Livro de Câmara Cascudo inspira série da Amazon

Uma obra de cerca de 900 páginas, assinada por Luís da Câmara Cascudo, é a base da recém-lançada “História da Alimentação no Brasil”, série que estreou na Amazon Prime e, que segundo matéria na Folha de SP, resgata uma das obras mais importantes sobre o tema no país. São 13 episódios com direção de Eugenio Puppo sustentados por 73 entrevistas feitas em nove estados do país e 11 cidades de Portugal. Professor de Direito na Universidade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Cascudo sempre investigou a alimentação popular e é autor de cerca de 230 títulos, entre eles o célebre “Dicionário do Folclore Brasileiro”.  Segundo a matéria, uma segunda temporada da série já está prevista para lançamento no início de 2022.

Ontem e hoje

Virgem no Portão de Varvarsky: beijos de fiéis em busca de proteção transformaram ícone no mais mortífero centro de contágio da peste bubônica em Moscou

Não é de agora que as pandemias aterrorizam a humanidade. Do tétano à meningite, passando pelo tifo, varíola e a gripe espanhola, milhares de pessoas vêm sendo abatidos ao longo do tempo planeta afora diretamente pelas doenças ou indiretamente pelos desgovernos de suas lideranças no enfrentamento a elas. Mudam-se os vírus, as bactérias, os reis e os presidentes, mas o pêndulo da história continua se movimentando. Abaixo, trecho da biografia de “Catarina – A Grande”, de Robert K. Massie, lançada aqui pela Rocco. No Século XVIII, entre uma guerra com a Polônia e mais uma com a Turquia, um outro inimigo espreitava a imperatriz e o povo russo: a peste bubônica.

“A peste era uma ameaça perene nas fronteiras ao Sul com a Turquia ocidental. Acreditava-se que ocorria apena em climas quentes. A relação com pulgas e ratos era desconhecida. A defesa tradicional era o isolamento, desde a quarentena de indivíduos portadores até cordões de isolamento feitos por tropas vedando regiões inteiras.

Em março de 1770, a peste apareceu nas tropas russas que ocupavam a província balcânica turca de Valáquia. Em setembro, chegou a Kiev, na Ucrânia. O frio do outono retardou o avanço da doença, mas já havia refugiados indo para o Norte. Em meados de janeiro de 1771, o susto tinha passado, mas com o primeiro degelo da primavera os moscovitas começaram a apresentar as manchas escuras e as glândulas inchadas características da peste. Cento e sessenta operários morreram numa única semana numa fábrica têxtil da cidade. Em 17 de março, Catarina decretou medidas de quarentena de emergência em Moscou. Foram suspensos todos os bailes, representações teatrais e todas as grandes aglomerações públicas. Uma súbita queda da temperatura no fim de março provocou uma redução abrupta da taxa de mortalidade. Catarina e as autoridades municipais diminuíram as restrições. Ao fim de junho, porém, a peste ressurgiu. Em agosto devastava a cidade. Soldados que removiam corpos nas ruas caíam doentes e morriam. O chefe do departamento médico de Moscou solicitou licença médica de um mês para tratar da doença. Em 5 de setembro, Catarina foi informada de que o número de mortes diárias estava entre trezentos e quatrocentos; corpos largados enchiam as ruas, a rede de pontos de inspeção em torno da cidade estava inoperante, e o povo estava passando fome porque não havia entrega de suprimentos. Homens, mulheres e crianças doentes eram orientados a dar entrada nos centros de quarentena.

A imposição de precauções médicas resultou em tumulto. Na população aterrorizada de Moscou, muitos passaram a crer que os médicos e seus remédios é que tinham trazido a peste à cidade. Recusavam-se a obedecer às proibições de se reunir nos mercados e nas igrejas, e de beijar ícone supostamente milagrosos na esperança de ter proteção. Pelo contrário, se reuniam em torno desses ícones em busca de consolo e salvação. Uma famosa imagem da Virgem no Portão de Varvarsky era um verdadeiro imã. Dia após dia, uma multidão de doentes se amontoava aos seus pés. Ela se tornou o mais mortífero centro de contágio em Moscou.

(…)

Catarina viu que Moscou e sua população estavam fugindo ao controle. Os nobres tinham deixado a cidade, seguindo para suas propriedades rurais. As fábricas e as oficinas estavam fechadas. Os operários, os servos e os camponeses urbanos, morando amontoados em casas de madeira cheias de ratos e infestadas de pulgas transmissoras da peste, foram deixados ao deus-dará. No fim de setembro, a imperatriz recebeu uma mensagem do governador de Moscou, o general Pedro Saltykov, de 72 anos, dizendo que o número de mortes passava de oitocentas por dia, e ele não sabia o que fazer. A situação estava totalmente fora de controle e ele pedia autorização para sair da cidade até a chegada do inverno.”

A arrogância da ignorância

Foto: Harvard/Divulgação

Em entrevista recente à BBC News Brasil, o professor de História e de Estudos Africanos e Afro-americanos na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Sidney Chalhoub, faz uma análise sobre a responsabilidade de governos e possíveis legados positivos da pandemia da Covid-19. Chalboub é autor, entre outros livros, de “Cidade Febril: Cortiços e Epidemias na Corte Imperial”, em descreve como doenças infecciosas mudaram o Brasil na virada do século 19 para o 20, “Trabalho, Lar e Botequim”, sobre a vida nas classes baixas cariocas, e de “Visões da Liberdade”, sobre as últimas décadas de escravidão na cidade.

