Os 120 anos do pai do Pequeno Príncipe

Na próxima segunda-feira, 29, completam-se 120 anos do nascimento de Antoine de Saint-Exupéry. O escritor francês e piloto de aviação, célebre no mundo inteiro por “O Pequeno Príncipe” (1943), ficou conhecido também pela sua morte trágica no final da Segunda Guerra Mundial, quando seu avião foi abatido por um piloto alemão. Os restos do caça de Saint-Exupéry foram encontrados em 2004 no litoral da Marselha. Seu corpo, entretanto, nunca foi localizado.

A aviação foi um tema constante na obra do escritor. Sua estreia, em 1926, foi com “O Aviador”, seguido de “Correio do Sul”, “Voo Noturno”, “Terra dos Homens”, “Piloto de Guerra”, “O Pequeno Príncipe”, “Carta a um Refém” e “Cidadela”, lançado postumamente em 1948.

Elizabeth no Rio

Foto: Enciclopédia Itaú Cultural

 À doutora Anny Bauman

Rio de Janeiro, 2 de maio de 1961

A Lota está dirigindo as obras de um aterro enorme à margem de uma das baías do Rio. O cargo dela é “coordenadora-chefe” – é demais! Alguns dos melhores arquitetos estão trabalhando com ela, e também o Burle Marx, que é o melhor paisagista tropical que há, a meu ver; e como o Rio é uma grande família, pelo menos o mundo intelectual, estas pessoas são todas velhas amigas. Além disso, e infelizmente, existem os departamentos de Parques e Jardins e de Transporte, e generais-de-brigada, e muitos, mas muitos burocratas inertes que é preciso enfrentar, e ciúmes, e politicagens, e mais a Situação da Mulher aqui! A meu ver, a Lota está se saindo muitíssimo bem. Fico admirada sempre que a vejo em atividade, ou quando a ouço falando pelo telefone com essa gente difícil. É muito trabalho; ficamos no Rio de segunda a sexta todas as semanas agora, e a Lota nunca vai se deitar, e o número de “cafezinhos” que ela toma é assombroso.

Foi muito inteligente da parte do Carlos* aproveitar os talentos da Lota finalmente, a meu ver – mas ela se recusaa aceitar um salário (o que talvez seja uma boa idéia para neutralizar certas críticas). Seja como for, o que antes ia ser uns dois quilômetros de pistas nuas cercadas por um parque sem sombra e sem nada de interessante agora vai ter bastante sombra, playgrounds, dois restaurantes, cafés ao ar livre, pistas de dança etc. – se tudo correr bem. A Lota tem mil idéias boas e viáveis.

Claro que isso é muito mais importante que viajar, por ora, de modo que adiamos nossos planos. Por outro lado, a Lota nunca teve tantas preocupações na vida, coitada – mas tenho certeza de que apesar disso ela está muito mais feliz, agora que finalmente tem um trabalho. Vai sair um suplemento dominical sobre o projeto em breve, e se as fotos saírem boas eu lhe mando um exemplar.

Quanto ao meu trabalho, há vários meses que não faço nada, mas acho que estou começando outra vez, finalmente – espero. Este vaivém constante é um transtorno, mas aos poucos a gente está se organizando melhor. Além disso, tivemos problemas terríveis com a criadagem, mas achamos que eles estão mais ou menos resolvidos agora […]

O Carlos está enfrentando com toda a coragem os problemas quase insolúveis da cidade do Rio, e naturalmente já está sendo criticado por seus concidadãos ingratos. Há pessoas muito boas trabalhando com ele (algumas sem receber um tostão, como a Lota), e os cariocas vida mansa estão atônitos com o número de horas que eles trabalham e as medidas diretas que estão tomando. Acho que chega de notícias sobre o Brasil. Nem consigo acreditar que estou tão envolvida com estas coisas, e sei tanto a respeito delas, e é claro que a única coisa que tenho a fazer é escrever uns contos, disto eu sei […]

Onde você vai passar as férias este ano? Eu queria era que um dia você resolvesse passá-las aqui.

Carta da poeta Elizabeth Bishop à sua médica em Nova York e mais tarde amiga íntima e confidente, Anny Bauman.

Fonte: “Uma Arte – As Cartas de Elizabeth Bishop”, Companhia das Letras, 1995

*Carlos Lacerda – Vereador, Deputado Federal, Governador do Estado da Guanabara, de 1960 a 1965, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e da Editora Nova Fronteira.

Llosa entrevista Borges

O espanhol El País publicou no domingo passado entrevista inédita feita pelo peruano Mario Vargas Llosa com o argentino Jorge Luis Borges, no apartamento de Borges, na região central de Buenos Aires, em 1981. A conversa entre dois dos maiores nomes da literatura do continente faz parte do novo livro de Llosa, “Medio Siglo com Borges”, que está sendo lançado pela Alfaguara. Matéria na íntegra pelo link https://brasil.elpais.com/cultura/2020-06-14/borges-em-sua-casa-uma-entrevista-de-mario-vargas-llosa.html.

Camões eterno

Hoje, 10/06, celebra-se 440 anos da morte do autor da maior epopéia portuguesa de toda a história da literatura, “Os Lusíadas”. Pouco se sabe ao certo sobre a vida de Luís Vaz de Camões, mas presume-se que tenha morrido aos 56 anos. Aparentemente, nasceu em Lisboa e, embora não se tenha registros oficiais, teria frequentado a Universidade de Coimbra onde teria sido um aluno indisciplinado, mas ávido por conhecimento.

Camões é autor de vasta e reconhecida produção nos gêneros lírico, épico e teatral, mas foram os dez cantos e 1.102 estrofes num total de 8.816 versos decassílabos de “Os Lusíadas”, publicado pela primeira vez em 1572, que o consolidaram para sempre no panteão dos grandes nomes da literatura universal.

As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.

…..
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

— “Os Lusíadas”, Canto I

Nova baixa na cultura

Foto: G1-Globo

Continua a triste escalada do empobrecimento cultural do país. Morreu na sexta-feira (29), aos 63 anos, vítima de um câncer no pâncreas, o jornalista e escritor Gilberto Dimenstein. Com uma carreira de sucesso na escrita, teve uma atuação destacada na cobertura jornalística de temas sociais, que marcaram também sua produção literária. É autor, entre outros títulos, de “A República dos Padrinhos: Chantagem e Corrupção em Brasília” (1988), “As Armadilhas do Poder – Bastidores da imprensa” (1990), “A Guerra dos Meninos – Assassinatos de Menores no Brasil” (1995), “A Democracia em Pedaços” (1996), “O Aprendiz do Futuro” (1997), “O Mistério das Bolas de Gude” (2006), “Fomos Maus Alunos” (2009) e vários outros, em parceria com outros autores, como “O Brasil na Ponta da Língua” (2002), com Pasquale Cipro Neto; “Prazer em Conhecer” (2008), com Miguel Nicolelis e Drauzio Varella e “É Rindo que se Aprende” (2011), com Marcelo Tas.

Dimenstein se dedicou ainda a projetos educacionais, era presidente do conselho da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, em São Paulo, e membro do conselho consultivo do Museu do Amanhã, no Rio. Foi também criador do site Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2012 e apontado pela Universidade de Oxford, BBC e Financial Times como uma das mais importantes inovações digitais de impacto social no mundo em 2013.