Top ten do Nelson

Abaixo seleção de “máximas” (algumas atualíssimas) do teatrólogo, contista, romancista, jornalista, cronista e genial frasista Nelson Rodrigues, nascido há 107 anos, no dia 23 de agosto de 1912, na cidade do Recife, e falecido em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, no Rio de Janeiro.

“Amar é dar razão a quem não tem”

“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”

“Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo”

“Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra”

“O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade”

“O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca”

“O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe”

“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”

Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos

“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”

Comentados no “Aliás”

Quatro lançamentos abordados em artigos do “Aliás”, do jornal O Estado de SP, do último final de semana. Dois sobre a formação de bibliotecas ao longo dos séculos, outros dois sobre a solidão e a nova edição de um clássico da literatura brasileira, de 1895 e considerado o primeiro romance gay do país.

“História das Bibliotecas: de Alexandria às Bibliotecas Virtuais”, Frédéric Barbier – Edusp

“A Biblioteca: uma História Mundial”, James W.P. Campbell e Will Pryce – Edições Sesc

“História da Solidão e dos Solitários”, George Minois – Unesp

“Bom Crioulo”, Adolfo Caminha – Todavia

Drummond eterno

Paisagem de Ouro Preto, de Alberto da Veiga Guignard

Hoje, 17/8, completam-se 32 anos da morte do poeta, escritor, cronista e jornalista, Carlos Drummond de Andrade. Nascido em Itabira (MG) em 31 de outubro de 1902, escreveu seu último poema, “Elegia a um Tucano Morto” em 31 de janeiro de 1987. No dia 5 de agosto, depois de meses de internação, morre, vítima de câncer, sua filha Maria Julieta. Doze dias depois, Drummond falece, aos 84 anos, em decorrência de problemas cardíacos. É enterrado junto com a filha no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Abaixo poema do livro “As Impurezas do Branco”, de 1973.

CANTO MINERAL

Minas Gerais

Minerais

minas de Minas

demais,

de menos?

minas exploradas

no duplo, no múltiplo

sem-sentido

minas esgotadas

a suor e ais,

minas de mil

e uma noites presas

do fisco, do fausto,

da farra; do fim.

Minas de três séculos

mal digeridos

ainda minando

mineralgias míticas.

O ouro desfalece:

Minas na mira

Do erário real.

O diamante esmaece

Minas na surdina

da seresta exausta.

O ferro empalidece:

Minas na ruína

de simplórios donos

de roças mal lavradas.

Minas orgulhosa

de tanta riqueza,

endividada

de tanta grandeza

no baú delida.

Cada um de nós, rei

na sua fazenda,

cada pé de milho

erguia o pendão

de nossa realeza,

cada boi-de-coice

calcava o tesouro

da terra indefesa

negociada

com a maior fineza.

(Ai, que me arrependo

– me perdoa, Minas –

de ter vendido

na bacia das almas

meu lençol de hematita

ao louro da estranja

e de ter construído

filosoficamente

meu castelo urbano

sobre a jazida

de sonhos minérios.

Me arrependo e vendo.)

Minas, oi Minas,

tua estranha sina

delineada

ao bailar dos sinos

ao balir dos hinos

de festins políticos,

Minas mineiral

Minas musical

Minas pastorela

Minas Tiradentes

Minas liberal

Minas cidadela

Minas torturada

Minas surreal

Minas coronela

Minas tal e qual

a pedra-enigma

no labirinto da mina.

Do ferro líquido da forja

do Barão de Eschwege

resta a ficha histórica.

Do rude Cauê,

a TNT aplainado,

resta o postal

na gaveta saudosista,

enquanto milhares

milhafres

de vagões vorazes

levam para longe

a pedra azul guardada

para sua torre

para teu império

postergado sempre.

E as esmeraldas,

Minas que matavam

de esperança e febre

e nunca se achavam

eram verde engano?

Minas sub-reptícia

tarde defendida

de áureas cobiças

pelo astuto jogo

de pensar oculto,

do dizer ambíguo,

do nevoento pairar

de flocos de sigilo

no manifesto anil

sobre serranares.

Minas, nos ares,

Minas que te quero

Minas que te perco

e torno a ganhar-te

com seres metal

diluído em genes,

com seres aço

de minha couraça,

Minas que me feres

com pontiagudas

lascas de minério

e laminados de ironia,

vês?

No coração do manganês

pousa uma escritura

de hipoteca e usura

e o banco solerte

praticando a arte

do cifrão mais forte

Minas

Teimoso lume aceso

mesmo sob cinza,

Minas Acesita

Minas Usiminas

Minas Ipatinga

Minas felina

a custo ensaiando

o salto da serra

bem alto,

o romper de algemas

mais férreas que o ferro,

no rumo certeiro

do Intendente Câmara,

Minas que te miro

desprezando os prazos

de imemoriais atrasos,

de leve batendo à porta

da era espacial,

Minas tório urânio

Minas esperança

Minas detetando

o sinal

sob a tibieza dos homens

e o parangolé da retórica,

Minas mineiralmente

geral      Gerais

auriminas

turmaliniminas

diamantiniminas

muito abaixo da mais uterina

mina recôndita

luzindo

o cristalino

abafado

espírito de Minas.



