Calculadoras nas portas do inferno

Sai até o final deste mês, pela Tusquets, a edição em português de “L’ordre du jour”, do escritor e cineasta francês Érick Vuillard. “A Ordem do Dia” foi o vencedor de 2017 do Goncourt – o mais importante das letras francesas – e aborda os dias iniciais e a ascensão do nazismo na Alemanha dos Anos 30. O Ilustríssima, da Folha, traz na edição do final de semana um trecho da obra onde é relatada reunião de nomes como Adolf Hitler e Hermann Goering com 24 grandes empresários alemães em busca de apoio ao regime. Um acontecimento bastante banal, afinal, lembra o autor, “políticos e industriais costumam se frequentar”, que nesse caso, porém, acabou por se revelar um momento único na história patronal. O nazismo ganhava ali um apoio fundamental dos senhores Basf, Bayer, Agfa, Opel, Siemens, Allianz, Telefunken, Krupp e todo o clero da indústria alemã. Vinte e quatro empresários, impassíveis, “como vinte e quatro máquinas de calcular nas portas do Inferno”. Trecho completo (para assinantes) no link: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/07/empresarios-embarcam-no-nazismo-em-livro-frances-premiado-leia.shtml.

Cézanne e Zola

Já em cartaz no país “Cézanne e Eu”, filme dirigido por Danièle Thompson, estruturado a partir da troca de cartas entre o pintor pós-impressionista e o autor do clássico Germinal (1885), registrada no livro “Lettres Croisées” (Cartas Cruzadas). Publicada em 2016 pela editora francesa Gallimard, a obra traz a correspondência mantida entre os dois mestres, de 1858 a 1887, somando 115 cartas.

A França de hoje e os livros

Em matéria publicada pelo Estadão, o jornalista Gilles Lapouge comenta o crescimento exponencial de lançamentos e a qualidade “angustiante” dos livros escritos pelos franceses atualmente. Segundo ele, em 1990, foram publicados na França 32 mil novos títulos. Em 2000, 59 mil; em 2010, 79,3 mil e de 2010 em diante, mais de 120 mil títulos. A qualidade do que se publica, no entanto, pode ser balizada pela taxa de rejeição de manuscritos pela mais consagrada editora do país, a Gallimard. Na Gallimard, segundo Lapouge, apenas um manuscrito em cada cem é publicado. O mercado, ainda conforme sua análise, segue aquecido pela indulgência dos editores com os autores, pela enxurrada de prêmios literários concedidos diariamente no país e pelo reinado dos best-sellers, que, se aplicadas as técnicas adequadas, facilmente alcançam vendas de 500 mil ou 1 milhão de exemplares vendidos. Matéria completa, para assinantes, no link https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,quantos-livros-por-ano-na-franca,70002880459.

Vida privada

“Stairway”, de Edward Hopper, de 1949. Do acervo do Whitney Museum of American Art

“É preciso fazer como os animais, que apagam seu rastro na porta da toca.”

“Il faut faire comme les animaux, qui effacent la trace à la porte de leur tainière.

Citação lembrada por Erich Auerbach na Introdução de “Ensaios”, de Michel de Montaigne (1533-1592), em edição da coleção Clássicos, da Penguin/Companhia das Letras.

Inconstância

“The False Mirror”, de René Magritte

“Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em consequência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras, é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal, avarento, pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim mesmo um juízo completo, simples, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra.”

Do jurista, filósofo, político e precursor do gênero Ensaio, Michel de Montaigne (1533-1592).