Os escritores e a livraria

Imagem: Shakespeare and Company Project/El País

A célebre livraria Shakespeare and Company, fundada em 1919, dedicada à venda de livros em língua inglesa e ainda em pleno funcionamento em Paris continua rendendo história. Matéria recente do espanhol El País mostra que pesquisa do Projeto Shakespeare and Company (https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/22/elviajero/1521711548_692610.html), comandado pelo professor da Universidade de Princeton Joshua Kotin, revelou hábitos de leitura de alguns dos mais célebres nomes da literatura mundial do Século XX. Segundo o jornal, a equipe do projeto comandado por Kotin vem pesquisando há seis anos os arquivos digitalizados da livraria frequentada por gente como Gertrude Stein, James Joyce, Ernest Hemingway, Simone de Beauvoir, Jacque Lacan, Walter Benjamin, Ford Madox Ford e Ezra Pound.

O trabalho já revelou informações como a de que entre as 90 publicações retiradas em empréstimo por Hemingway estão as memórias de Joshua Slocum, “Sailing Alone Around the World” (1900) e um exemplar de um dos seus próprios livros, “Adeus às Armas” (1929). Stein, por sua vez, leu a novela romântica “A Love in Ancient Day” (1908), de Truda H. Crosfield, e “Equality Island” (1919), de Andrew Soutar.

A pesquisa comandada pelo professor Kotin, revela, ainda, que por oito francos e outros sete de depósito era possível solicitar um livro em empréstimo, ou dois se a cifra subisse para 12 francos. O tempo máximo de leitura permitido era de duas semanas para as publicações mais antigas e uma para as mais recentes. A matéria não revela, porém, se algum deles recebeu o desenho de Shakespeare arrancando os cabelos entregue pela livraria aos infratores que atrasavam a devolução dos livros na data combinada. Reportagem na íntegra pelo link https://brasil.elpais.com/cultura/2020-05-19/que-livros-compravam-simone-de-beauvoir-joyce-hemingway-e-lacan-em-paris.html.  

Os melhores começos

Mais uma lista surgida das pesquisas que a revistabula.com realiza periodicamente com seus leitores e colaboradores. Essa seleciona “Os 15 melhores começos de livros da literatura universal” na opinião dos 2,4 mil participantes. A lista foi formada com os que obtiveram mais citações. Os trechos iniciais dos livros podem variar de acordo com as traduções e diferentes edições.   

“Moby Dick”, Herman Melville

Chamem-me simplesmente Ismael. Aqui há uns anos não me peçam para ser mais preciso —, tendo-me dado conta de que o meu porta-moedas estava quase vazio, decidi voltar a navegar, ou seja, aventurar-me de novo pelas vastas planícies líquidas do Mundo. Achei que nada haveria de melhor para desopilar, quer dizer, para vencer a tristeza e regularizar a circulação sanguínea. Algumas pessoas, quando atacadas de melancolia, suicidam-se de qualquer maneira. Catão, por exemplo, lançou-se sobre a própria espada. Eu instalo-me tranquilamente num barco.

“Anna Kariênina”, Lev Tolstói

Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Tudo era confusão na casa dos Oblónski. A esposa ficara sabendo que o marido mantinha um caso com a ex-governanta francesa e lhe comunicara que não podia viver com ele sob o mesmo teto. Essa situação já durava três dias e era um tormento para os cônjuges, para todos os familiares e para os criados. Todos, familiares e criados, achavam que não fazia sentido morarem os dois juntos e que pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estariam mais ligadas entre si do que eles.

“Notas do Subsolo”, Dostoiévski

Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para respeitar a medicina. (Tenho instrução suficiente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não quero me tratar é de raiva. Isso os senhores provavelmente não compreendem.

“Cem Anos de Solidão”, Gabriel García Márquez

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.

-“Grande Sertão: Veredas”, Guimarães Rosa

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo.

-“A Metamorfose”, Franz Kafka

Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se, em sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.

-“O Complexo de Portnoy”, Philip Roth

Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao fim das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha quando eu chegava, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela.

-“A Lua vem da Ásia”, Campos de Carvalho

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.

-“O Apanhador no Campo de Centeio”, J. D. Salinger

Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins — não é isso que estou dizendo — mas são sensíveis pra burro.

