De Che para Tatico

“Tatico, você cresça e vire homem, que depois veremos o que se faz. Se ainda houver imperialismo, saímos para brigar com ele; se isso acabar, você, Camilo e eu podemos ir de férias para a Lua”. Trecho final de carta de Che Guevara ao filho, escrita em 1966 e publicada em matéria recente do El País. O conteúdo integra “Epistolario de un Tiempo. Cartas 1947-1967”, livro recém-lançado em Cuba e que agrupa e classifica 350 páginas de cartas pessoais e políticas abrangendo desde a época em que Ernesto Guevara de la Serna termina o ensino médio e parte de moto para descobrir as Américas (tema do filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, lançado em 2004) até suas últimas palavras, escritas na Bolívia e dedicadas aos seus pais, aos filhos e à esposa, Aleida March. Morto na Bolívia, em outubro de 1967, o médico e revolucionário marxista argentino, como citado na matéria do jornal espanhol, segue como um dos nomes de maior capital simbólico do Século XX.

De Vinicius para os escritores mineiros

Vinicius, Helena e Fernando Sabino em foto da década de 40. Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br

Carta de Vinicius de Moraes escrita após encontro do poeta com Otto Lara Resende e Fernando Sabino, ocorrido em outubro de 1944, e publicada no “Jornal”, do Rio de Janeiro, em 5 de novembro do mesmo ano. Fonte: Correio IMS, do Instituto Moreira Salles.

Há uns dez pares de dias, ó escritores de Minas Gerais, uma conversa noturna que se iniciou num bar em Copacabana levou-me à casa de um jovem conterrâneo vosso, um prosador novo dessas terras altas, e, apraz-me dizer, um dos melhores e mais bem aquinhoados pela humanidade e pelo espírito. Com ele se achava outro moço escritor, também mineiro, também excepcionalmente dotado para a ingrata arte da poesia e, o que chega a ser excessivo, senhor de mão segura para a prosa. Num aprazível ambiente ao gosto moderno escutamos, de início, excelente música americana, se nos enlanguescendo a alma ao ritmo de mestres negros como Louis Armstrong e Duke Ellington e a forrar os nossos avessos de boa cerveja acompanhada de deliciosos salgadinhos. Aos poucos, o ritmo maior da noite veio penetrar nossos corações de melancolia essencial da natureza e, sem darmos por isso, encaminhados nossas ideias para o terreno das explicações de temperamento, inclusive o literário. Eu, infelizmente, nada tinha de novo que pudesse mostrar ao meu querido anfitrião e seu amigo, mas o mesmo não acontecia com este último, que, apesar da modéstia natural com que Deus e essa abençoada terra o dotaram, produziu, instado, uma peça em prosa e outra em verso, nas quais, em meio aos sublimes esgares da música, mergulhei com ânimo sério e precisão de sinceridade.

Digo-vos, ó homens das letras alterosas, que as peças eram, em verdade, muito belas e caprichosamente escritas. Li-as com amor e crítica, e tão bem me pareceram que, emocionado, saudei o moço escritor com palavras brotadas da sinceridade. No entanto, por me parecer a dita peça, posto bela, extremamente centrada sobre o eu íntimo do seu jovem autor, verberei-lhe, em nome do talento e da franqueza com que expunha a si mesmo os seus próprios desencontros e angústia, o fato de não lutar por colocar esse talento e essa franqueza a serviço de uma causa menos egoísta que ele mesmo.

Ao fazê-lo, vai se me deparou o problema de uma extensão a bem dizer ontológica e, mais particularmente, de fundo sociológico com relação ao Brasil. Àquele jovem que tinha diante de mim, dotado de todas as prendas do espírito e cuja bondade transparecia nos olhos, nas mãos, nos cabelos, nas atitudes proverbiais aos nativos de Minas, esmagava uma angústia milenar. Não lhe faltava nem coragem para lutar – que podia ver no seu modo franco – nem solidariedade humana – a transpirar das palavras com que, aceitando, esforçava-se por situar minha revolta dentro de seu coração afetuoso, num anseio de se libertar. Compreendi que diante de mim estava, mais que um caso de enclausuramento por livre arbítrio, uma fatalidade do mau privilégio que pesa sobre essa bem amada terra e a vem sufocando lentamente, com risco de segregá-la da comunidade de seus irmãos brasileiros. Porque, caríssimos, fostes dotados, desde sempre, na História desta amável pátria, dos melhores e mais pródigos dons para a palavra escrita. Não se passou geração em que não désseis à literatura brasileira um nome exemplar, e tanto melhor quanto sempre penetrado dessa misteriosa doçura e simpatia que faz de vós como que o povo escolhido para o carinho de todo o resto do Brasil.

