O dezembro de Clarice


Clarice na formatura do curso ginasial do colégio Sílvio Leite, em 1936. Foto: claricelispectorims.com.br.

Dezembro marca as duas principais datas da biografia de ClariceLispector. São 98 anos do nascimento da escritora, em Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10/12/1920, e 41 anos de seu falecimento em 9/12/1977, no Rio de Janeiro. Clarice chegou ao nordeste do Brasil em 1922 com a família de emigrantes vindos de uma aldeia então pertencente à Rússia e que fugia dos impactos da Revolução Bolchevique de 1917.  Seu romance de estreia, “Perto do Coração Selvagem”, é publicado em 1943 pela A Noite Editora.

Um dia antes de completar 57 anos e já consagrada nacionalmente, morre, em decorrência de um câncer de ovário. Hoje, seus livros podem ser encontrados em mais de 30 idiomas – do hebraico ao turco e coreano, e a importância de sua obra é colocada no mesmo patamar de nomes como VirginiaWoolf, James Joyce e Katherine Mansfield.

BIBLIOGRAFIA

“Perto do Coração Selvagem” – 1943

Romance de estreia que, nas palavras do poeta Jorge de Lima,em artigo publicado em 1944 no jornal A Gazeta de Notícias “deslocou o centro de gravitação em que girava o romance brasileiro”.

“O Lustre” – 1946

Escrito quando a autora vivia na Europa, resgata características já anunciadas no primeiro romance como o enredo sem estrutura definida e fluxo de consciência, que valoriza as sensações e a percepção das coisas.

“A Cidade Sitiada” – 1948

Enredo narrado em terceira pessoa, linear, em doze capítulosde frases curtas seguindo os passeios da protagonista pelas ruas da cidade e pela vida “para se exibir e confirmar o que as coisas são em sua aparência”.

“Laços de Família” – 1960

Reunião de 13 contos, alguns publicados anteriormente na imprensa, o livro garantiu à escritora o Prêmio Jabuti de livro do ano de 1961.

“A Maça no Escuro” – 1961

Também narrada em terceira pessoa, a história gira em torno de Martim, que, em fuga por um crime supostamente cometido por ele, oscila entre o medo e o desejo de liberdade.

“A Paixão Segundo G. H.” – 1964

Em operação meticulosa da escrita que, conforme o site da escritora no IMS, “extrai o máximo de rendimento de um enredo banal”, Clarice realiza o que para muitos será o seu maior empreendimento literário.

“A Legião Estrangeira” – 1964

Traz contos entre os quais o enigmático ‘O Ovo e a Galinha’, lido no I Congresso Mundial de Bruxaria, realizado em Bogotá em 1975 e que tinha Clarice entre os convidados.

“O Mistério do Coelho Pensante” – 1967

Primeira obra destinada ao público infantil, foi escrita nos anos 50 sem propósito inicial de publicação.

“A Mulher que Matou os Peixes” – 1968

Também dedicado ao público infanto-juvenil, é povoado por histórias de bichos numa ficção desordenada onde ganham espaço reflexões, comentários e digressões.

“Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” – 1969

Romance onde a experimentação revela que a vida é uma permanente transformação e que ela se dá dentro e não fora da linguagem.

“Felicidade Clandestina” – 1971

Contos breves e com perspectiva memorialista.

-“Água Viva” – 1973

Híbrido de romance, poesia, diário e ensaio filosófico, radicaliza processos inovadores de escrita.

“A Via Crucis do Corpo” – 1974

Contos que recorrem ao grotesco e ao humor com diálogos rápidos e frases curtas para tratar de temas como aborto e estupro.

“Onde Estivestes de Noite” – 1974

Reúne crônicas, contos e produções ficcionais que fogem às classificações tradicionais. Explor “dimensões pulsionais, áreas limítrofes como delírio e o mágico, a androginia e as camadas íntimas do ser”.

“A Vida Íntima de Laura” – 1974

Terceira obra dedicada ao público infanto-juvenil.

