Grande Sertão comentado

Abaixo podcast da editora com três entrevistas sobre “Grande Sertão: Veredas”, obra de Guimarães Rosa que acaba de ganhar nova edição da Companhia das Letras. Abrindo a programação, o crítico, escritor e professor Silviano Santiago. Na sequência, o doutor em literatura brasileira e pesquisador da obra de Rosa, Érico Melo, e a diretora Bia Lessa.

Conforme o blog da Companhia, o livro de Rosa, publicado originalmente em 1956, “revolucionou o cânone brasileiro e segue despertando o interesse de renovadas gerações de leitores. Ao atribuir ao sertão mineiro sua dimensão universal, a obra é um mergulho profundo na alma humana, capaz de retratar o amor, o sofrimento, a força, a violência e a alegria”.

Dia de Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos e o escritor Antônio Maria. Foto do acervo do Instituto Moreira Salles

Dia de reverenciar o cronista, poeta, jornalista e tradutor Paulo Mendes Campos, nascido há 97 anos, em Belo Horizonte. Campos faleceu no Rio de Janeiro aos 69 anos e além de cronista de destaque, se notabilizou também pela tradução de obras de nomes como Júlio Verne, Oscar Wilde, Jane Austen, Shakespeare, Yeats, Dickens, Flaubert, Maupassant, Neruda, Verlaine, Eliot, Joyce e William Blake.

Onde Proust morreu e onde o Braga viveu

Dois Escritores no Quarto Andar

A última crônica de meu livro Um Pé de Milho é sobre a Rue Hamelin, de Paris, “onde morreu Proust”, faço notar doutamente, e onde vivi eu. Ao escrever aquela crônica eu ouvira cantar o galo, mas não sabia onde. Digo ali que “onde Proust morreu vive hoje um sindicato”. Era o que eu pensava na ocasião.

Eu vivia no quarto andar do número 44 e no segundo habitava meu amigo, o escritor gaúcho dom Carlos de Reverbel. Juntos fomos procurar o tal número onde morreu Proust e demos com o tal sindicato. Mas acontece que procurávamos um número errado. O verdadeiro – descobrimos depois – era o nosso 44 mesmo…

Não quero fazer pouco de dom Carlos de Reverbel, mas eu sou um proustiano mais íntimo do que ele. É verdade que meus inimigos assoalham que eu jamais li, no duro mesmo, todos aqueles volumes, embora, em conversa de salão eu seja capaz de discretear sobre Swan, descrever Combray ou Balbec, falar de Albertina ou da senhora duquesa de Guermantes. “O Braga tem suas lantejoulas, mas não sabe as coisas” – murmuram os invejosos.

Pois que se mordam de inveja: Proust morreu exatamente no apartamento do quarto andar, de número 44, onde eu vivi. Dom Carlos morava, eu já disse, no segundo; pode alegar a seu favor que várias vezes foi ao quarto me visitar, o que o classifica, sem dúvida alguma, como o segundo proustiano do Brasil.

Leon Pierre-Quint conta que Marcel Proust alugou todo o quarto andar do edifício que então devia ser novo; ali morreu em 1922, ano em que pela primeira vez eu vinha ao Rio de Janeiro, vestido de marinheiro do Encouraçado S. Paulo, trazido pela minha irmã para ver a Exposição do Centenário. Eu tinha 9 anos de idade, nunca ouvira falar de Proust e estava longe de supor que 25 anos depois iria dormir na cama em que ele morria aquele ano. Mais pobre do que Marcel, aluguei apena o grande quarto de frente com uma entradinha e um banheiro, o que me custava 6 mil francos em 1947; não era caro, levando-se em conta que nesse tempo eu era casado.

Conta Leon Pierre-Quint que Proust escolheu um quarto muito frio (não diz qual) temendo que a calefação central fizesse mal à sua asma. Não posso afirmar, mas devia ser o meu quarto; era friíssimo. Imagino quantas vezes ele não se quedou, como eu, a olha a rua lá embaixo, pela vidraça encardida, a esfregar as mãos de frio. Ah, bem que me parecia suspeita aquela velha cama, bem que notei certos estremecimentos nas cortinas e pressenti, no tapete desbotado, o rasto de antigos pés que o pisaram em noites de insônia, e vagas nódoas de remédio. Posso informar com a maior segurança que, pelo menos nos últimos anos de sua vida, Proust não tomava banho de chuveiro. Não havia chuveiro na casa. Encontrei uma banheira com mancha de sujos imemoriáveis ; mandei lavá-la, esfregá-la, flambá-la com álcool, mas nem assim me animei a tomar banho nela; preferi comprar um chuveirinho de borracha que adaptamos à pia. Eu não podia adivinhar que era a banheira de Proust…