Abaixo trecho da entrevista com o comentário de Chalhoub sobre a possibilidade de a pandemia nos deixar legados positivos. Entrevista completa pelo link: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52250448.

“Acho que sim. Por mais que tenhamos passado os últimos anos governados pelas fake news, nessa hora todo mundo espera a salvação pela ciência.

Espero que a epidemia ajude a desautorizar políticos levianos que têm governado várias partes do mundo com a arrogância da ignorância. Essa arrogância está agora sendo desmascarada por fatos trágicos.

No Brasil, a figura do presidente, que é uma caricatura disso, mostra como a ignorância é impotente contra a tragédia.

Não há solução fora de uma vacina, ou da descoberta de medicamentos eficazes, ou de seguir recomendações sanitárias que diminuam o estrago imediato.

Isso mudou em relação às epidemias dos séculos 19 e início do 20. Hoje há uma medicalização muito maior da sociedade e o entendimento da eficácia da medicina científica.

O que torna essa pandemia mais assustadora é que ela é uma metáfora perfeita da globalização. Ela segue a trilha das mercadorias e da circulação de pessoas de maneira tão radical e tão incontrolável quanto a ideologia neoliberal imaginava que a economia poderia ser.

Sempre houve uma relação direta entre a circulação de mercadorias e a de vírus e bactérias. A cólera e a febre amarela só viraram pandemias no século 19 quando os navios ficaram mais rápidos e quando começou a ter estrada de ferro.

Só que a pandemia atual é ainda mais rápida. Esse neoliberalismo agressivo que tomou conta das políticas econômicas internacionais criou outro problema, porque essas políticas diminuíram o Estado, e, de repente, os países se veem despreparados para lidar com uma crise aguda de saúde pública.

É por isso que ela também ataca o imaginário de forma tão radical. Ela coloca em questão todo um meio de vida e de pensar a economia nas últimas décadas, o Estado mínimo e a naturalização das desigualdades.

Para lembrar de Auschwitz

Prestes a completar 75 anos da libertação de Auschwitz-Birkenau, em 27 de janeiro de 1945 – também Dia Mundial da Lembrança do Holocausto, matéria do El País comenta algumas das principais obras que abordam o horror vivido no campo de extermínio nazista localizado no Sul da Polônia. A enorme produção literária e histórica que rendeu milhares de títulos nos mais variados idiomas, segundo a matéria, pode ser dividida em três categorias principais. “A primeira, a fundamental, os relatos dos que estiveram lá, entre os quais se contam algumas obras-primas, como as de (Eli) Wiesel, Primo Levi e Imre Kertész”. Nessa categoria, a matéria inclui ainda a HQ “Maus”, de Art Spiegelman, obra ganhadora do Pulitzer que narra a vida do pai do autor, um sobrevivente do campo, e “O Diário de Anne Frank”, que permitiu compreender o terror vivido pelos judeus europeus fora dos campos.

Na segunda categoria estariam os ensaios que reconstroem o funcionamento de Auschwitz por meio de depoimentos de sobreviventes, de algozes e de documentos. Por fim comenta a categoria dos romances, entre os quais são citados “O Menino de Pijama Listrado”, de John Boyne, “O Tatuador de Auschwitz”, de Heather Morris, “A Bibliotecária de Auschwitz”, de Antonio Iturbe e “A Escolha de Sofia”, de William Styron.

Abaixo, trechos de três clássicos da literatura mundial sobre o Holocausto citados na matéria do El País.

“Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último rastro de civismo tinha desaparecido ao redor de nós e dentro de nós. É homem quem mata, é homem quem comete ou sofre injustiças; não é homem quem, perdido todo recato, divide cama com um cadáver; quem esperou que seu vizinho terminasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem culpa, mais longe do homem pensante que o sádico mais atroz”. (Primo Levi, “É Isto um Homem?”)

“Nosso primeiro gesto como homens livres foi nos lançarmos sobre as provisões. Não pensávamos em outra coisa. Nem na vingança, nem em nossos pais. Só em pão.” (Elie Wiesel, “Noite”)

“Ao final daquele dia senti, pela primeira vez, que algo havia se degradado no meu interior, e a partir daquele dia todas as manhãs eu me levantava com o pensamento de que aquela seria a última manhã em que me levantaria”. (Imre Kertész, “Sem Destino”)

O atroz pacto de Hollywood com os nazistas

A dica vem de artigo de Inácio Araújo, na Ilustrada, da Folha de SP, e retoma o debate em torno da intensa e escandalosa colaboração entre grandes estúdios de cinema e a Alemanha de Hitler, segundo maior mercado para a indústria americana, num momento em que já se sabia da morte de 2 milhões de judeus pelos nazistas. Lançado pela Leya, “O Pacto entre Hollywood e o Nazismo” foi escrito pelo pesquisador Ben Urwand, que, segundo a Folha, produziu “um livro fartamente documentado não apenas sobre o funcionamento dos estúdios de cinema como, sobretudo, a forma como a ganância afeta o juízo de homens em outras circunstâncias notáveis, mas capazes de se desinteressar, por dinheiro, da sorte de milhões de seres humanos”.