Gullar no Brasil de 64

Agosto 1964

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira

Do poeta, escritor, tradutor e teatrólogo, Ferreira Gullar (1930-2016), considerado um dos maiores autores brasileiros do século 20 e um dos fundadores do neoconcretismo, movimento artístico que propunha uma reação ao concretismo ortodoxo.

A poesia do “Boca do inferno”

Caetano canta “Triste Bahia”, do álbum “Transa”, de 1972, em apresentação no Circo Voador

À CIDADE DA BAHIA

Triste Bahia! oh, quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado,
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh, se quisera Deus que, de repente,
Um dia amanheceras tão sizuda
Que fora de algodão o teu capote!

De Gregório de Matos, o “Boca do Inferno” – tema de romance histórico assinado pela pesquisadora e poeta Ana Miranda, lançado em 1989 pela Companhia das Letras.

Nascido em Salvador em 20 de dezembro de 1636, faleceu em Fortaleza em data imprecisa de 1695, segundo a Academia Brasileira de Letras. Ganhou o apelido pela mordacidade de seu poemas, ainda conforme a ABL, uma inesgotável fonte satírica que “não poupava ao governo, à falsa nobreza da terra e nem mesmo ao clero. Não lhe escaparam os padres corruptos, os reinóis e degredados, os mulatos e emboabas, os ‘caramurus’, os arrivistas e novos-ricos, toda uma burguesia improvisada e inautêntica, exploradora da colônia”.

Hilda para “crionças”

Hilda em 1944. Foto do acervo do Itaú Cultural.

Homenageada da edição passada da Flip, a escritora Hilda Hilst ganha sua primeira edição para crianças. Segundo notícia do blog eraoutravez, da Folha, “Eu Sou a Monstra – Hilda Hilst para Crionças” é um poema infantil publicado na forma de um livreto, ilustrado pela própria escritora,com costura externa e pinta de artesanal. Para o blogueiro Bruno Molinero “os versos funcionam como introdução à obra da autora –com um ingrediente raro: eles são capazes de seduzir tanto crianças quanto adultos”. O livro, com 54 páginas, é um lançamento da editora Quelônio.

Poesia para maiores de cem

A antologia “Só Para Maiores de Cem Anos”, do poeta chileno Nicanor Parra, lançada pela Editora 34, e considerada “Excepcional” pela recente edição do caderno Eu&Fim de Semana, do Valor Econômico, é a primeira grande antologia do irmão mais velho da cantora Violeta Parra – e matemático reconhecido mundialmente – publicada no país. A edição bilíngue reúne 75 poemas de seus principais livros, traduzidos por Joana Barossi e Cide Piquet.

Morto em janeiro do ano passado, aos 103 anos idade, o poeta é considerado por nomes como o crítico Harold Bloom e o escritor Roberto Bolaños, um dos maiores poetas do Ocidente.

Abaixo poema do autor publicado no site escritas.org.

Manchas na Parede

Antes que caia a noite total
havemos de estudar as manchas na parede:
umas parecem plantas
outras assemelham-se a animais mitológicos.

Hipogrifos,
dragões,
salamandras.

Mas as mais misteriosas de todas
são as que parecem explosões atómicas.

No cinema da parede
a alma vê o que o corpo não vê:
homens ajoelhados
mães com criaturas nos braços
monumentos equestres
sacerdotes erguendo a hóstia:

órgãos genitais que se ajuntam.

Mas as mais extraordinárias de todas
são
sem dúvida alguma
as que parecem explosões atómicas.