Vozes que ecoam 30 anos depois

Imagem publicada pela National Geographic

“E não conseguíamos fazer queijo. Passamos um mês sem nata e sem queijo. O leite não azedava, virava pó, um pó branco. Por causa da radiação. Essa radiação estava na minha horta. A horta ficou toda branca, branca, branca, como se estivesse polvilhada. Eram muitos pedacinhos…Eu pensei que fosse alguma coisa do bosque, que o vento tivesse trazido.”

Trecho de “Vozes de Tchernóbil”, da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura de 2015, lançado aqui pela Companhia das Letras. Obra que, conforme a editora, conta por meio do testemunho de viúvas, trabalhadores, cientistas ainda debilitados pela experiência, soldados e gente do povo a história e os efeitos de uma tragédia nuclear sem precedentes na história, ocorrida há 30 anos na Ucrânia. “Cenas terríveis, acontecimentos dramáticos, episódios patéticos, tudo na história de Tchernóbil aparece com a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. Eis uma obra-prima do nosso tempo.”

Documentário (1h35) lançado por ocasião dos 20 anos do maior acidente nuclear da história

Toni Morrison parte aos 88 anos

Foto: Detroit Free Press

Morreu na última segunda-feira, a escritora norte-americana Toni Morrison.  Nascida em Ohio, Morrison ficou mundialmente conhecida por obras que narram a segregação e o preconceito com os negros ao longo da história do país. Além do Nobel de 1993, já havia sido condecorada também com o Pulitzer em 1988.

“Toni Morrison era um tesouro nacional, boa como contadora de história e cativante pessoalmente do mesmo jeito que em suas páginas. Sua escrita foi um belo e significativo desafio à nossa consciência e à nossa imaginação mortal. Que presente respirar o mesmo ar que ela, mesmo que apenas por um tempo.” Barack Obama

Abaixo cinco livros da autora listados pela Veja como “essenciais”.

“O Olho Mais Azul” – 1970

Primeiro romance da autora, narra a história de uma garota negra da década de 40, que sonha ter olhos azuis. Segundo o The New York Times, “uma prosa tão precisa, tão fiel ao discurso e tão carregada de dor e assombro que o romance se torna poesia”.

“Amada” – 1987

História real de Margaret Garner, escrava que tem sua busca pela liberdade marcada pela complicada relação com a filha nascida durante sua fuga. Foi adaptado para o cinema estrelando Oprah Winfrey como a mãe, Sethe.

“Jazz” – 1992

História de uma jovem baleada pelo amante e que ainda é alvo do ódio da esposa traída, mesmo após sua morte. Segundo volume de uma trilogia iniciada por “Amada”, o livro flerta com o estilo musical do título com diversos narradores apresentando seu ponto de vista.

“Paraíso” – 1998

Completa a trilogia iniciada com “Amada”. Na trama, que tem o mesmo estilo de múltiplas vozes narrativas adotado em “Jazz”, uma cidade fictícia é habitada apenas por negros, que se refugiaram ali depois da escravidão e que se chocam com a chegada de forasteiras.

“Voltar para Casa” – 2012

História de um jovem que volta para casa, em Seattle, depois de lutar na Guerra da Coreia. No retorno, encontra a irmã, oprimida por uma sociedade machista e ambos terão que encontrar novos significados para recomeçar.

As narrativas sobre Chernobyl

A escritora Svetlana Aliexévich em foto de Serge Gritis, da AP, publicada pelo The Nation

Abaixo trecho da entrevista concedida pela escritora bielorrussa, Svetlana Aliexévich – Nobel de Literatura em 2015 – publicada recentemente no site do jornal El País. Autora de obras de grande repercursão como “Vozes de Tchernóbil”, publicado aqui em 2016 pela Companhia das Letras e umas das fontes de recente (e comentadíssima) série da HBO sobre o desastre nuclear de 1986, Svetlana comenta temas que vão do atual cenário político em seu país e na Rússia de Putin às diferentes interpretações que se deram ao “horror” e ainda sua relação com sobreviventes da tragédia. No trecho da entrevista a escritora fala sobre os desafios que a explosão da usina nuclear trouxe à linguagem literária. Matéria completa no link https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/07/internacional/1559926054_845405.html. Na sequência, parte do livro publicado pela Companhia das Letras com alguns dados que dão a dimensão da tragédia.

Entrevista ao El País

“Existe uma cultura e uma tradição para a narrativa da guerra, o que permite que o criador tenha certa margem para se mover, talvez explorando-a e ampliando-a no âmbito dessas tradições. Quando escrevi meu livro sobre Chernobyl, porém, não havia um registro cultural para a narração sobre algo tão desconhecido”. Mas existiam obras premonitórias como Piquenique na Estrada (publicado em 1972), dos irmãos Arkádi e Boris Strugátski, um relato sobre seres que ganham a vida saqueando uma zona proibida, que viola as leis da física, após uma grande tragédia. O cineasta russo Andrei Tarkovski levou aquele testemunho às telas com Stalker (1979). “Os irmãos Strugátski e Tarkovski tiveram a genialidade de adivinhar o desconhecido e fizeram uma incursão em outra época, exploraram uma ameaça antes de que esta se abatesse sobre nós.”

