26 anos sem Bukowski

Poema “O Pássaro Azul”, do também contista e romancista Charles Bukowski. Nascido em 16 de agosto, em Andernach, na Alemanha, e falecido em 9 de março de 1994, em Los Angeles, nos EUA, Bukowski é autor de grandes sucessos como “Cartas na Rua”, “Factotum”, “Mulheres”, “Misto Quente”, “Pulp” e “Crônica de Um Amor Louco”.

Um romance musical

A dica vem do Caderno2, do Estadão, que em edição recente entrevistou o escritor, considerado um dos principais nomes da nova ficção americana, Paul Beatty, autor de “Slumberland – A Batida Perfeita” e vencedor do Man Booker Prize e do National Book Critic Circle Award. O livro, lançado originalmente em 2011, foi publicado pela primeira vez em português no ano passado pela Todavia, com tradução de Rogerio Galindo.

Um livro sobre amor, sexo e raça, que tem como protagonista Ferguson Sowell, um músico que acabou de compor a batida perfeita. Especialista em trilhas sonoras para o cinema pornô, ele finalmente chegou ao que chama de sua Mona Lisa: uma batida que resume a própria existência humana. “Mas ainda falta algo para que ele atinja os píncaros da imortalidade artística: uma colaboração do jazzista Charles Stone, que desapareceu na Alemanha nos anos 1960. Sua única pista o leva a Berlim e ao bar Slumberland”, assinala nota de apresentação da editora.

Mais Frost

Frost em foto de Alfred Eisenstaedt

Do poeta norte-americano, Robert Frost (1874-1963), conforme tradução publicada na zagaiaemrevista.com.br.

A Trilha Que Não Tomei

Duas trilhas divergiam sob árvores amarelas

E eu, triste por não poder percorrer ambas

E permanecer um, detive-me em longa espera

E olhei tão abaixo quanto pude uma delas

Até onde se dobrava entre as plantas;

Então tomei a outra, tão bela quanto correta,

E talvez por ser a mais atraente

Por seu gramado almejar o passeio como meta,

Embora passasem por ali de forma reta

E usassem ambas de maneira semelhante,

E ambas igualmente deitassem naquela manhã

Em folhas que nenhum passo tornara pretas.

Ah, eu guardei a primeira para o amanhã!

Ainda que soubesse como à seguinte leva uma direção

Duvidei se um dia deveria voltar atrás.

Eu contarei isso enquanto expiro

Em algum lugar, em tempos e tempos:

Pois duas trilhas em um bosque divergiram, e eu,

Eu tomei aquela que menos percorreram,

E isso fez toda a diferença.

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,

And sorry I could not travel both

And be one traveler, long I stood

And looked down one as far as I could

To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,

And having perhaps the better claim

Because it was grassy and wanted wear,

Though as for that the passing there

Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay

In leaves no step had trodden black.

Oh, I kept the first for another day!

Yet knowing how way leads on to way

I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh

Somewhere ages and ages hence:

Two roads diverged in a wood, and I,

I took the one less traveled by,

And that has made all the difference.

A natureza efêmera de Frost

Giphy.com

Nature’s first green is gold
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

O primeiro verde da natureza é dourado,
Para ela, o tom mais difícil de fixar.
Sua primeira folha é uma flor,
Mas só durante uma hora.
Depois folha se rende a folha.
Assim o Paraíso afundou na dor,
Assim a aurora se transforma em dia.
Nada que é dourado fica.

Do poeta norte-americano, Robert Frost (1874-1963)

