Travessa em alta

Na contramão de redes como a Cultura e a Saraiva, sufocadas em dívidas e fechando lojas pelo país afora, a Livraria da Travessa vive período de bonança. Com nove lojas já instaladas no Rio, São Paulo e Ribeirão Preto, inaugura nova unidade na capital paulista em março próximo. Será a primeira loja de rua na cidade, depois dos espaços instalados no Instituto Moreira Salles e na Bienal.  E não para por aí. Uma loja de 300 metros quadrados da Travessa está para ser inaugurada em Lisboa.

Em entrevista ao Caderno 2, do Estadão, o criador da livraria, Rui Campos, afirma que a Travessa fechou o mês de novembro passado com um crescimento de 30% em relação ao mesmo mês do ano passado e que no fechamento do ano, o desempenho deve ser 15% superior ao de 2017.

O apelo de Schwarcz

Carta de Amor aos Livros*

O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso.Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável,mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo.Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos,demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos—gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.

Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, já que as maiores editoras são, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os sócios dessas editoras têm capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como somos também idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores.

Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos e contribuíam com sua energia para o que construímos no nosso dia a dia. A editora que sempre foi capaz de entender as pessoas em sua diversidade, olhar para o melhor em cada um e apostar mais no sentimento de harmonia comum que na mensuração da produtividade individual, teve que medir de maneira diversa seus custos, ou simplesmente cortar despesas. Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disseque não tinha como garantir.

Sem querer julgar publicamente erros de terceiros,mas disposto a uma honesta autocrítica da categoria em geral, escrevo mais esta carta aberta para pedir que todos nós, editores, livreiros e autores,procuremos soluções criativas e idealistas neste momento. As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas mídias sociais e vídeos, feitos de coração aberto, nos quais a sinceridade prevaleça, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial atenção a seus protagonistas mais frágeis, são mais que bem-vindos: são necessários. O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amora os livros.

Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise, cumprindo com seus compromissos, e também nas livrarias que estão em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer. Divulguem livros com especialíssima atenção ao editor pequeno que precisa da venda imediata para continuar existindo, pensem no editor humanista que defende a diversidade, não só entre raças, gêneros, credos e ideais, mas também a diversidade entre os livros de ambição comercial discreta e os de ambição de venda mais ampla. Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como será nossa vida sem os livros minoritários, não só no número de exemplares, mas nas causas que defendem, tão importantes quanto os de larga divulgação. Pensem nos editores que, com poucos recursos, continuam neste ramo que exige tanto de nós e que podem não estar conosco em breve. Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva.

Presentear com livros hoje representa não só a valorização de um instrumento fundamental da sociedade para lutar por um mundo mais justo como a sobrevivência de um pequeno editor ou o emprego de um bom funcionário em uma editora de porte maior; representa uma grande ajuda à continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu,desde cedo: o livro.

*Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras e escritor.

Tempestade editorial

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Depois do anúncio da recuperação judicial da Livraria Cultura, do fim das operações da Fnac (absorvidas pela própria Cultura) e da falência da Laselva, novas e grandes ondas agitam o mercado editorial brasileiro. O controle da Companhia das Letras acaba de passar para as mãos da Penguin Random House, maior grupo editorial do mundo, e a  Saraiva anuncia o fechamento de 20 das suas 104 lojas no país.

Segundo a rede, a decisão se deu em função dos “desafios econômicos e operacionais do mercado”, além das mudanças na “dinâmica do varejo”.  Sozinhas, Cultura e Saraiva respondem por cerca de 40% do faturamento das editoras, que já vinham sofrendo com a diminuição das compras governamentais e da queda do consumo, de forma geral.

Por outro lado, matérias recentes mostram que outros formatos de negócios seguem resistindo. Redes de médio porte, como Livrarias Curitiba, Leitura e Travessa vivem momento de expansão de operações. Maior rede do Sul do país, a Curitiba acaba de inaugurar um cento de distribuição na capital paulista e a mineira Leitura está abrindo unidades nas estações rodoviárias do Tietê e da Barra Funda e no Aeroporto de Congonhas. A Leitura estima encerrar o ano com crescimento de 7%.

 

 

Cultura em recuperação judicial

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Segundo o noticiário, foi deferido na semana passada o pedido de recuperação judicial da Livraria Cultura. A rede, que recentemente havia incorporado as operações da Fnac no país, acumula dívidas de cerca de R$ 285 milhões. Entre as justificativas citadas pela empresa estão a perda de poder aquisitivo e a redução do hábito de leitura no país.

O fim da Fnac

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Retrato fiel da realidade do país, e mais especialmente do mercado editorial, um grupo de 30 ex-funcionários da Fnac fizeram, na terça-feira passada, um protesto dentro da loja da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Reclamavam por verbas rescisórias e depósitos de parcelas do Fundo de Garantia que deixaram de ser devidamente depositadas. As operações da Fnac no Brasil foram assumidas pela Cultura em junho do ano passado. A rede, de origem francesa, chegou a ter 12 lojas em sete estados brasileiros. A última em funcionamento, segundo matéria da Folha, foi fechada há pouco mais de um mês, em Goiânia.