O poema mais popular do Século XIX

Publicado, sem título, em 1833, pelo poeta e dramaturgo francês
Alexis-Félix Arvers (1806-1850), o Soneto de Arvers foi traduzido no mundo inteiro, inspirou livros e peças de teatro e, para muitos, é o mais belo soneto do Século XIX.

Abaixo a tradução de Guilherme de Almeida, o original em francês e a tradução de Longfellow para o inglês, ambas publicadas pela revistaprosaversoearte.com.

Soneto de Arvers

Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a pois escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento,
e chegarei ao fim da existência esquecida
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.

E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá lendo estes versos, com certeza:
“Que mulher será esta? ” e não compreenderá.

“Mon âme a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour eternal en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai du le taire,
et celle qui l’a fait n’ena jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses cotes et toujours solitaire;
et j’aurai jusqu’au fait mon temps sur la terre
n’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

à l’austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle,
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas”.

Do livro “Mes heures perdues”.

Tradução de Henry Wadsworth Longfellow

My soul its secret has, my life too has its mystery,
A love eternal in a moment’s space conceived;
Hopeless the evil is, I have not told its history,
And the one who was the cause nor knew it nor believed.

Alas! I shall have passed close by her unperceived,
Forever at her side, and yet forever lonely,
I shall unto the end have made life’s journey, only
Daring to ask for naught, and having naught received.

For her, though God has made her gentle and endearing,
She will go on her way distraught and without hearing
These murmurings of love that round her steps ascend.

Piously faithful still unto her austere duty,
She will say, when she shall read these lines full of her beauty,
“Who can this woman be?” and will not comprehend.  

Lição bíblica

Adão e Eva em desenho de 1504, do alemão Albrecht Dürer

E Deus expulsou Adão

E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou o primeiro rum na terra

E Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade os encurralava
mesmo assim continuaram cantando
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isósceles e sagrado
um biângulo isopicante brilhava
e eclipsava o outro.

Jacques Prévert (1900-1977) “Histoires” (1963)

Tudo muito natural

prevert la dépêche
Photo DR. Ladepeche.fr.

Do poeta francês Jacques Prévert, em tradução de Silviano Santiago:

FAMILIAR

A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele
[ luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra
Negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra
[ os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.

FAMILIALE

La mère fait du tricot
Le fils fait la guerre
Elle trouve ça tout naturel la mère
Et le père qu’est-ce qu’il fait le père?
Il fait des affaires
Sa femme fait du tricot
Son fils la guerre
Lui des affaires
Il trouve ça tout naturel le père
Et le fils et le fils
Qu’est-ce qu’il trouve le fils?
Il ne trouve rien absolument rien le fils
Le fils sa mère fait du tricot son père des
[ affaires lui la guerre
Quand il aura fini la guerre
Il fera des affaires avec son père
La guerre continue la mère continue elle
[ tricote
La père continue il fai des affaires
Le fils est tué il ne continue plus
La père et la mère vont au cimetière
Ils trouvent ça naturel le père et la mère
La vie continue la vie avec le tricot la guerre
[ des affaires
Les affaires la guerre le tricot la guerre
Les affaires les affaires et les affaires
La vie avec le cimitière.

O drama do jovem Edouard

O fim de eddy

Depois do livro de contos “O Sol na Cabeça”, do carioca Geovani Martins, outro jovem escritor, no caso de 25 anos, que chega ao mercado também celebrado pelo estilo de uma linguagem popular para abordar dramas cotidianos de cunho autobiográfico é o francês Edouard Louis, com seu “O Fim de Eddy”. O romance, que virou fenômeno de venda na França, já vendeu mais de 300 mil exemplares mundo afora e foi lançado aqui em edição da TusQuets. “Esse romance, sobre crescer em meio à pobreza e à homofobia na zona rural francesa, é leitura essencial.” assinalou o The Guardian. “Sagaz. Brilhante. Um vigor emocional devastador”, garante Garth Greenwell, da The New Yorket.

A representatividade em xeque

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Em entrevista recente à Daniela Fernandes, publicada no Eu&Fim de Semana, o filosófo francês Jacques Rancière (1940) comenta a “Democracia de Fachada” dos tempos atuais. Para o autor de “O Desentendimento”, lançado aqui pela Editora 34, os sistemas representativos, sejam parlamentaristas sejam presidencialistas, confiscam a soberania do povo e beneficiam apenas as elites. Para Rancière, não existe real vida democrática. Há apenas uma casta de políticos profissionais que se autorreproduz e cuida apenas dos seus interesses.