Elizabeth escreve do Rio

Woman Writing – Pablo Picasso – 1934

À doutora Anny Baumann

Fazenda Alcobaça

Petropólis – 8 de janeiro de 1952

Feliz ano-novo […] Tenho uma longa história de infortúnios para lhe contar – há cerca de três semanas, de repente comecei a ter uma reação alérgica espantosa a alguma coisa. O médico achou que era a caju, porque foi a única coisa que comi que nunca tinha comido antes, e há pessoas que têm alergia a essa fruta. Mas só dei duas mordidas num caju, duas mordidas muito azedas. Naquela noite meus olhos começaram a arder, e no dia seguinte comecei a inchar – eu não sabia que era possível uma pessoa inchar tanto assim. Durante mais de uma semana fiquei sem enxergar nada. Comecei a tomar Piribenzamina e adrenalina, e então meus amigos chamaram o médico deles lá do Rio. Ele foi muito simpático – trabalhou cinco anos no Memorial Hospital de Nova York etc. -, mas nada do que ele tentou deu certo. (Foi só minha a minha cara que inchou, e depois as mãos.) O médico me passou um monte de pílulas que segundo ele eram a mesma coisa que Piribenzamina, só que melhor ainda, e tomei umas injeções de um anti-histamínico, e passei a ir diariamente a um hospital que tem aqui para tomar uns dez ou quinze centímetros cúbicos de cálcio na veia. Eu estava tendo crises de asma o tempo todo – aliás ainda estou – e apesar de explicar para ele que estava tendo que tomar sete ou oito centímetros cúbicos de adrenalina por dia, não consegui me fazer entender, porque ele me deu de presente uma ampola de meio centímetro cúbico para eu tomar “em caso de emergência”. Além disso, começaram a tirar quinze centímetros cúbicos de sangue de uma extremidade de meu corpo e injetá-lo na outra mais ou menos diariamente.

Depois de mais ou menos uma semana, tive um ataque de eczema, muito forte, principalmente nas orelhas e nas mãos – igualzinho como eu tinha quando era menina, mas nunca mais tive igual depois de adulta. Até que acabei me enchendo de ficar toda espetada feito são Sebastião, e simplesmente suspendi tudo de repente – e agora estou bem, fora um pouco de eczema, nada sério, e a asma que continua, embora eu só esteja precisando tomar três ou quatro centímetros cúbicos de adrenalina todas as noites. Fiquei todo esse tempo sem poder escrever à mão nem à máquina por causa das minhas mãos.

Ontem eu estava me sentindo muito melhor, tanto que resolvi lavar a cabeça, e desmaiei. A pobre da minha anfitriã [Lota] ficou tão assustada que começou a desmaiar – sem dúvida, é a anfitriã perfeita. Foi muito engraçado. Felizmente todo mundo tem sido gentilíssimo. Todos os amigos e parentes trazem sugestões e frascos de pílulas etc., e quando eu estava pior foi difícil convencer minha anfitriã a não telefonar para você. Acho que não ia adiantar nada eu lhe passar os ingredientes dos remédios antialérgicos daqui em português – mas como você conhece meu organismo muito bem, talvez possa me sugerir alguma coisa para eu tomar se tiver outra crise, e aí o médico traduz para o português. Antes de tudo começar, eu já havia reparado que minha boca doía quando eu comia abacaxi demais, pelo menos foi o que me pareceu, e por isso eu quase não comi mais abacaxi – e manga também – e senti, mesmo sem entender nada do assunto, que o cálcio estava piorando o eczema. Pode mesmo ter esse efeito? Minhas orelhas pareciam dois cogumelos enormes e em brasa, e ainda estão muito grandes e vermelhas. Ah, meu Deus. Fora isso, estou me divertindo muito, e tenho tanto trabalho para fazer – mas estou com um pouco de medo de embarcar  no dia 26 desse mês, a menos que eu fique completamente boa. Seja como for, é muito interessante adoecer e tomar remédio em português, e os brasileiros ficam na maior animação quando tem alguém doente – acho que minha doença fez com eles se afeiçoassem a mim.

O sulfato de norisodrina parece não estar mais surtindo muito efeito, creio que porque tive que tomar demais. Assim mesmo, acho que eu devia encomendar mais […] Umas três caixas de doze cada, a 25%, devem dar, e por via aérea chega aqui em uma semana: a/c Lota de Macedo Soares, rua Antônio Vieira, 5, Leme, Rio de Janeiro, apto. 1101 […] Em troca, eu gostaria de lhe mandar (1) café, (2) um papagaio, (3) um desses macaquinhos que vivem no morro logo atrás aqui do prédio – eles assobiam. Talvez só o primeiro item interesse a você. Aqui servem café até nos ônibus de primeira classe – tem uma espécie de Kitchenette ao lado do motorista, e enquanto o ônibus desce a serra um garoto de jaleco branco fica enchendo umas xícaras pequenas e servindo-as aos passageiros, junto com caixinhas de biscoito onde está escrito: “Oferta”.

Fora a cara inchada e a asma, estou me sentindo bem, e embora saiba que dizer isso é provocar a Providência divina, há dez anos que não me sinto tão feliz […]

Carta de Elizabeth Bishop (1911-1979) à sua médica em Nova York, amiga e confidente, Anny Baumann. Fonte: “Uma Arte – As Cartas de Elizabeth Bishop”, edição de 1995, da Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.