No entanto, ó escritores, que estranho destino vos faz orgulhosos do vosso triste privilégio! Sim, a alma que tantas vezes vos fervilha, vós a prendeis num corpo por demais estático, por demais consciente da ordem burocrática que vos vem matando. No entanto, esse orgulho que vos acorrenta os anseios da vida, por que vos dá ele coragem para vos automutilardes? Por que a paisagem escolhida para a vossa muda contemplação há de ser somente a bela, triste, desolada paisagem de vós mesmos?

Não vos digo que traís o vosso destino, porque sois honestos e puros como a terra. Mas essa terra, em verdade, a secastes em vós, escritores de Minas. Realmente, não há lugar para a palavra traição quando se fala de vós. Direis sempre aquilo que vos é imperioso dizer: o mundo de vós mesmos, e que bem o fazeis! Mas sabeis, no entanto, que maior que vós mesmos é a humanidade que vos circunda; maior que vossa casa é o mundo; maior que vossos casos particulares, vossos segredos, vossa contida existência doméstica é a miséria, a grandeza, a indiscrição, a sordidez do mundo. Por que vos negais tão friamente ao escândalo, ó homens de muito pudor? Por que afastais do vosso caminho a mulher e só tendes para o miserável o óbolo da vossa compaixão? Por que só olhais o mundo das janelas de vossas casas ou dos vossos escritórios? Por que vos machucais e por que sobrestimais a vossa inquietação? Mais inquieto que vós é o abismo da vida, onde rolam de envolta corpos em sangue e em poesia; mais inquietas que vós são as mulheres de cujo convívio selvagem vos afastais por discrição; mais inquietos que vós são os mares da distância, os ventos de outras paragens, os apelos dos que morrem sem pão e sem calor, desconhecidas almas vagabundas que clamam de vós, esperam de vós, vivem em vós e sobre quem, no entanto, silenciais.

Perdoai-me, se me puderdes perdoar, a franqueza destas palavras. Sei que me estimais, e eu, eu vos quero definitivamente bem. Poderá parecer-vos ingratidão, eu que já fui vosso hóspede e que já bebi convosco em vossos bares, vos falar assim, e sobretudo imodéstia ou consciência da minha verdade. Mas tal não se dá, e vós bem o sabeis. Não me considero nem portador de uma verdade nem sou juiz de ninguém, senão de mim mesmo. Mas o amor que vos dedico, e que se veio fortalecendo à medida que conhecia melhor vossas forças e fraquezas, me arrastou inelutavelmente a este discurso que não é do meu tom. Eis por que fi-lo assim, de afetação propositada, pois não vos quisera falar de assunto tão grave com palavras mais simples, que cairia no perigo de vos acarinhar, como é tendência minha sempre que falo de vós. Anima-me somente a certeza de tocar num ponto que, tão certo como eu estar vivo no momento em que vos escrevo, vos vai doer e fazer pensar.

Por que vos recusais a pensar, escritores de Minas, além do pensamento de vós mesmos que vos ocupa todas as horas? A vossa pobre, querida Minas esvai-se em amorosa consumpção. Por que não a revitalizais com o vosso espírito e a vossa ação? Os preconceitos vos abafam como o ar da seca: por que não vos libertais? Sois homens de coragem intelectual, não temeis vos dizer a vós mesmos o que só muito poucos se diriam; e tendes, sem embargo, consciência precisa do fim que vos espera nesse caminho de pura introspecção em que ides: tornar-vos-eis um órgão passivo dentro de um organismo em luta para se libertar de todos os seus humores tóxicos.

