Livraria Saraiva anuncia plano de recuperação

Conforme noticiado essa semana pela Folha de SP, a Livraria Saraiva, rede líder de venda de livros no país e em processo de recuperação judicial desde o ano passado, apresentou seu plano de recuperação aos credores. A rede, que já fechou mais de 20 lojas em todo o país, está propondo pagar apenas 5% da sua dívida em 15 anos, com 12 meses de carência. Os 95% restantes da dívida seriam transformados em debêntures a serem emitidos em 2034. A dívida total da rede atinge cerca de R$ 684 milhões. Processo semelhante enfrenta a Livraria Cultura, também em recuperação judicial e com uma dívida de R$ 285 milhões.

Lello dá a volta por cima e bate recorde de vendas

Depois de quase fechar as portas por dificuldades financeira, aquela que figura em nove de cada dez listas das “livrarias mais bonitas do mundo”, a Lello e Irmão, localizada há 113 anos (completados no último dia 13) na cidade do Porto, não só voltou a dar lucro como já é recordista em vendas em Portugal. A informação é da blogueira, do UOL, Giuliana Miranda.

A mágica se deu a partir de 2015 quando a Lello passou a cobrar entrada na livraria (5 euros que podem ser revertidos em compras). Explica-se: a livraria é um dos principais pontos turísticos da cidade e nos últimos anos viu uma horda de Harry Potter-maníacos literalmente invadirem suas instalações para sessões de fotos. É que a escritora J. K. Rowling, autora do maior fenômeno editorial dos tempos modernos teria morado na cidade do Porto e se inspirado nas belíssimas escadarias da Lello para compor a atmosfera da biblioteca de magia de Hogawarts.

Segundo a direção da livraria, cerca de 40% dos visitantes acabam comprando livros, o que em 2017 (os números de 2018 ainda não foram divulgados) representou uma média de 1.300 volumes vendidos diariamente. Antes do início da cobrança de entrada, a média era de 190 livros/dia.

Mercado editorial registra crescimento tímido em 2018

Embora a entrada em recuperação judicial de dois dos principais nomes do mercado editorial local – Saraiva e Livraria Cultura – sinalizasse um ano tenebroso no setor, informação adiantada por Ismael Borges, da Nielsen, publicada na coluna Mercado Aberto, da Folha, dá conta de um pequeno crescimento do mercado interno em 2018. “Houve crescimento, mas foi tímido em termos de faturamento, depois do desconto da inflação”, afirma Borges. Os dados oficiais da pesquisa tradicionalmente promovida pela consultoria ainda serão publicados, mas outro dado adiantado pelo especialista é que os livros de gestão foram o principal destaque em vendas no ano.

Travessa em alta

Na contramão de redes como a Cultura e a Saraiva, sufocadas em dívidas e fechando lojas pelo país afora, a Livraria da Travessa vive período de bonança. Com nove lojas já instaladas no Rio, São Paulo e Ribeirão Preto, inaugura nova unidade na capital paulista em março próximo. Será a primeira loja de rua na cidade, depois dos espaços instalados no Instituto Moreira Salles e na Bienal.  E não para por aí. Uma loja de 300 metros quadrados da Travessa está para ser inaugurada em Lisboa.

Em entrevista ao Caderno 2, do Estadão, o criador da livraria, Rui Campos, afirma que a Travessa fechou o mês de novembro passado com um crescimento de 30% em relação ao mesmo mês do ano passado e que no fechamento do ano, o desempenho deve ser 15% superior ao de 2017.

O apelo de Schwarcz

Carta de Amor aos Livros*

O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso.Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável,mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo.Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos,demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos—gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.

Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, já que as maiores editoras são, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os sócios dessas editoras têm capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como somos também idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores.

Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos e contribuíam com sua energia para o que construímos no nosso dia a dia. A editora que sempre foi capaz de entender as pessoas em sua diversidade, olhar para o melhor em cada um e apostar mais no sentimento de harmonia comum que na mensuração da produtividade individual, teve que medir de maneira diversa seus custos, ou simplesmente cortar despesas. Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disseque não tinha como garantir.

Sem querer julgar publicamente erros de terceiros,mas disposto a uma honesta autocrítica da categoria em geral, escrevo mais esta carta aberta para pedir que todos nós, editores, livreiros e autores,procuremos soluções criativas e idealistas neste momento. As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas mídias sociais e vídeos, feitos de coração aberto, nos quais a sinceridade prevaleça, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial atenção a seus protagonistas mais frágeis, são mais que bem-vindos: são necessários. O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amora os livros.

Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise, cumprindo com seus compromissos, e também nas livrarias que estão em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer. Divulguem livros com especialíssima atenção ao editor pequeno que precisa da venda imediata para continuar existindo, pensem no editor humanista que defende a diversidade, não só entre raças, gêneros, credos e ideais, mas também a diversidade entre os livros de ambição comercial discreta e os de ambição de venda mais ampla. Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como será nossa vida sem os livros minoritários, não só no número de exemplares, mas nas causas que defendem, tão importantes quanto os de larga divulgação. Pensem nos editores que, com poucos recursos, continuam neste ramo que exige tanto de nós e que podem não estar conosco em breve. Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva.

Presentear com livros hoje representa não só a valorização de um instrumento fundamental da sociedade para lutar por um mundo mais justo como a sobrevivência de um pequeno editor ou o emprego de um bom funcionário em uma editora de porte maior; representa uma grande ajuda à continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu,desde cedo: o livro.

*Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras e escritor.