entre os quais são citados “O Menino de Pijama Listrado”, de John Boyne, “O Tatuador de Auschwitz”, de Heather Morris, “A Bibliotecária de Auschwitz”, de Antonio Iturbe e “A Escolha de Sofia”, de William Styron.

Abaixo, trechos de três clássicos da literatura mundial sobre o Holocausto citados na matéria do El País.

“Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último rastro de civismo tinha desaparecido ao redor de nós e dentro de nós. É homem quem mata, é homem quem comete ou sofre injustiças; não é homem quem, perdido todo recato, divide cama com um cadáver; quem esperou que seu vizinho terminasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem culpa, mais longe do homem pensante que o sádico mais atroz”. (Primo Levi, “É Isto um Homem?”)

“Nosso primeiro gesto como homens livres foi nos lançarmos sobre as provisões. Não pensávamos em outra coisa. Nem na vingança, nem em nossos pais. Só em pão.” (Elie Wiesel, “Noite”)

“Ao final daquele dia senti, pela primeira vez, que algo havia se degradado no meu interior, e a partir daquele dia todas as manhãs eu me levantava com o pensamento de que aquela seria a última manhã em que me levantaria”. (Imre Kertész, “Sem Destino”)

O atroz pacto de Hollywood com os nazistas

A dica vem de artigo de Inácio Araújo, na Ilustrada, da Folha de SP, e retoma o debate em torno da intensa e escandalosa colaboração entre grandes estúdios de cinema e a Alemanha de Hitler, segundo maior mercado para a indústria americana, num momento em que já se sabia da morte de 2 milhões de judeus pelos nazistas. Lançado pela Leya, “O Pacto entre Hollywood e o Nazismo” foi escrito pelo pesquisador Ben Urwand, que, segundo a Folha, produziu “um livro fartamente documentado não apenas sobre o funcionamento dos estúdios de cinema como, sobretudo, a forma como a ganância afeta o juízo de homens em outras circunstâncias notáveis, mas capazes de se desinteressar, por dinheiro, da sorte de milhões de seres humanos”.

Uma questão científica

Yuval Noah Harari comenta os impactos da subordinação da ciência à política ao responder pergunta sobre a série “Chernobyl”, da HBO, em entrevista recente à revista Trip.

“…narra um caso clássico do que acontece quando cientistas estão subordinados a políticos. Os políticos na União Soviética não quiseram admitir que houve um acidente e que milhões de pessoas estavam correndo perigo, nem assumir a responsabilidade por isso. E foi um desastre. Porque os cientistas não tinham a independência de falar para a população que esse era um acidente nuclear e que dezenas de milhões de pessoas estavam correndo perigo devido à radiação. Por isso é tão importante que os cientistas sejam independentes. Eles não deveriam ser encarregados de estabelecer políticas. Esse é o território de políticos eleitos pelas pessoas. Mas as políticas deveriam refletir os fatos. As mudanças climáticas são um exemplo clássico. Não cabe aos políticos, nem aos eleitores, decidir se elas são reais ou não. É uma questão científica. Já o que fazer em relação a essa questão é uma decisão política. Vamos criar um imposto de carbono? Estabelecer um acordo global? Vamos decidir não fazer nada? Ok, em 20, 40 anos vai ser difícil, mas se as pessoas votarem por isso tudo bem, faz parte da democracia. Mas elas deveriam votar conhecendo os fatos, e não negando-os.”

O Rio dos anos 20

Antecedendo Sérgio Augusto com seu “Vai Começar a Sessão”, previsto para lançamento no próximo dia 18, outro veterano do jornalismo e da literatura nacional já está com novo título disponível nas prateleiras. Biógrafo consagrado de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, Ruy Castro acaba de lançar “Metrópole à beira-mar: O Rio Moderno dos Anos 20”. O livro recém-lançado pela Companhia das Letras, segundo nota da editora, faz “uma saborosa reconstituição histórica dos anos loucos cariocas, entrelaçando eventos políticos e culturais à trajetória dos personagens que fizeram e mudaram a história”. Gente como Adalgisa Nery, Adhemar Gonzaga, Bidu Sayão, Carmen Miranda, Di Cavalcanti, Ismael Nery, Lima Barreto, Murilo Mendes, Oswaldo Goeldi, Pixinguinha e Villa-Lobos.

Um assunto que não acabou

Obra de Jean-Baptiste Debret

Trecho de entrevista do escritor Laurentino Gomes, autor de “Escravidão”, lançado recentemente pela Globo Livros, ao jornal El País. Matéria completa no link https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/19/politica/1574203693_074968.html.

“Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão. Primeiro por uma razão estatística: o Brasil foi o maior território escravista da América, com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso dá 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. Foi o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, e o último a acabar com a própria escravidão, em 1888. O Brasil foi construído por escravos, em todos os ciclos econômicos, passando pelo açúcar, ouro, diamante, café. A escravidão não é um assunto acabado, tema de museu ou livro de história. Ela está presente na realidade brasileira. Os abolicionistas do século XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas abolições. A primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei Áurea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como cidadãos, dando terra, emprego, educação, e isso o Brasil jamais fez. O país abandonou sua população afrodescedente à própria sorte.”