Clássico do existencialismo de volta pela Nova Fronteira

Marco inaugural do existencialismo, “A Náusea”, do francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), está de volta em nova e caprichada edição da Nova Fronteira. Lançada em 1938, a obra tem como protagonista Antoine Roquentin, intelectual pequeno-burguês, símbolo de uma geração que descobre, horrorizada, a ausência de sentido da vida. Sartre venceu (e recusou) o Nobel de 1964.

“aprendi que se perde sempre. Só os salafrários pensam que ganham.”

Trecho de “A Náusea”.

Notre Dame e o Quasimodo

Acima foto do ator Anthony Hopkins interpretando o Quasimodo. A imagem foi publicada pela BBC em matéria sobre o incêndio que destruiu parcialmente a Catedral de Notre Dame no último dia 15 e seu personagem símbolo. O corcunda de Notre Dame foi eternizado pelo escritor Victor Hugo em “Nossa Senhora de Paris”, publicado em 1831, e nas sucessivas versões da história adaptada para o cinema e televisão.

Abaixo, imagem do interior da catedral pós-incêndio em foto publicada pelo Wall Street Journal.

32 anos sem Jean Genet

Foto: Edition-Originale.com

Hoje completam-se 32 anos da morte de um dos mais polêmicos escritores franceses do Século XX, Jean Genet (1910-1986). Abandonado pela mãe aos sete meses, o autor foi adotado por uma família da zona rural da Borgonha, abandonada por ele na juventude, quando passou por reformatórios e prisões. Aos 18 anos ingressou na Legião Estrangeira Francesa, de onde foi expulso após ser flagrado fazendo sexo com outro homem.

Escreveu romances e peças mais tarde consagradas mundialmente como “O Balcão”, “Os Negros”, “Os Biombos”, “Nossa Senhora das Flores”, “Querelle” e o livro de memórias “Diário de um Ladrão”. Sua vida marcada por escândalos não o impediu de ganhar a admiração e a amizade de nomes como Jean Cocteau, Jean Paul Sartre, Jacques Derrida e Michel Foucault.

A partir dos anos 70, ganhou fama também como ativista em causas como a dos palestinos e dos imigrantes na França.

Fez também, em 1950, um notável curta-metragem “Un Chant d’Amour”, já citado pelo cineasta Neville D’Almeida (“A Dama do Lotação”, “Os Sete Gatinhos”, “Rio Babilônia”) como o melhor (e com maior grau de liberdade) filme já visto por ele.

Uma badalada biografia do escritor francês, assinada pelo professor da universidade de Princeton, Edmund White, “Genet – Uma Biografia” está disponível por aqui em edição da Record.

O poema mais popular do Século XIX

Publicado, sem título, em 1833, pelo poeta e dramaturgo francês
Alexis-Félix Arvers (1806-1850), o Soneto de Arvers foi traduzido no mundo inteiro, inspirou livros e peças de teatro e, para muitos, é o mais belo soneto do Século XIX.

Abaixo a tradução de Guilherme de Almeida, o original em francês e a tradução de Longfellow para o inglês, ambas publicadas pela revistaprosaversoearte.com.

Soneto de Arvers

Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a pois escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento,
e chegarei ao fim da existência esquecida
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.

E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá lendo estes versos, com certeza:
“Que mulher será esta? ” e não compreenderá.

“Mon âme a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour eternal en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai du le taire,
et celle qui l’a fait n’ena jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses cotes et toujours solitaire;
et j’aurai jusqu’au fait mon temps sur la terre
n’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

à l’austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle,
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas”.

Do livro “Mes heures perdues”.

Tradução de Henry Wadsworth Longfellow

My soul its secret has, my life too has its mystery,
A love eternal in a moment’s space conceived;
Hopeless the evil is, I have not told its history,
And the one who was the cause nor knew it nor believed.

Alas! I shall have passed close by her unperceived,
Forever at her side, and yet forever lonely,
I shall unto the end have made life’s journey, only
Daring to ask for naught, and having naught received.

For her, though God has made her gentle and endearing,
She will go on her way distraught and without hearing
These murmurings of love that round her steps ascend.

Piously faithful still unto her austere duty,
She will say, when she shall read these lines full of her beauty,
“Who can this woman be?” and will not comprehend.  

Lição bíblica

Adão e Eva em desenho de 1504, do alemão Albrecht Dürer

E Deus expulsou Adão

E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou o primeiro rum na terra

E Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade os encurralava
mesmo assim continuaram cantando
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isósceles e sagrado
um biângulo isopicante brilhava
e eclipsava o outro.

Jacques Prévert (1900-1977) “Histoires” (1963)