Para redescobrir Lima

Pouco comentado nos dias de hoje, o poeta alagoano Jorge de Lima (1893-1953) deve ganhar novos públicos a reboque do récem-lançado “O Grande Circo Místico”, do cineasta Cacá Diegues. O filme, exibido recentemente no Festival de Cannes, é uma adaptação do poema homônimo, parte do livro A Túnica Inconsútil, de 1938.

Abaixo romances e obras poéticas de Lima e um trecho do poema “Essa negra Fulô”.  

Essa negra fulô

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

(…)

POESIA

-“XIV Alexandrinos” – 1914

“O Mundo do Menino Impossível” – 1925

-“Poemas” – 1927

-“Novos Poemas” – 1929

-“O Acendedor de Lampiões” -1929

-“Tempo e Eternidade” – 1935

-“A Túnica Inconsútil” – 1938

-“Anunciação e Encontro de Mira-Celi” – 1943

-“Poemas Negros” – 1947

-“Livro de Sonetos” – 1949

-“Obra Poética” – 1950

-“Invenção de Orfeu” – 1952

-“Antologia Poética” – 1962

ROMANCES

-“O Anjo” – 1943

-“Calunga” – 1935

-“A Mulher Obscura” – 1939

-“Guerra Dentro do Beco” – 1950

Eliot todo dia

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PRELÚDIOS

I

A tarde de inverno cai

Cheirando a bife nas vielas.

Seis horas.

Pontas queimadas de um dia fumarento.

E agora o aguaceiro e o vento

Enroscando em teus pés

Pedaços sujos de folhas mortas

E jornais de terrenos baldios;

Cai a chuvarada

Nas chaminés, nas rótulas quebradas.

A um ângulo da rua, solitário,

Um cavalo fumega os pés batendo.

E então as luzes se acendendo.

II

Da cama afastaste as cobertas

E à espera, de costas, deitada,

Ficaste com sono a atentar

Para as mil sórdidas imagens

Que a tua alma estruturavam

E que à noite se revelavam

No teto a revolutear.

E quando o mundo regressava:

A luz filtrando pelas frestas

Na calha chilreando os pardais

Ligaste à rua visões tais

Que mal a rua compreende.

No leito posta de través

Teus papelotes retiravas

Ou com as mãos sujas agarravas

A planta amarela dos pés.

III

Sua alma fixada no céu

Que atrás de um quarteirão se apaga,

Ou por tenazes pés calcada

Das quatro à cinco e cinco às seis;

E os dedos curtos e os cachimbos

E os jornais da tarde e o olhar

Seguro de certas certezas;

E a consciência de uma rua

Enegrecida e na impaciência

De o mundo assumir, apresar.

Movem-me sonhos que envolvem essas

Imagens e aderem: a noção

De algo suave infinitamente

E sofrendo infinitamente.

 

Esfregue as mãos na boca e ria;

Os mundos giram como velhas

Catando lenha em chão baldio.

T. S. Eliot

Cambridge, 1910

Seleção Emily

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Noites bravias! Noites bravias!

Estivesse eu contigo,

Noites bravias seriam

Nossa luxúria!

 

Fúteis os ventos

Para um coração no porto:

Ajustado à bússola

Ajustado ao mapa.

 

Vogando no Éden

Ah! o mar!

Se eu pudesse ancorar

Em ti esta noite!

 

Wild nights! Wild nights!

Were I with thee,

Wild nights should be

Our luxury!

 

Futile the winds

To a heart in port,

Done with the compass

Done with the chart.

 

Rowing in Eden!

Ah! the sea!

Might I but moor

To-night in thee!

 

Emily Dickinson

O modernismo de Eliot

Undated and unlocated picture of American British-
O poeta modernista Thomas Stearns Eliot , Nobel de Literatura de 1948 e considerado um dos poetas mais influentes do século XX, em foto do Huffington Post

A Terra Desolada

T. S. Eliot

Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro.

Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo.

Disse-me ele, Maria, Maria, agarra-te firme.

E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

 

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.