Lição do Braga

Obra de Jacques Vartabedian/Saatchiart.com

Do nosso mais amado mestre-cronista, o capixaba Rubem Braga (1913-1990).

“Bilhete a um candidato”

“Olhe aqui, Rubem. Para ser eleito vereador, eu preciso de três mil votos. Só lá no Jockey, entre tratadores, jóqueis, empregados e sócios eu tenho, no mínimo mesmo, trezentos votos certos; vamos botar mais cem na Hípica, Bem, quatrocentos. Pessoal de meu clube, o Botafogo, calculando com o máximo de pessimismo, seiscentos. Aí já estão mil.

“Entre colegas de turma e de repartição contei, seguros, duzentos; vamos dizer, cem. Naquela fábrica da Gávea, você sabe, eu estou com tudo na mão, porque tenho apoio por baixo e por cima, inclusive dos comunas; pelo menos oitocentos votos certos, mas vamos dizer, quatrocentos. Já são mil e quinhentos.

“Em Vila Isabel minha sogra é uma potência, porque essas coisas de igreja e caridade tudo lá é com ela. Quer saber de uma coisa? Só na Vila eu já tenho a eleição garantida, mas vamos botar: quinhentos. Aí já estão, contando miseravelmente, mas mi-se-ra-vel-men-te, dois mil. Agora você calcule: Tuizinho no Méier, sabe que ele é médico dos pobres, é um sujeito que se quisesse entrar na política acabava senador só com o voto da zona norte; e é todo meu, batata, cem por cento, vai me dar pelo menos mil votos. Você veja, poxa, eu estou eleito sem contar mais nada, sem falar no pessoal do cais do porto, nem postalistas, nem professoras primárias, que só aí, só de professoras, vai ser um xuá, você sabe que minha mãe e minha tia são diretoras de grupo. Agora bote choferes, garçons, a turma do clube de xadrez e a colônia pernambucana como é que é!

“E o Centro Filatelista? Sabe quantos filatelistas tem só no Rio de Janeiro? Mais de quatro mil! E nesse setor não tem graça, o papai aqui está sozinho! É como diz o Gonçalves: sou o candidato do olho-de-boi!

“E fora disso, quanta coisa! Diretor de centro espírita, tenho dois. E o eleitorado independente? E não falei do meu bairro, poxa, não falei de Copacabana, você precisa ver como é lá em casa, o telefone não pára de tocar, todo mundo pedindo cédula, cédula, até sujeitos que eu não vejo há mais de dez anos. E a turma da Equitativa? O Fernandão garante que só lá tenho pelo menos trezentos votos. E o Resseguro, e o reduto do Goulart em Maria da Graça, o pessoal do fórum… Olhe, meu filho, estou convencido de que fiz uma grande besteira: eu devia ter saído era para deputado!”

Passei uma semana sem ver meu amigo candidato; no dia 30 de setembro, três dias antes das eleições, esbarrei com ele na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, todo vibrante, cercado de amigos; deu-me um abraço formidável e me apresentou ao pessoal: “este aqui é meu, de cabresto!”

Atulhou-me de cédulas.

Meu caro candidato:

Você deve ter notado que na 122ª seção da quinta zona, onde votei, você não teve nenhum voto. Palavra de honra que eu ia votar em você; levei uma cédula no bolso. Mas você estava tão garantido que preferi ajudar outro amigo com meu votinho. Foi o diabo. Tenho a impressão de que os outros eleitores pensaram a mesma coisa, e nessa marcha da apuração, se você chegar a trezentos votos ainda pode se consolar, que muitos outros terão muito menos do que isso. Aliás, quem também estava lá e votou logo depois de mim foi o Gonçalves dos selos.

Sabe uma coisa? Acho que esse negócio de voto secreto no fundo é uma indecência, só serve para ensinar o eleitor a mentir: a eleição é uma grande farsa, pois se o cidadão não pode assumir a responsabilidade de seu próprio voto, de sua opinião pessoal, que porcaria de República é esta?

Vou lhe dizer uma coisa com toda franqueza: foi melhor assim. Melhor para você. Essa nossa Câmara Municipal não era mesmo lugar para um sujeito decente como você. É superdesmoralizada. Pense um pouco e me dará razão. Seu, de cabresto, o Rubem.

Clássicos de Mário Palmério pela Autêntica

A boa dica veio do Aliás, do Estadão, que comenta em sua última edição dois clássicos de Mário Palmério (1916-1996), “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre”, reeditados este ano pela Autêntica depois de anos fora dos catálogos das editoras. Ao lado de nomes do calibre de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha, Palmério é considerado um dos grandes responsáveis por forjar o imaginário sertanejo do Brasil. Se distingue dos outros dois especialmente pela dimensão política do interior do país.

O livro “nos faz ver o som dos duelos, a espessura do medo e a cegueira política, romance absolutamente clássico, do melhor que já se fez em nossa literatura”. Da historiadora e escritora Mary Del Priore sobre “Vila dos Confins”.

Publicado em 1965, o romance, sempre aclamado pela crítica – “uma força estranha e impiedosa” – é reconhecido como um dos grandes momentos da literatura brasileira de todos os tempos. No site da editora sobre “Chapadão do Bugre”.