Itaú Cultural premia inéditos em conto, poesia ou crônica

O Itaú Cultural está com inscrições abertas até o próximo dia 1 de março para o Concurso Cultural “Repertório de Utopias”. Serão aceitos textos inéditos nos formatos poesia, conto ou crônica em Word, com até 15 mil caracteres com espaços. Serão selecionados cinco trabalhos e os vencedores serão conhecidos em 9 de abril. A premiação prevê edição em coletânea no site do Itaú Cultural e pagamento pela publicação. Regulamento e formulário de inscrição no link: http://www.itaucultural.org.br/secoes/noticias/chamada-de-textos-antologia-repertorio-de-utopias.

Global anuncia nova edição de “Sagarana”

Para muitos o acontecimento literário do ano no país, a temporada de relançamento das obras de Guimarães Rosa ganha novo título a partir de março. Depois de “Grande Sertão, Veredas”, disponível a partir do dia 25 próximo, pela Companhia das Letras, a Global Editora ficou com os direitos sobre os demais títulos e lança “Sagarana”. Na sequência devem sair “Primeiras Estórias”, os infantis “Zoo” e “Fita Verde no Cabelo” e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”.

Notícias de Millôr para Otto

Millôr Fernandes em foto do acervo do IMS
Otto Lara Resende em foto do acervo do IMS

Carta do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista carioca Millôr Fernandes (1923-2012) para o também escritor e jornalista, mineiro de São João del-Rei, Otto Lara Resende (1922-1992), quando este era adido cultural na embaixada brasileira em Portugal. A carta faz parte do arquivo de Otto sob guarda do Instituto Moreira Salles (IMS).

Rio [de Janeiro], 16 de dezembro de 1967

Otto, meu caro, a situação que você me descreve é calamitosa: eu sou popular em Portugal! Você vê que não tem jeito, não; a gente acaba tendo o castigo que merece. Eu, por exemplo, que me venho furtando à popularidade (não por virtude, mas por timidez que, pouco a pouco, vai-se tornando doentia), acabo de receber um golpe. Essa do Vão Gôgo Boite*, então, é inacreditável – eu tinha ouvido falar, mas pensava que era brincadeira. Contudo, não importa. Isto é, já não importa. Tava tudo errado mesmo, Otto, mas quando eu fui apanhar a borracha era tarde. Alguém me disse, com malícia, que você era quem chovia aqui no Rio e levou as chuvas daqui aí pra Lisboa. Mas logo a pessoa teve que engolir o que disse, inclusive a parte líquida, porque aqui o dilúvio se tornou constante neste início de verão. Sol, quase nenhum. Tempo baço, sem ânimo, nada dos verões doutrora.

Que esta te encontre, porém, no mais sadio dos mais humores. Pois essa, sei, é tua fonte de brilho literário e de alegria de viver. Os portugueses já te entenderam?

Aqui a turma em geral vai bem. Vejo-os pouco, ou nada, mas sei deles. Fernando [Sabino], agora, anda de avião para baixo e para cima, vendendo a si próprio e aos amigos na Editora do Autor (Sabiá). Vai acabar numa figueira, o judas, assessorado pelo Rubem Braga. Noutro dia vi os dois fazendo a féria de uma noite de autógrafos, a qual dava exatamente 3300 dólares. (Veja a atualização, não só no tipo da moeda, como no valor fiduciário, dos 33 dinheiros). Rubem, entre um gole e outro, rosna lá de cima do seu terraço uma maldição bíblica. Paulinho [Mendes Campos] erudita na Manchete. E Hélio [Pellegrino] inflama. Quando há uma nesga de sol, as garotas passam na rua e nos amarguram a todos. A mais simples garota nos amargura a todos, com uma simples não olhada. (Vira. Você não, o papel!) Vou parar aqui, já que o papel acabou. Um dia destes te escrevo mais e te digo mais. Só posso te dizer (repetir) a minha velha história do homem (otimista) que se atirou do décimo andar e, ao passar pelo oitavo, murmurou: “Bom, até aqui, tudo bem!” Pois não tinha razão? Boa luz, ar fresco, boa paisagem, ainda faltavam oito andares, pra que se aborrecer e amargurar antecipadamente?

