Novos ensaios de Franzen

Acaba de sair em português, de Portugal, o novo livro do norte-americano Jonathan Franzen, “O Fim do Fim da Terra”, lançado lá pela Dom Quixote. “O Fim…” é um conjunto de ensaios escritos por Franzen, em sua maior parte, nos últimos cinco anos abordando temas como o complexo relacionamento com o tio quando jovem adulto em NY e outros como 
alterações climáticas, redes sociais, tecnologia e consumismo.

Por aqui, aparentemente, não há, ainda, anúncio de data para lançamento. No site da Companhia das Letras não há menção ao novo título. Abaixo obras do autor lançados no Brasil pela editora. 

“Pureza”, 2016

“Tremor”, 2012

“Como Ficar Sozinho” (Ensaios), 2012

“As Correções” (Ed. econômica), 2011

“Liberdade”, 2011

“A Zona do Desconforto – Uma História Pessoal”, 2008

Eliot todo dia

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PRELÚDIOS

I

A tarde de inverno cai

Cheirando a bife nas vielas.

Seis horas.

Pontas queimadas de um dia fumarento.

E agora o aguaceiro e o vento

Enroscando em teus pés

Pedaços sujos de folhas mortas

E jornais de terrenos baldios;

Cai a chuvarada

Nas chaminés, nas rótulas quebradas.

A um ângulo da rua, solitário,

Um cavalo fumega os pés batendo.

E então as luzes se acendendo.

II

Da cama afastaste as cobertas

E à espera, de costas, deitada,

Ficaste com sono a atentar

Para as mil sórdidas imagens

Que a tua alma estruturavam

E que à noite se revelavam

No teto a revolutear.

E quando o mundo regressava:

A luz filtrando pelas frestas

Na calha chilreando os pardais

Ligaste à rua visões tais

Que mal a rua compreende.

No leito posta de través

Teus papelotes retiravas

Ou com as mãos sujas agarravas

A planta amarela dos pés.

III

Sua alma fixada no céu

Que atrás de um quarteirão se apaga,

Ou por tenazes pés calcada

Das quatro à cinco e cinco às seis;

E os dedos curtos e os cachimbos

E os jornais da tarde e o olhar

Seguro de certas certezas;

E a consciência de uma rua

Enegrecida e na impaciência

De o mundo assumir, apresar.

Movem-me sonhos que envolvem essas

Imagens e aderem: a noção

De algo suave infinitamente

E sofrendo infinitamente.

 

Esfregue as mãos na boca e ria;

Os mundos giram como velhas

Catando lenha em chão baldio.

T. S. Eliot

Cambridge, 1910

Seleção Emily

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Noites bravias! Noites bravias!

Estivesse eu contigo,

Noites bravias seriam

Nossa luxúria!

 

Fúteis os ventos

Para um coração no porto:

Ajustado à bússola

Ajustado ao mapa.

 

Vogando no Éden

Ah! o mar!

Se eu pudesse ancorar

Em ti esta noite!

 

Wild nights! Wild nights!

Were I with thee,

Wild nights should be

Our luxury!

 

Futile the winds

To a heart in port,

Done with the compass

Done with the chart.

 

Rowing in Eden!

Ah! the sea!

Might I but moor

To-night in thee!

 

Emily Dickinson

Roth imprescíndivel

Philip Roth - The Irish Times
Roth em NY em janeiro deste ano. Foto “The Irish Times”.

Seleção de cinco obras, dentre trinta livros assinados pelo escritor norte-americano, Philip Roth (1933-2018), publicada pelo site do El País.

–  “O Complexo de Portnoy

Divertido monólogo das obsessões masturbadoras do jovem judeu Alexander Portnoy, agarrado à mãe, e suas problemáticas relações com as mulheres nos anos 40 em Nova Jersey.

– “A Marca Humana”

Como a carreira de um professor universitário se arruína ao pronunciar na sala de aula uma expressão pouco feliz em meio à febre do politicamente correto nos EUA.

– “Pastoral Americana”

O reverso do sonho americano. O casamento perfeito, formado por Seymour, antigo atleta e bom filho, e Dawn, ex-miss Nova Jersey, leva uma vida exemplar até que sua existência começa a ruir por uma desgraça familiar.

– “Complô contra a América”

O que teria acontecido se nas eleições dos Estados Unidos um candidato republicano, pró-nazismo, antissemita e isolacionista, como o popular aviador Charles A. Lindenberg, o primeiro a cruzar o Atlântico sozinho, tivesse em 1940 tirado a vitória de Roosevelt?

– “Nêmesis”

Seu último romance em que volta a suas questões íntimas. O tema é a epidemia de pólio que assolou os Estados Unidos durante o verão de 1941 e como afetou a comunidade judaica de Newark, a cidade natal do autor, cenário de sua infância.

