Viagem com o Braga

Fazenda de café em Barra do Piraí. Foto: Portal Vale do Café

Fim de Semana na Fazenda

São fazendas dos fins do século passado, não mais. Seus donos ainda estão lá; já não se balançam, é verdade, nas cadeiras austríacas da varanda; nem ouvem a partida desse bando de maritacas que se muda para o morro do outro lado da várzea.

Ou talvez ouçam, quem sabe. Mas estão hirtos dentro de suas molduras, nas paredes da sala. Assim, rígidos, pintados a óleo, eles parecem reprovar nossos uísques e nossas conversas. Mas eis que Mário Cabral toca a Corta-Jaca no velho piano de cauda, e creio que eles gostam, talvez achem uma interessante novidade musical vinda da Corte. Mário ataca uma velha música francesa – Solitude – e creio bem que vi, ou senti, a senhora viscondessa suspirar de leve.

Ah, senhora viscondessa! Que solidão irremediável não sentis dentro de vossas grossas molduras douradas. Olhais para a frente, dura, firme. Lá fora as mangueiras e jabuticabeiras estão floridas, na pompa da manhã. Um beija-flor azul corta o retângulo da janela no seu vôo elétrico e se imobiliza no ar, zunindo; insetos zumbem; a menina da casa passa no cavalo em pêlo, a galope. Onde está vosso belo silhão? Onde está o senhor visconde?

Ele está em outra parede, também duro, de uniforme e espada, e seu casaco militar tem um pendão de penas de tucano. Não olha a esposa. Os dois não se olham. Alguma intriga? Não. Apenas eles estão cansados de estar pintados, cansados de estar mortos, cansados de estar emoldurados e pendurados – e tão cansados e enfadados que há mais de sessenta anos não chupam uma só jabuticaba, sequer.

Se eu dissesse que cantava, mentiria. Não cantava. Estava quieto; demorou-se algum tempo, depois partiu.

Mas eu presto meu depoimento perante a História. Eu vi. Era um sabiá, e pousou no alto da palmeira. “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.” Não cantou. Ouviu o canto de outro sabiá que cantava longe, e partiu.

Era um sabiá-laranjeira, de peito cor de ferrugem; pousou numa palmeira cheia de cachos de coquinhos, perto da varanda. Ouviu um canto distante, que vinha talvez dos pés de mulungu. Sabeis, naturalmente: é agosto e os mulungus estão floridos, estão em pura flor, cada um é uma grande chama cor de tijolo. Foi de lá que veio um canto saudoso, e meu sabiá-laranjeira partiu.

Mas ele estava pousado na palmeira. Descansa em paz nas ondas do mar, meu velho Antônio Gonçalves Dias; dorme no seio azul de Iemanjá, Antônio. Ainda há sabiás nas palmeiras, ainda há esperança no Brasil.

Vamos pela estrada, e de vez em quando divisamos a sede de uma fazenda. Esses fazendeiros das margens do Rio Preto e do Paraibuna era todos barões, pelo menos. E tanto mais fidalgos quanto maiores suas senzalas e seus terreiros de café. Diante das casas plantavam palmeiras imperiais.

As enxurradas arrastaram o húmus de seus cafezais, abriram voçorocas; os negros libertos viraram erosão social e as casas imensas ficaram mal-assombradas. Restaram os morros de pasto, hoje pintalgados de vacas holandesas. Dentro das capoeiras altas os pés de café velho se escondem, como árvores nativas; viraram mato. Agora, de vez em quando, um bisneto derruba o mato, planta café novo, com mão-de-obra cara e difícil. Revejo com alegria essa eterna paisagem de minha infância, os morros penteados de cafezais, entre rios tortos. Mas as novas gerações não aprenderam nada e não esqueceram nada. Os cafeeiros continuam a ser plantados morro acima, sem obedecer à curva de nível, sem nenhuam defesa contra as águas precípites dos temporais estrondosos de verão. O penoso trabalho de meio século da natureza vai ser outra vez desperdiçado; voltamos a plantar decadência.

Ah, no lugar de palmeiras imperiais refaçam suas aléias com palmeiras finas e líricas de palmitos. Assim pelo menos os seus netos cortarão as palmeiras e comerão os palmitos, antes de partir definitivamente para um emprego em qualquer iapeteque.

Mas ainda há cercas vivas de bambu, no lombo dos morros. Ainda há céu; ainda acontecem nuvens de leite nas amplas tardes morenas. E os rios, talvez mais magros, continuam a rolar entre pedras sob os ramos pensativos das ingazeiras pardas e verdes. E nos beirais continua a haver andorinhas.

Passo a tarde à toa, à toa como o poeta, vendo andorinhas. Amo seu azul metálico, a elegância aguda de suas asas em vôo, seu chalrear álacre dos mergulhos enviesados, quando caçam insetos. Onde vivia a andorinha, no tempo que não havia casas? Ela é amiga da casa do homem. Arquiteto, meu amigo arquiteto, nenhuma casa é funcional se não tiver lugar para a andorinha fazer seu ninho.

