Um outro lado de Dickens

Imagem: greatestbritons.com

Uma face pouco lisonjeira de Dickens é comentada em matéria de Rafa de Miguel, de Londres, para o El País. O principal romancista da história da literatura inglesa foi também um marido cruel, que depois de 20 anos de casamento teria movido céus e terra na tentativa de internar a mulher, Catherine, em um manicômio para assim desfrutar com mais liberdade do seu romance com a atriz Ellen Ternan.

Segundo John Bowen, professor de Literatura da Universidade de York, entrevistado na matéria, traços sombrios da personalidade do escritor podem ser reconhecidos em personagens de clássicos como “Grandes Esperanças”. Para ele, “um romance cheio de culpa, de vergonha. Seu personagem principal (Pip) se sente incompreendido e é alguém que magoou muito gente”.

Matéria na íntegra no link: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/01/cultura/1551475506_900644.html.

Aprendendo com os gregos

Mythos

Lançamento da Editora Planeta para ficar no radar, “Mythos” é o novo livro do também ator, diretor, comediante, roteirista e apresentador de televisão britânico, Stephen Fry – fenômeno recente na internet brasileira em função de entrevista feita com o então candidato e hoje presidente eleito Jair Bolsonaro.

Artigo na Veja destaca que Fry “narrador culto e elegante, adiciona cores literárias sem corromper as fontes consagradas de um apanhado de episódios que se iniciam na tumultuada criação do cosmos, passam pela feroz Titanomaquia – guerra mitológica em que os deuses derrotaram seus antepassados titãs (entre eles, o cruel Cronos, que devorava a própria prole) – e culminam na vida do rei Midas, que transformava tudo o que tocava em ouro”.’

Para a Amazon, o livro é “um novo olhar – mais honesto e muito mais divertido – sobre heróis, deuses e titãs, nas palavras de um dos maiores atores britânicos da atualidade”.

O modernismo de Eliot

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O poeta modernista Thomas Stearns Eliot , Nobel de Literatura de 1948 e considerado um dos poetas mais influentes do século XX, em foto do Huffington Post

A Terra Desolada

T. S. Eliot

Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro.

Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo.

Disse-me ele, Maria, Maria, agarra-te firme.

E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

 

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

Ao mar

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David Dark . Illustration

Para saudar a chegada do novo mês, o trecho inicial de “Moby Dick”, de Herman Melville.

MIRAGEM

Chamai-me Ismael. Há alguns anos – quantos precisamente não vem ao caso – tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorrou-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. É a minha maneira de dispersar o spleen e de regular a circulação do sangue. Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parado involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam…então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é meu substituto  para a pistola e a bala. Com alarde filosófico Catão se arremessou sobre a sua espada; quanto a mim, embarco tranquilamente. Não há nisso nada de surpreendente. Se a maioria dos homens o soubesse, fosse qual fosse a sua categoria social, compartilharia comigo, numa época ou noutra, os sentimentos que o oceano me inspira.