 

De Elizabeth para Marianne

 

Carta publicada no livro “Uma Arte – As Cartas de Elizabeth Bishop”, em edição de 1995 da Companhia das Letras. Elizabeth (1911-1979) é considerada uma das maiores poetas de língua inglesa do Século 20 e Marianne (1887-1972), uma “poeta para poetas”. Além da intensa correspondência mantida também com nomes como Ezra Pound, era ainda tradutora e ensaista.

A Marianne Moore

13 de janeiro de 1958

Acho que estou escrevendo cartas na ordem inversamente proporcional ao meu senso de dever e meu afeto […] Não sei por quê. Falamos sobre você e pensamos em você todos os dias desde que partimos de Nova York, e temos retratos seus em quatro (4) lugares diferentes da casa – no entanto já escrevi um monte de cartas que nem precisava escrever, paguei contas, fiz mil coisas sem importância e foi só anteontem que escrevi para a doutora Baumann, e agora estou escrevendo para você – praticamente minhas duas pessoas favoritas que estão nos Estados Unidos. É uma inversão total. Muito obrigada por me escrever mais uma vez a respeito da introdução a “Helena Morley” – você me animou muitíssimo: eu já havia mais ou menos me convencido de que o texto tinha ficado excessivamente longo e detalhado. Espero que você já tenha tido tempo de ler o livro em si – a Helena é muito melhor do que qualquer introdução, creio eu, ainda que haja trechos que você não vai aprovar integralmente. Por enquanto, estamos muito satisfeitas com a recepção que o livro tem tido – nada  muito profundo, mas os críticos dos jornais parecem ter gostado […]

Espero que você esteja bem e não tenha sofrido de pleurite, e que a doutora Laf Loofy esteja lhe dando mutias vitaminas etc. – talvez até tranquilizantes nos meses mais frios. (Sempre achei que o nome dela fosse Laugh Loofy, mas creio que a Henrietta escrevia La Floofy, e talvez nós duas estejamos enganadas.) E por favor não esqueça que, se precisar, a doutora Baummann está aí, pois sei que ela teria o maior prazer em atravessar a ponte do Brooklyn para vê-la em qualquer emergência. Acho também que seria uma boa idéia dizer à senhora Kauffer (esposa de McKnight Kauffer) para consultá-la também – a menos que ela já tenha um médico muito bom. Seja como for, por favor, por favor, não tente fazer TUDO sozinha.

Sentimos muita falta de Nova York quando chegamos, e depois começamos a nos sentir em casa outra vez. Os animais estavam todos bem de saúde e afetuosos, e nos perdoaram – eles e mais Betty e uma negrinha nova, que se chama, coitada, Alisette Mara. No momento, os dois “netos” mais velhos da Lota estão conosco, bem com um dos sobrinhos, um menino de quinze anos, desengonçado, muito inteligente, com grandes óculos de tartaruga, asmático. Como eu e Lota temos asma, cuidamos muito bem dele, dando-lhe conselhos, aplicando-lhe a bombinha etc. Agora há também uma quarta “neta” – com cerca de um mês de idade, e esta finalmente recebeu o nome de “Lotinha”.

Na época do Natal, fomos passar uma semana na casa de praia do irmão da Rosinha num lugar chamado Cabo Frio (Cold Cape). É cheio de dunas maravilhosas e uma infinidade de prainhas; além disso, lá produzem sal numas lagunas, e é muito estranho e bonito. Quando você vier nos visitar, vamos levá-la a Cabo Frio, naturalmente. Uns camarõezinhos mínimos, maravilhosos, abacaxis, lagostas – comemos tudo isso na ceia de Natal, depois nos deitamos em redes brancas. Acho que você ia gostar. Agora estamos aqui, às voltas com um bando crianças, mas ao mesmo tempo começando a trabalhar. A Lota desenhou um móvel muito bonito para o meu hi-fi (que aqui se pronuncia ee-fee), e a coisa toda está quase pronta para ser instalada. Estamos também reorganizando toda a nossa fiação elétrica, que ainda está meio excêntrica, e acabamos de adquirir nossa primeira (quer dizer, primeira aqui) geladeira elétrica. Depois só falta um bocado de vidraças, e vamos estar prontas para quando você resolver nos visitar – ou ficar para sempre, se você quiser […]

Foi maravilhoso voltar a vê-la em Nova York e só lamento não termos tido oportunidade de nos encontrarmos mais vezes. Soubemos que a viagem ao Oeste foi um sucesso. Quem nos disse isso várias vezes foram a Loren e a Margaret [Miller]. Estamos com muitas saudades de vocês, e se não pudermos voltar em breve você realmente devia vir aqui – você acha que seria muito desconfortável a longa viagem de avião? Dizem que daqui a um ano ou dois vai haver aviões a jato que vão fazer o trajeto Rio-Nova York em nove horas. Lota está adorando a idéia – já eu continuo preferindo um bom cargueiro, mesmo quando na verdade não é lá muito bom. Um feliz ano-novo para você, Marianne, e por favor, por favor, se cuide – muita proteína, muito carboidrato e muito tudo mais que descobriram, até demais, e por favor escreve um poema também, um bem comprido.