Mas é na casa da fazenda que a andorinha está à vontade. Melhor do que nessas casas imensas dos coronéis e dos velhos barões, elas só se dão mesmo nas grandes casas de Deus, as velhas igrejas escuras e úmidas que elas povoam de vida e de inquietação. Nenhuma outra ave do céu é mais católica.

É noite na fazenda; e a lua nasce, atrás do morro. Fico sozinho na varanda assistindo com uma vaga, irracional emoção, a esse antigo mistério. Luar, amar… Seria preciso amar alguém, talvez aquela sinhá tão moça e tão antiga, cujo retrato está no salão de jogos. A mesma que aparece aos quarenta e cinco anos, ainda bela, no quadro ao lado. Essa já viveu na República. Ouvi contar suas histórias. Era mesmo linda, e foi feliz; o marido a adorava.

Ah, se eu fosse daquele tempo ela não seria minha, a bela sinhá. Ela seria a moça fazendeira e eu seria um colono pobre e feio, sempre meio barbudo e calado.

Penso de repente essa coisa triste, triste, e deixo a varanda, abandono a lua, regresso ao governo Kubitschek.

Estado do Rio, setembro, 1957

Do livro “Ai de Ti, Copacabana”, de Rubem Braga, em edição da Record.

As múltiplas versões de Riobaldo e Diadorim

Diadorim e Riobaldo em ilustração publicada na Revista Galileu

“Grande Sertão: Veredas” segue firme inspirando novas produções culturais. O clássico de Guimarães Rosa, lançado em 1956, já foi adaptado para o cinema, inspirou de peças de teatro à exposições fotográficas e uma série de TV que marcou época, com Tony Ramos e Bruna Lombardi nos papéis dos protagonistas da história. Entre as novidades da nova safra vem aí a volta da montagem da diretora teatral Bia Lessa, que deve ser encenada entre os dias 17 e 19 de abril em apresentações ao ar livre no Instituto Inhotim, em MG; em maio devem começar, no Rio de Janeiro, as filmagens da versão contemporânea da história pelo diretor Guel Arraes e na mesma época, a expectativa é que o longa de Bia Lessa, derivado da montagem teatral esteja na fase de lançamento comercial. Chamado “Travessia”, o filme é uma versão em 2h5min da montagem de quase três horas nos palcos. O recém-indicado ao Oscar por “Dois Papas”, Fernando Meirelles, também já manifestou interesse em filmar o clássico de Guimarães.

Morre Affonso Arinos

Morreu na manhã do domingo (15), aos 89 anos, o escritor, diplomata, jornalista e político Affonso Arinos de Mello Franco. Nascido em Belo Horizonte, o intelectual, imortal da Academia Brasileira de Letras eleito em julho de 1999, faleceu em sua casa no Rio de Janeiro de causa não informada pela família.

Abaixo, alguns títulos do autor, conforme bibliografia da ABL.

-“Tramonto”2013

“Tempestade no Altiplano (Diário de um Embaixador)” – 1998

“Introdução a Brasil – Holandês / Dutch – Brazil” – 1995

“Atrás do Espelho (Cartas de Meus Pais)” – 1994

“Três Faces da Liberdade” – 1988

“Primo Canto (Memórias da Mocidade)” – 1976

A poesia breve de Alice Ruiz ganha novo título

A partir do próximo dia 16 chega às lojas o novo livro de Alice Ruiz, dessa vez em parceria com o também poeta e ensaísta paulistano Rodolfo Witzig Guttilla. “Amorhumorumor: Haikai & Senryu” é um conjunto de poemas breves que resgata as formas japonesas clássicas construídas por três versos. A edição é da Companhia das Letras e o livro já está em pré-venda na Amazon.

136 anos da morte de Bernardo Guimarães

Primeiro capítulo da novela exibida pela TV Globo a partir de outubro de 1976

Há 136 anos morria o jornalista, professor, poeta e romancista Bernardo Guimarães. Nascido em Ouro Preto, mesma cidade onde faleceu aos 59 anos, foi autor de um dos maiores sucessos editoriais do país: “A Escrava Isaura”. Lançado em 1875, em plena campanha abolicionista, o livro conta a desventuras de uma escrava branca e educada, de caráter nobre, que é vítima de um senhor cruel e devasso, e ganhou imensa popularidade já no seu lançamento. Foi adaptada para uma telenovela pela Rede Globo em 1976 e tornou-se uma das produções televisivas brasileiras de maior sucesso mundial, transmitida em mais de 80 países.

Abaixo a bibliografia do autor, conforme a Academia Brasileira de Letras.

-“Cantos da Solidão”, 1852

-“Poesias”, 1865

-“O Ermitão de Muquém”, 1868

-“Lendas e Romances”, 1871

-“O Garimpeiro”, 1872

-“Histórias da Província de Minas Gerais”, 1872

-“O Seminarista”, 1872

-“O Índio Afonso”, 1873

-“A Morte de Gonçalves Dias”, 1873

-“A Escrava Isaura”, 1875

-“Novas Poesias”, 1876

-“Maurício ou os Paulistas em São João Del-Rei”, 1877

-“A Ilha Maldita”, 1879

-“O Pão de Ouro”, 1879

-“Rosaura, a Enjeitada”, 1883

-“Folhas de Outono”, 1883

-“O Bandido do Rio das Mortes”, 1904