“A Hora da Estrela” – 1977

Obra mais popular da escritora, especialmente a partir de sua adaptação para o cinema, realizada por Susana Amaral, em 1985 em filme aclamado pela crítica e reconhecido em diversos prêmios nacionais e internacionais.

“Um Sopro de Vida” – 1978

Publicado postumamente, é resultado de três anos de escrita desenvolvida simultaneamente à seu outro livro ‘A Hora da Estrela’.

“Quase de Verdade” – 1978

Propõe questões simples e complexas e torna deslizantes osconceitos de real e ficção, de mentira e verdade.

“Para não Esquecer” – 1978

Reunião de 108 textos entre contos, crônicas, aforismos eaté pequenas piadas.

“A Bela e a Fera” – 1979

Livro póstumo de contos, reúne seis escritos do período de1940-41 e dois de 1977, ambos falando de escolhas, sentido da vida, solidão econdição feminina.

“A Descoberta do Mundo” – 1984

Reunião de 468 crônicas publicadas originalmente na coluna semanal que a escritora mantinha no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973.

Sesc reedita tesouro de Mário de Andrade

Índios Pankaruru, de Pernambuco, etnia visitada por missão chefiada por Mário de Andrade, em foto da Fundação Joaquim Nabuco.

Há oitenta anos, o escritor e, naquele momento, chefe do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Mário de Andrade, liderou uma expedição que percorreu os rincões de diversos estados brasileiros para registrar manifestações culturais espontâneas das comunidades desses lugares.

O resultado desse trabalho desenvolvido por uma equipe muldisciplinar ficou registrado em 21 cadernetas, 14 filmes curtos, cerca de 1.200 fonogramas, 33 horas de gravação, 856 objetos e 600 fotografias. Um tesouro que, conforme matéria recente da Folha de SP, foi colocado ao alcance do público em 2006 na forma de CDs e livro e que rapidamente se esgotou.

O material será novamente disponibilizado por meio de uma parceria do Sesc com o Centro Cultural São Paulo (CCSP). Segundo informou o Sesc na reportagem, o lançamento estava inicialmente previsto para este ano, para marcar os 80 anos da missão, mas acabou ficando para 2019.

Para redescobrir Lima

Pouco comentado nos dias de hoje, o poeta alagoano Jorge de Lima (1893-1953) deve ganhar novos públicos a reboque do récem-lançado “O Grande Circo Místico”, do cineasta Cacá Diegues. O filme, exibido recentemente no Festival de Cannes, é uma adaptação do poema homônimo, parte do livro A Túnica Inconsútil, de 1938.

Abaixo romances e obras poéticas de Lima e um trecho do poema “Essa negra Fulô”.  

Essa negra fulô

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

(…)

POESIA

-“XIV Alexandrinos” – 1914

“O Mundo do Menino Impossível” – 1925

-“Poemas” – 1927

-“Novos Poemas” – 1929

-“O Acendedor de Lampiões” -1929

-“Tempo e Eternidade” – 1935

-“A Túnica Inconsútil” – 1938

-“Anunciação e Encontro de Mira-Celi” – 1943

-“Poemas Negros” – 1947

-“Livro de Sonetos” – 1949

-“Obra Poética” – 1950

-“Invenção de Orfeu” – 1952

-“Antologia Poética” – 1962

ROMANCES

-“O Anjo” – 1943

-“Calunga” – 1935

-“A Mulher Obscura” – 1939

-“Guerra Dentro do Beco” – 1950

Amado eterno

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Jorge e Zélia Gattai em foto do Wall Street International Magazine

Novidade nas prateleiras. Escrito pela jornalista Joselia Aguiar após sete anos de pesquisa, “Jorge Amado – Uma Biografia” sai pela Todavia e já tem eventos de lançamento agendados em Salvador (27/11) e São Paulo (13/12). São 640 páginas dedicadas à vida e obra do mais bem sucedido escritor brasileiro, morto em 2001, com  sua obra traduzida para cerca de 50 idiomas e imortalizado por obras como  “O País do Carnaval”, seu romance de estreia lançado em 1931, “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1966) e “Tieta do Agreste” (1977).