E quando ele foi passando pelo primeiro andar e o chão foi se aproximando, de novo ele refletiu: “Bem, se não me aconteceu nada nesses nove andares, não é nesse pedacinho que falta que eu vou me machucar”.

Enfim, meu caro Otto, há que ser otimista, nem que seja à porrada. Beijos às crianças, sobretudo as do sexo feminino, e aí por volta dos 18 anos de idade. Que Portugal te dê o que você merece, isto é, carinho e bons tratos gerais, ou de nada vale esse país. Dê meu grande abraço à Helena, minha mineira preferida. Que eu possa vê-lo dentro em breve.

Do velho amigo,

Millôr

*Casa noturna em Lisboa que tinha como nome a personagem criada por Millôr na revista A Cigarra, em 1939.

Celebrando Carolina

Carolina Maria de Jesus em foto da revista Cult

Tempo de celebrar Carolina Maria de Jesus. A escritora, mineira da cidade de Sacramento e autora traduzida em mais de 20 idiomas, especialmente pelo autobiográfico “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, morreu há 41 anos, em São Paulo, depois de conhecer a fama e o anonimato.

Neta de escravos e filha de lavadeira, Carolina nasceu em 14 de março de 1914 e só frequentou a escola pela intervenção de uma freguesa da mãe. Em 1930 vai com a família para Franca, onde trabalha como lavradora e empregada doméstica. Com 23 anos perde a mãe e muda-se para a capital paulista. Lá, trabalha como catadora de papel e lê tudo que recolhe nas ruas. Em 1941 tem um poema, em homenagem a Getúlio Vargas, publicado pela Folha da Manhã. O jornal continua publicando regularmente poemas da autora , que ganha cada vez mais admiradores.

Em 1958 é encontrada, por acaso, pelo jornalista Audálio Dantas, da mesma Folha da Manhã, na favela do Canindé. Carolina mostra seu diário ao repórter, que encantado com a história publica parte do texto no jornal. No mesmo ano, a revista O Cruzeiro também publica trechos do diário. Dois anos depois sai o livro “Quarto de Despejo”, com tiragem de 10 mil exemplares.

Com o sucesso das vendas, Carolina deixa a favela e já em 1961 sua fama alcança a Argentina, onde é agraciada com a “Orden Caballero Del Tornillo”. Nos anos seguintes publica três outras obras – “Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada” (1961), “Pedaços da Fome” (1963) e “Provérbios” (1965).

Em 1969 a escritora muda-se com os três filhos para o bairro de Parelheiros, em São Paulo, e, esquecida pelo mercado editorial, morre em 13 de fevereiro de 77, com 62 anos, vítima de insuficiência respiratória.

Novo livro de Ruffato, “O Verão Tardio” chega em abril

Notícia da coluna do Lauro Jardim, em O Globo de domingo passado, informa que o mineiro Luiz Ruffato (1961) lança título novo em abril próximo. É “O Verão Tardio”, narrativa que “acompanha Oséias, que depois de mais de 20 anos decide regressar a Cataguases, sua terra natal. No esforço de aproximar-se dos irmãos, sob a sombra do suicídio da quarta irmã, aos 15 anos, ele percebe que todos estão isolados em seus respectivos mundos.”

O romance sai pela Companhia das Letras, que já publicou também:

“Estive em Lisboa e Lembrei de Você” – 2009

“Eles Eram Muitos Cavalos” – 2013

“Flores Artificiais” – 2014

“De Mim Já Nem Se Lembra” – 2016

“Inferno Provisório” – 2016

“A Cidade Dorme” – 2018