Para Pedro de Moraes

Ipanema Beach, Rene Burri, 1958 / Magnum

O Canto que te Quero Cantar, Pedro meu filho

Pedro, meu filho…

Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai — a insensatez de um co­ração constantemente apaixonado.

E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.

Da mesma forma que eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.

E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.

Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.

E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.

Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.

E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.

Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.

E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.

Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.

E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.

Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.

E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:

Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho…

De Vinicius de Moraes – “Para Viver um Grande Amor” / Editora do Autor – Rio de Janeiro – 1962. Publicada no correioims.com.br, do Instituto Moreira Salles.

O mar de Drummond

William Turner/National Gallery

O MAR, NO LIVING

O mar entra no living

mal a primeira tinta

do dia se define.

Passa pelo vidro

e em pouco submergem

pessoas e tapetes,

poltronas, gestos,

nomes,

quadros,

vozes.

O mar tudo recobre

sem nada asfixiar.

No côncavo marinho

o ir-e-vir espelha

a vida costumeira

de peixes adestrados

que observam a lei

de viventes em casa.

Ao meio-dia, o mar

instala-se por completo

nos metais e na pele

dos moradores.

Deixa esparso no ar

um tremor de prata

incendiada.

Pela tarde singramos

o mar e nos quedamos

na mesma onda imóvel

que na beira dos copos

junta ao álcool dourado

a amargura do sal

sem que sal se perceba.

Quando a noite descerra

as pétalas de sombra

sem recorte sonâmbulo

de lua sobre as águas,

e o sono deposita-se

em cada castiçal,

cinzeiro, campanhia

e dobra de cortina,

e os passos amortecem

no surdo corredor,

eis que o mar se retira

para si mesmo e longe,

ou nós é que emergimos

da espessura das águas

tornadas invísiveis.

O mar chega de volta,

mal a primeira tinta

se define, do dia,

e o living, baía,

com todo o mobiliário

e pessoas, imersos,

prossegue o balouçante

estar sozinho e verde,

verdisozinho imenso

em pura escuridão.

Carlos Drummond de Andrae, “As Impurezas do Branco”

Manual antirracista lidera vendas no país

Desde 25 de maio, quando um ex-segurança negro foi morto por um policial branco em Minneapolis, nos EUA, uma onda de protestos foi deflagrada em escala global e o tema racismo dominou os debates. Nesse cenário, livros sobre o assunto ganharam destaque no mercado editorial e um deles em especial, “Pequeno Manual Antirracista”, da filósofa e ativista Djamila Ribeiro, vem se destacando. Segundo o site Publishnews, nas últimas semanas o livro vem numa franca escalada de vendas no país. Já é o primeiro lugar no ranking de não-ficção e quinto lugar em vendas gerais. Segundo a editora Companhia das Letras, “Pequeno Manual…” reúne 11 capítulos curtos e contundentes onde a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas.

Viva Trevisan

Trevisan em foto do jornal Gazeta do Povo/PR

Considerado por muitos um dos três melhores contistas contemporâneos do Brasil – dois deles perdidos recentemente, Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Ana -, Dalton Trevisan completa hoje 95 anos. Autor de mais de 40 livros, estreou na literatura em 1959 com a coletânea de contos “Novelas Nada Exemplares”. Reconhecido com os principais prêmios literários da língua portuguesa, publicou seu último livro inédito, “O Beijo na Nuca”, em 2014. Seu maior sucesso, porém, foi a reunião de 15 contos publicada originalmente em 1965, “O Vampiro de Curitiba”.

Para celebrar os 95 anos do escritor curitibano, a Ilustríssima, da Folha de SP, publicou nesse final de semana matéria especial onde aborda a obra, o experimentalismo e a atual rotina de homem recluso do escritor. Matéria na íntegra, para assinantes, pelo link https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/06/contista-maior-dalton-trevisan-o-vampiro-de-curitiba-chega-aos-95.shtml.

Clássicos brasileiros

A lista, intitulada “Conheça 12 livros clássicos da literatura infantil brasileira” é de 2019 e foi publicada no site do UOL. Permanece sendo uma seleção de primeira qualidade de títulos imprescindíveis para leitores de todas as idades.  

“Pé de Pilão”, Mário Quintana

“História Meio ao Contrário”, Ana Maria Machado

“Reinações de Narizinho”, Monteiro Lobato

“História de Dois Amores”, Carlos Drummond de Andrade

“Flicts”, Ziraldo

“Chapeuzinho Amarelo”, Chico Buarque

“Quem Soltou o Pum?”, Blandina Franco

“A Bolsa Amarela”, Lygia Bojunga

“O Menino Azul”, Cecília Meireles

“Marcelo, Marmelo, Martelo”, Ruth Rocha

“O Meu Pé de Laranja Lima”, José Mauro de Vasconcelos

“A História dos Pingos”, Eliardo França e Mary França