Vossa alma é patética, escritores de Minas. Eu a amo e admiro. Mas esse olhar perpetuamente para dentro vos secará o brilho dos olhos. Precisais de água, a água do mar, a água da mulher, a água da criação. Temeis errar: errai. Temeis mostrar a vossa nudez: desnudai-vos. Falo-vos mais que em meu próprio nome – que não precisais de mim para nada –, em nome de uma geração que está crescendo a vosso lado. Meninos puros, inteligentes, honestos, bem dotados para a criação, que trazem a generosa inquietação do rapaz que começa e que, ao contato de vosso espírito maior e do vosso desencanto total, irão transformar a terra ainda fértil neles em grandes peladas através das quais passarão a vida a se passear.

Sois gente simples. Vossa fala é simples, vossa maneira é simples, vosso corpo e vosso coração são simples. Vossa forma é quase sempre simples, sem retórica, enxuta, precisa, exata para se ler. O vosso convívio é simples e agradável. Dá uma impressão de se estar perfeitamente a salvo, a vosso lado, apesar de vos dizerem desconfiados. Mas o vosso orgulho não é simples, escritores de Minas. Ele vos isola numa terra ferida de morte. Ele vos dá em excesso complacência para com as vossas próprias feridas, que tanto cultivais. Ele vos dá esse olhar tímido e vos cerra os maxilares diante da emoção. Por que só sabeis chorar às escondidas, escritores de Minas? Por que não vindes às vezes vos banhar nos mares da costa? Por que vos enclausurais em vossa cidade mórbida, que vos estiola as faculdades do amor? Por que amais a vossa desolação? Por que não saís às vezes, não viajais, não lutais contra o erro de vós mesmos? Por que não fraquejais, não amaldiçoais, não apedrejais, não sofreis o generoso sofrimento da vida? Por que não vos interessa conhecer o Norte e o Sul do país, e os países distantes? Por que economizais e para quê: para comprar o vosso túmulo? Por que viveis como num claustro, entre essas montanhas de luz perfeita? Não vos dá vontade de louvar outra coisa que não seja a Deus e vossa angústia? Por que sois ordenados por fora e desencontrados por dentro? Por que vos persegue o pensamento da morte, que é o fim da vida?

Ah, escritores de Minas Gerais, deixai-me chorar o vosso destino. Deixai-me lamentar a prodigalidade com que vos dispensais os vossos raros dons. Deixai-me acusar-vos, escritores de Minas, de estardes a ponto de inutilizar para a vida mais uma geração de quem não quereis ser o amparo, contra vós mesmos. Não vos quero dizer mais, porque já muito me dói o que vos disse. Que não me queirais mal, no entanto. Por esta única indizível razão escrevo esta carta contra vós: por muito amar.

Top ten do Nelson

Abaixo seleção de “máximas” (algumas atualíssimas) do teatrólogo, contista, romancista, jornalista, cronista e genial frasista Nelson Rodrigues, nascido há 107 anos, no dia 23 de agosto de 1912, na cidade do Recife, e falecido em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, no Rio de Janeiro.

“Amar é dar razão a quem não tem”

“Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”

“Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo”

“Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra”

“O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade”

“O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca”

“O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe”

“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”

Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos

“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”

Cânfora e champanhe na saída

Anton sentou-se extraordinariamente ereto e disse em voz alta e clara (embora ele não soubesse quase nada de alemão): Ich sterbe (“Estou morrendo”). O médico acalmou-o, pegou uma seringa, deu-lhe uma injeção de cânfora, e pediu champanhe. Anton tomou um copo cheio, examinou-o, sorriu para mim e disse: ‘Fazia um bom tempo que não bebia um copo de champanhe.’ Ele bebeu, e inclinou-se suavemente para esquerda, e eu só tive tempo de correr em sua direção e de colocá-lo na cama e chamá-lo, mas ele tinha parado de respirar e estava dormindo tranquilamente como uma criança…“.

Relato de Olga Knipper sobre os últimos momentos de vida do seu marido, o escritor russo Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904).

