Aprendendo com os gregos

Mythos

Lançamento da Editora Planeta para ficar no radar, “Mythos” é o novo livro do também ator, diretor, comediante, roteirista e apresentador de televisão britânico, Stephen Fry – fenômeno recente na internet brasileira em função de entrevista feita com o então candidato e hoje presidente eleito Jair Bolsonaro.

Artigo na Veja destaca que Fry “narrador culto e elegante, adiciona cores literárias sem corromper as fontes consagradas de um apanhado de episódios que se iniciam na tumultuada criação do cosmos, passam pela feroz Titanomaquia – guerra mitológica em que os deuses derrotaram seus antepassados titãs (entre eles, o cruel Cronos, que devorava a própria prole) – e culminam na vida do rei Midas, que transformava tudo o que tocava em ouro”.’

Para a Amazon, o livro é “um novo olhar – mais honesto e muito mais divertido – sobre heróis, deuses e titãs, nas palavras de um dos maiores atores britânicos da atualidade”.

O modernismo de Eliot

Undated and unlocated picture of American British-
O poeta modernista Thomas Stearns Eliot , Nobel de Literatura de 1948 e considerado um dos poetas mais influentes do século XX, em foto do Huffington Post

A Terra Desolada

T. S. Eliot

Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro.

Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo.

Disse-me ele, Maria, Maria, agarra-te firme.

E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

 

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

Ao mar

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David Dark . Illustration

Para saudar a chegada do novo mês, o trecho inicial de “Moby Dick”, de Herman Melville.

MIRAGEM

Chamai-me Ismael. Há alguns anos – quantos precisamente não vem ao caso – tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorrou-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. É a minha maneira de dispersar o spleen e de regular a circulação do sangue. Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parado involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam…então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é meu substituto  para a pistola e a bala. Com alarde filosófico Catão se arremessou sobre a sua espada; quanto a mim, embarco tranquilamente. Não há nisso nada de surpreendente. Se a maioria dos homens o soubesse, fosse qual fosse a sua categoria social, compartilharia comigo, numa época ou noutra, os sentimentos que o oceano me inspira.

Amor shakespeariano

William-Shakespeare (1)

Soneto XXVII

Exausto com o trabalho corro ao leito,
Repouso de meus membros tão cansados;
Mas corre a mente agora o curso feito,
Estando o labor do corpo terminado.
Lá de onde eu moro, agora, o pensamento
Parte qual peregrino a ti buscando
E mantém meu olhar alerta e atento
Pra escuridão que o cego vê, olhando;
Em fantasia minha alma cegada
À vista sem visão teu vulto traz,
Que, gema em noite terrível mostrada,
Faz linda a noite e seu rosto refaz.
E assim, ao dia o corpo, à noite a mente
Por ti e por mim mesmo paz não sente.
.

Sonnet XXVII

Weary with toil, I haste me to my bed,
The dear respose for limbs with travel tired,
But then begins a journey in my head
To work my mind, when body’s work’s expired.
For then my thoughts (from far where I abide)
Intend a zealous pilgrimage to thee,
And keep my drooping eyelids open wide,
Looking on darkness which the blind do see.
Save that my soul’s imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view,
Which like a jewel (hung in ghastly night)
Makes black night beauteous, and her old face new.
Lo thus by day my limbs, by night my mind,
For thee, and for my self, no quiet find.

“Poemas de amor de William Shakespeare” em tradução de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro. Ediouro.