-“O Amanuense Belmiro”, Cyro dos Anjos

Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Florêncio propôs, então, um nono, argumentando que outro copo talvez trouxesse a solução geral. Éramos quatro ou cinco, em torno de pequena mesa de ferro, no bar do Parque. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham, com requebros, sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. No caramanchão, outras dançavam maxixe com pretos reforçados, enquanto um cabra gordo, de melenas, fazia a vitrola funcionar.

-“O Ventre”, Carlos Heitor Cony

Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tortura seria interessante se eu a explorasse com critério — mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.

-“Lolita”, Vladimir Nabokov

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial.

-“O Jardim do Diabo”, Luis Fernando Verissimo

Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. Todo homem, depois dos quarenta, abdica das suas fomes, salvo a que o mantém vivo. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça.

-“As Ondas”, Virginia Woolf

O Sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos pouco, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar.

“Dom Quixote”, Miguel de Cervantes

Desocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar. Mas não pude eu contravir a ordem da natureza, que nela cada coisa engendra seu semelhante. E, assim, o que poderá engendrar o estéril e mal cultivado engenho meu, senão a história de um filho seco, murcho, antojadiço e cheio de pensamentos díspares e nunca imaginados por ninguém mais, exatamente como quem foi engendrado num cárcere, onde toda a incomodidade tem assento e onde todo o triste barulho faz sua habitação?

Em ligeira aceleração

Gif: gfycat.com

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a Nielsen acabam de divulgar o primeiro Painel do Varejo de Livros no Brasil de 2020. Segundo o levantamento, na comparação com igual período de 2019, houve aumento de 9,95% no número de livros vendidos e de 8% no faturamento apurado com a venda nos estabelecimentos avaliados. Em números absolutos, a Nielsen diz que foram vendidos 3,6 milhões de exemplares, com um faturamento de R$ 180,8 milhões. As vendas, no entanto, não alcançaram as cifras do mesmo período em 2018, quando foi registrado faturamento de mais de R$ 216 milhões e venda de 4 milhões de exemplares.

Os dez mais de 2020

Os 10 livros mais vendidos nos primeiros dezenove dias do ano, segundo pesquisa da Publishnews. O ranking é uma amostra apurada a partir da soma das vendas das 17 livrarias consultadas. No primeiro lugar, com 5.826 exemplares vendidos, aparece um best-seller de autoajuda. Na décima posição, com 2.139 livros comercializados, um “guia” de administração financeira.

“A Sutil Arte de Ligar o Foda-se”, Mark Manson – Intrínseca

“Do Mil ao Milhão”, Thiago Nigro – Harper Collins

“Mais Esperto que o Diabo”, Napoleon Hill – CDG

“O Milagre da Manhã”, Hal Elrod – BestSeller

“Escravidão”, Laurentino Gomes – Globo Livros

“Seja Foda!”, Caio Carneiro – Buzz

“A Garota do Lago”, Charlie Donlea – Faro Editorial

“Como Fazer Amigo e Influenciar Pessoas”, Dale Carnegie – Companhia Editora Nacional

“Mindset”, Carol Dweck – Objetiva

“Os Segredos da Mente Milionária”, T. Harv Eker – Sextante

Os mais ouvidos

Os dez audiolivros mais vendidos na Auti Books, plataforma que tem como sócios as editoras Sextante, Intrínseca, Record e o fundo de investimentos Bronze Ventures.

 –“O Último Desejo”, Andrzej Sapkowski – WMF Martins Fontes

“Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, Dale Carnegie – Sextante

“Duny: Meu Livro. Eu que Escrevi – Girls in the House”, Raony Philips – Intrínseca

“As Armas da Persuasão”, Robert B. Cialdini – Sextante

“Sapiens”, Yuval Noah Harari – L&PM

“Os Segredos da Mente Milionária”, T. Hary Eker – Sextante

“A Neurociência da Felicidade”, Rosana Alves – MK Books

“O Poder do Agora”, Eckhart Tolle – MK Books

“21 Lições para o Século 21”, Yuval Noah Harari – Companhia das Letras

“Atenção Plena – Mindfulness” – Danny Penman e Mark Williams – Sextante