Às vezes, pela madrugada – conta o biógrafo – Proust despachava Odilon em um táxi para procurar algum amigo que viesse conversar com ele. Imagino-o perfeitamente à espera, escutando o ruído agônico do pequeno elevador que, no quarto andar, pára perigosamente entre dois degraus de escada, uma velha escada sempre às escuras em que os passos reboam absurdamente alto. O amigo o encontrava na cama, com um lenço no pescoço, todo vestido sob os cobertores, com luvas de algodão, vários pares de meias e o plastron branco sobre a camisa amarratada, no quarto fechado cheirando a remédios, a asma, a fumigações, a Proust. Eu positivamente ainda recolhi ali um pouco desse cheiro, dentro do qual foi escrito o último volume de Sodoma e Gomorra; homem bárbaro de um país semibárbaro, me lembro de que muitas vezes combati esse cheiro abrindo de par em par as portas que dão para a sacada e a que dá para o corredor, formando corrente de ar para grande pânico da arrumadeira. Ah, se eu soubesse aproveitar bem aquele cheiro, que coisas sutis não haveria escrito no lugar daquelas croniquinhas que eu mandava para O Globo!

Proust cochilava três dias à custa de veronal, depois ficava três dias desperto à custa de cafeína, falando de literatura, de pintura (esses jovens: Giraudoux, Picasso…), recitando Anatole ou Baudelaire, discutindo finanças e mundanismo, falando em mandar vir seus livros, seus móveis, suas coisas, o que nunca chegou a fazer.

Também tive minhas noites de insônia na Rue Hamelin; não terá ficado dentro de mim um pouco da angústia proustiana? Seria distintíssimo, mas receio que não; três copos de Beaujolois me punham facilmente em forma.

De qualquer modo, os jovens intelectuais que quiserem escrever sobre Proust devem me consultar para “fazer ambiente”. Posso, por exemplo, descrever o cubículo em que a concierge lá embaixo (uma velha, positivamente a mesma da era proustiana) está sempre fazendo contas, passando roupa a ferro ou espichando o nariz para ver quem entra, quando não atende ao telefone com sua voz chorosa:

Passy, soixante-et-un deux fois…

Tomem nota, rapazes: Passy 61-61; é o antigo telefone do Proust e do Braga…

Rio, maio, 1958

74 anos sem Mário

Mário por Tarsila do Amaral, em quadro de 1922

No dia 25 de fevereiro de 1945 morria, em São Paulo, vítima de um ataque cardíaco, o poeta, ensaista , crítico de arte e romancista Mário de Andrade. Nascido na capital paulista em 9 de outubro de 1893, foi um dos pioneiros do movimento modernista no Brasil e um expoente da Semana de Arte Moderna de 1922. É autor, entre outros clássicos, de Macunaíma.

Algumas obras do autor:

Há uma Gota de Sangue em Cada Poema – 1917

Pauliceia Desvairada – 1922

A Escrava que não é Isaura – 1925

Losango Cáqui – 1926

Primeiro Andar – 1926

Clã do Jabuti – 1927

-Amar, Verbo Intransitivo – 1927

-Macunaíma – 1928

Ensaio sobre a Música Brasileira – 1928

Compêndio da História da Música – 1929

Modinhas e Lundus Imperiais – 1930

Remate de Males – 1930

Música, Doce Música – 1933

Belazarte – 1934

O Aleijadinho – 1935

-Álvares de Azevedo – 1935

Namoros com a Medicina – 1939

Música do Brasil – 1941

Poesias -1941

O Baile das Quatro Artes – 1943

Aspectos da Literatura Brasileira – 1943

Os Filhos da Candinha – 1943

O Empalhador de Passarinhos – 1944

Lira Paulistana – 1946

O Carro da Miséria – 1946

C-Contos Novos – 1946

Padre Jesuíno de Monte Carmelo – 1946

Poesias Completas – 1955

Danças Dramáticas do Brasil – 1959

Música de Feitiçaria – 1963

O Banquete, Ensaio -1978

Itaú Cultural premia inéditos em conto, poesia ou crônica

O Itaú Cultural está com inscrições abertas até o próximo dia 1 de março para o Concurso Cultural “Repertório de Utopias”. Serão aceitos textos inéditos nos formatos poesia, conto ou crônica em Word, com até 15 mil caracteres com espaços. Serão selecionados cinco trabalhos e os vencedores serão conhecidos em 9 de abril. A premiação prevê edição em coletânea no site do Itaú Cultural e pagamento pela publicação. Regulamento e formulário de inscrição no link: http://www.itaucultural.org.br/secoes/noticias/chamada-de-textos-antologia-repertorio-de-utopias.