Os 67 anos de Ana Cristina

A escritora em foto do acervo do Instituto Moreira Salles

A poeta, ensaista e tradutora carioca, Ana Cristina Cesar completaria 67 anos de vida no dia de hoje. A escritora, expoente da literatura marginal da década de 70 passada, suicidou aos trinta e um anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, localizado no sétimo andar de um edifício da rua Toneleros, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Fagulha

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Do livro “A teus pés”, edição de 1982 da Brasiliense.

O soneto de Arvers por Mindlin e Dom Pedro II

Soneto do poeta e dramaturgo francês Félix Arvers (1806-1850), lembrado pelo bibliófilo José Mindlin, no livro “No Mundo dos Livros”, na sua versão original, numa tradução de D. Pedro II e em outra do próprio Mindlin.

Sonnet d’Arvers

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère:

Un amour éternel en un moment conçu.

Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,

Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! J’aurais passé d’elle inaperçu,

Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,

Et j’aurais jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,

N’osant rien demander et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,

Elle suit son chemin, distraite, et sans entendre

Ce murmure d’amour élevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,

Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:

“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.

Minha alma tem um segredo, minha vida um mistério:

Um amor imortal nascido num momento.

O mal é sem remédio, devo, pois, ocultá-lo,

E aquela que o causou, nunca soube de nada.

Terei passado a vida perto dela,

Sempre ao seu lado, e sempre solitário,

E irei até o fim de minha vida,

Sem nada pedir e sem nada receber.

Quanto a ela, embora Deus a tenha feito doce e terna,

Segue seu caminho, distraída, e sem ouvir

Este murmúrio de amor que se eleva a seus pés;

Piamente fiel ao austero dever,

Lendo esses versos e se maravilhando, perguntar-se-á:

“Quem então será essa mulher?”, e não perceberá.

(Tradução de José Mindlin)

Segredo d’alma, da existência arcano,

Eterno amor num instante concebido,

Mal sem esperança, oculto a ente humano,

E nunca de quem fê-lo conhecido.

Ai! Perto dela desapercebido

Sempre a seu lado, e só, cruel engano,

Na terra gastarei meu ser insano

Nada ousando pedir e havendo tido!

Se Deus a fez tão doce e carinhosa,

Contudo ainda inatenta e descuidosa

Do murmúrio de amor que a tem seguido.

Piamente ao cru dever sempre fiel

Dirá lendo a poesia, seu painel:

“Que mulher é?” sem tê-lo compreendido.

(Tradução de Dom Pedro II)

El País entrevista Cardenal

Cardenal é repreendido ao tentar beijar a mão de João Paulo II, no aeroporto de Manágua, em março de 1983

O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal, 94 anos, um dos maiores defensores da Teologia da Libertação na América Latina e ministro da Cultura no primeiro governo de Daniel Ortega, é o entrevistado de matéria publicada no final de semana pelo El País (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/20/internacional/1555774595_576493.html).

Na entrevista a Javier Lafuente, Cardenal se reafirma um perseguido político e diz que, sobre o confronto com o papa João Paulo II, em 1984, a sanção papal não o afetou: “Meu sacerdócio é diferente, é pastoral. Eu me tornei sacerdote pela união com Deus, é algo místico”.

Abaixo, poema de 1961.

Epigramas

Te dou Claudia, estes versos, porque tu és a dona
os escrevi simples para que tu os entendas.
São para ti somente, mas se a ti não te interessam,
um dia se divulgarão, talvez por toda Hispanoamerica…
e se ao amor que os ditou, tu também o desprezas,
outras sonharão com este amor que não foi para elas.
E talvez verás, Claudia, que estes poemas,
(escritos para conquistar-te) despertam
em outros casais enamorados que os leiam
os beijos que em ti não despertou o poeta.

Ao perder-te eu a ti, tu e eu perdemos:
Eu, porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era o que te amava mais
mas de nós dois tu perdes mais que eu:
porque eu poderei amar a outras como te amava a ti,
mas a ti não te amarão como te amava eu.

Moças que algum dia leiam emocionadas estes versos
e sonheis com um poeta:
Sabei que eu os fiz para uma como vós
e que foi em vão.

Epigramas

Te doy Claudia, estos versos,
porque tú eres su dueña.
Los he escrito sencillos
para que tú los entiendas.
Son para ti solamente,
pero si a ti no te interesan,
un día se divulgarán,
tal vez por toda Hispanoamérica…
Y si al amor que los dictó,
tú también lo desprecias,
otras soñarán
con este amor
que no fue para ellas.
Y tal vez verás,
Claudia,
que estos poemas,
(escritos para conquistarte a ti)
despiertan
en otras parejas
enamoradas que los lean
los besos que en ti
no despertó el poeta.

Al perderte yo a ti,
tú y yo hemos perdido:
yo, porque tú eras
lo que yo más amaba,
y tú, porque yo era
el que te amaba más.
Pero de nosotros dos,
tú pierdes más que yo:
porque yo podré
amar a otras
como te amaba a ti,
pero a ti nadie te amará
como te amaba yo.

Muchachas que algún día
leaís emocionadas estos versos
Y soñéis con un poeta
Sabed que yo los hice
para una como vosotras
y que fue en vano.