Trecho de nota introdutória do livro “Vozes de Tchernóbil”

“Para a pequena Belarús (com uma população de 10 milhões de habitantes), o acidente representou uma desgraça nacional, levando-se em conta que ali não havia nenhuma central atômica. Tratava-se de um país agrário com predomínio de populações rurais. Nos anos da Segunda Guerra Mundial, os nazistas destruíram 619 aldeias no país, com toda a sua população. Depois de Tchernóbil, o país perdeu 485 aldeias: setenta delas estão sepultadas sob a terra para sempre. A mortalidade na guerra foi de um para cada quatro bielorrussos; hoje, um em cada cinco vive em território contaminado. São 2,1 milhões de pessoas, dentre as quais 700 mil crianças. Dentre os fatores de descenso demográfico, a radiação ocupa o primeiro lugar. Nas regiões de Gómel e Moguilióv (as mais afetadas pelo acidente), a mortalidade superou a natalidade em 20%.”

As cartas de dois mestres da literatura japonesa

A boa dica de lançamento vem em matéria de Antonio Gonçalves Filho, publicada no final de semana pelo O Estado de SP. É “Kawabata-Mishima Correspondência 1945-1970”, que acaba de sair pela Estação Liberdade e mostra a longa e intensa relação intelectual e afetiva entre dois dos principais nomes da literatura japonesa contemporânea: Yasunari Kawabata (1899-1972) e Yukio Mishima (1925-1970).

Kawabata foi o primeiro escritor do país a ganhar o Nobel de Literatura, em 1968, e Mishima, o escritor japonês mais conhecido no mundo ocidental. Ambos morreram de maneira trágica. Em 25 de novembro de 1970 Mishima recorre ao seppuku (ritual suicida praticado por samurais) e, dois anos depois, inconsolável com a perda do discípulo e amigo, Kawabata se mata, inalando gás em casa, no dia 16 de abril de 1972.

Confira alguns títulos dos dois autores lançados no Brasil. Fontes: Livraria da Folha (Kawabata), Companhia das Letras e Estante Virtual (Mishima)

Yasunari Kawabata

-“A Dançarina de Izu”

De 1926, é a primeira obra de destaque do autor, traz temas como o amor impossível, a solidão e a sexualidade velada.

 –“Contos da Palma da Mão”

Reúne textos escritos entre 1923 e 1964 traduzidos diretamente do japonês por Meiko Shimon.

-“A Casa das Belas Adormecidas”

Lançado em 1961, busca desvendar o universo do corpo feminino em um culto ao belo e ao inalcançável.

“A Gangue Escarlate de Asakusa”

Publicada num jornal de Tóquio entre 1929 e 1930, é uma das raras narrativas urbanas do autor.

“Beleza e Tristeza”

Obra de 1965, aborda a sublimação do amor frente ao medo e aos preconceitos da sociedade japonesa.

“Mil Tsurus”

Escrito entre os anos de 1949 e 1951, resgata valores do Japão, fazendo da cerimônia do chá o pano de fundo para a história.

“O País das Neves”

Marco na obra de Kawabata, expõe a densidade e as contradições das relações humanas.

“Kyoto”

De 1962, foi uma das últimas obras finalizadas pelo autor e traz uma narrativa rica em descrições da capital imperial do Japão.

“O Som da Montanha”

Aborda a sociedade japonesa e reflete sobre a vida e a morte, especialmente sobre a possibilidade do suicídio.

Yukio Mishima

“Cores Proibidas”

Lançado pela Companhia das Letras em 2002, narra a história de Shunsuke e sua profunda misoginia.

“Mar Inquieto”

Fábula de inspiração shakespeariana, narra o amor proibido entre um jovem pescador e a filha de um poderoso morador da ilha de Utajima.

 –“Confissões de uma Máscara”

Considerada sua obra-prima, o romance autobiográfico conta a história de um adolescente que descobre sua homossexualidade no Japão da Segunda Guerra.

“O Pavilhão Dourado”

Narrado de forma densa e original, mostra que a beleza absoluta pode ser tão opressiva e enlouquecedora quanto qualquer imperfeição.

“Neve de Primavera”

As tensões entre a velha e a nova aristocracia na Tóquio de 1912.

“O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar”

Uma das mais breves e belas novelas do autor, é visto como uma representação simbólica da sociedade japonesa do pós-guerra.

“Morte em Pleno Verão”

Lançado aqui em 1986 pela Rocco, reúne alguns dos melhores e inspiradores contos de Mishima.

Essenciais do Nobel

Livros essenciais dos últimos 15 vencedores do Nobel de Literatura, em artigo de Jéssica Chiareli, na Seção Livros, da Revista Bula.

Orhan-Pamuk-recebendo-o-Premio-Nobel-de-Literatura-2006
Orhan Pamuk recebendo o Nobel de Literatura 2006

2017 – Kazuo Ishiguro, “Os Vestígios do Dia” (1989)

2016 – Bob Dylan, “Tarântula” (1971)

2015 – Svetlana Alexijevich, “O Fim do Homem Soviético” (2013)

2014 – Patrick Modiano, “Na Rua das Lojas Escuras” (1978)

2013 – Alice Munro, “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento” (2001)

2012 – Mo Yan, “Peito Grande, Ancas Largas” (2012)

2011- Tomas Tranströmer, “Mares do Leste” (1974)

2010 – Mario Vargas Llosa, “Conversa na Catedral” (1969)

2009 – Herta Müller, “Tudo o que Tenho Levo Comigo” (2009)

2008 – Le Clézio, “Refrão da Fome” (2008)

2007 – Doris Lessing, “Debaixo de Minha Pele” (1997)

2006 – Orhan Pamuk, “Meu Nome é Vermelho” (1998)

2005 – Harold Pinter, “Os Anões” (1952-1956)

2004 – Elfriede Jelinek, “A Pianista” (1988)

2003 – J. M. Coetzee, “Desonra” (1999)