Drummond eterno

Paisagem de Ouro Preto, de Alberto da Veiga Guignard

Hoje, 17/8, completam-se 32 anos da morte do poeta, escritor, cronista e jornalista, Carlos Drummond de Andrade. Nascido em Itabira (MG) em 31 de outubro de 1902, escreveu seu último poema, “Elegia a um Tucano Morto” em 31 de janeiro de 1987. No dia 5 de agosto, depois de meses de internação, morre, vítima de câncer, sua filha Maria Julieta. Doze dias depois, Drummond falece, aos 84 anos, em decorrência de problemas cardíacos. É enterrado junto com a filha no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Abaixo poema do livro “As Impurezas do Branco”, de 1973.

CANTO MINERAL

Minas Gerais

Minerais

minas de Minas

demais,

de menos?

minas exploradas

no duplo, no múltiplo

sem-sentido

minas esgotadas

a suor e ais,

minas de mil

e uma noites presas

do fisco, do fausto,

da farra; do fim.

Minas de três séculos

mal digeridos

ainda minando

mineralgias míticas.

O ouro desfalece:

Minas na mira

Do erário real.

O diamante esmaece

Minas na surdina

da seresta exausta.

O ferro empalidece:

Minas na ruína

de simplórios donos

de roças mal lavradas.

Minas orgulhosa

de tanta riqueza,

endividada

de tanta grandeza

no baú delida.

Cada um de nós, rei

na sua fazenda,

cada pé de milho

erguia o pendão

de nossa realeza,

cada boi-de-coice

calcava o tesouro

da terra indefesa

negociada

com a maior fineza.

(Ai, que me arrependo

– me perdoa, Minas –

de ter vendido

na bacia das almas

meu lençol de hematita

ao louro da estranja

e de ter construído

filosoficamente

meu castelo urbano

sobre a jazida

de sonhos minérios.

Me arrependo e vendo.)

Minas, oi Minas,

tua estranha sina

delineada

ao bailar dos sinos

ao balir dos hinos

de festins políticos,

Minas mineiral

Minas musical

Minas pastorela

Minas Tiradentes

Minas liberal

Minas cidadela

Minas torturada

Minas surreal

Minas coronela

Minas tal e qual

a pedra-enigma

no labirinto da mina.

Do ferro líquido da forja

do Barão de Eschwege

resta a ficha histórica.

Do rude Cauê,

a TNT aplainado,

resta o postal

na gaveta saudosista,

enquanto milhares

milhafres

de vagões vorazes

levam para longe

a pedra azul guardada

para sua torre

para teu império

postergado sempre.

E as esmeraldas,

Minas que matavam

de esperança e febre

e nunca se achavam

eram verde engano?

Minas sub-reptícia

tarde defendida

de áureas cobiças

pelo astuto jogo

de pensar oculto,

do dizer ambíguo,

do nevoento pairar

de flocos de sigilo

no manifesto anil

sobre serranares.

Minas, nos ares,

Minas que te quero

Minas que te perco

e torno a ganhar-te

com seres metal

diluído em genes,

com seres aço

de minha couraça,

Minas que me feres

com pontiagudas

lascas de minério

e laminados de ironia,

vês?

No coração do manganês

pousa uma escritura

de hipoteca e usura

e o banco solerte

praticando a arte

do cifrão mais forte

Minas

Teimoso lume aceso

mesmo sob cinza,

Minas Acesita

Minas Usiminas

Minas Ipatinga

Minas felina

a custo ensaiando

o salto da serra

bem alto,

o romper de algemas

mais férreas que o ferro,

no rumo certeiro

do Intendente Câmara,

Minas que te miro

desprezando os prazos

de imemoriais atrasos,

de leve batendo à porta

da era espacial,

Minas tório urânio

Minas esperança

Minas detetando

o sinal

sob a tibieza dos homens

e o parangolé da retórica,

Minas mineiralmente

geral      Gerais

auriminas

turmaliniminas

diamantiniminas

muito abaixo da mais uterina

mina recôndita

luzindo

o cristalino

abafado

espírito de Minas.