Um homem de idade, uma mulher de azul

The Circus RiderDate, de Marc Chagall – 1927

DIREITO DE PASSAGEM

Ao caminhar sem pensar

em nada deste mundo

a não ser no direito de passagem

desfruto a estrada

virtude da lei –

vi

um homem de idade que

sorriu e desviou o olhar

para o norte, para lá de uma casa –

uma mulher de azul

ria-se e

inclinava-se para diante para ver

o rosto meio voltado

do homem

e um menino de oito anos que

olhava para o meio

da barriga do homem

para uma corrente de relógio –

A suprema importância

de tão anônimo espectáculo

fez-me passar por eles depressa

sem dizer palavra –

Que importa para onde ia?

e lá fui rodando nas

quatro rodas do meu carro

pela estrada molhada até que

vi uma rapariga com uma perna

sobre o parapeito de um balcão

THE RIGHT OF WAY

In passing with my mind

on nothing in the world

but the right of way

I enjoy on the road by

virtue of the law –

I saw

an elderly man who

smiled an looked away

to the north pas a house –

a woman in blue

Who was laughing and

learning forward to look up

into the man’s half

averted face

and a boy of eight who was

looking at the middle of

the man’s belly

at a watchchain –

The supreme importance

of this nameless spectacle

sped me by them

without a word –

Why bother where I went?

for I went spinning on the

four wheels of my car

along the wet road until

I saw a girl with one leg

over the rail of a balcony

Poema de William Carlos Williams, do livro “Antologia Breve”, da editora Assírio e Alvim.

O romantismo de Keats

ODE SOBRE A INDOLÊNCIA

I

Numa certa manhã eu vi as três as figuras,
Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,
Seguindo atrás da outra, mudas e seguras,
Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;
Como formas de mármore em alto-relevo
Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face
Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,
Mostraram-se mais uma vez como as descrevo,
E eram-me tão estranhas como se as achasse
Numa ânfora de Fídias um pesquisador.

II

Como é possível, Sombras, que eu não as conheça,
Máscaras mudas que se movem para mim?
Que plano silencioso tinham na cabeça
Para a minha indolência arrebatar assim?
Era a hora madura e eu já me comprazia
Na abençoada nuvem de ócio do verão.
Pesado o olhar, a pulsação quase parada,
Os prazeres sem cor e a vida já vazia.
Ah! por que não desaparecem e se vão,
E me deixam em paz, sozinho, com meu – nada?

III

Uma terceira vez romperam minha paz as
Figuras mudas; cada qual por um momento
Me olhou de frente, e eu só queria era ter asas
Para segui-las e saber do seu intento;
A primeira, uma bela moça, era o Amor;
A segunda, de rosto pálido e sem viço
E olhos cansados, a Ambição que a tudo via.
A última, a que eu mais amo, e a quem o desfavor
Persegue, era uma jovem com ar insubmisso;
Essa era o meu demônio – a Poesia.

IV

Foram-se as três e eu só queria asas ainda;
Loucura! O que é o Amor? Quem sabe onde ele mora?
Quanto à Ambição! – é desprezível, porque vinda
De um coração pequeno, a febre de uma hora;
À Poesia! – não doa uma só alegria, –
Ao menos para mim, – de dia imersa em suas
Cismas; à noite, no ópio do seu tédio imenso;
Pudesse eu ter uma era livre de agonia,
Sem conhecer jamais a mutação das luas
Nem ouvir nunca a voz penosa do bom-senso!

V

E uma vez mais vieram; – ah! por que razão?
Meu sono se adornava de secretos sonhos,
Minha alma era uma relva, flores pelo chão,
Com sombras sugestivas e raios risonhos;
A névoa da manhã não me trazia chuva;
Nas pálpebras de maio, só lágrimas prestes;
Calor, botões em flor, um tordo ia cantar,
E da janela aberta eu via a vide e a uva;
Sombras, a hora do adeus chegou; em suas vestes
Nenhuma lágrima desceu do meu olhar.

VI

Adeus, meus três fantasmas! Não há quem me faça
Erguer esta cabeça da relva e das flores.
Não quero ser a ovelha-guia de uma farsa,
Nem seguirei uma dieta de louvores.
Voltem a ser figuras-máscaras de urna.
Adeus! deixem morrer de tedio a minha mente.
Visões? Já tenho a minha provisão noturna,
E outras, mais tênues, para as horas matinais.
Retirem-se, de vez, do meu ser indolente,
Para as nuvens dos céus, e não voltem jamais.

.

ODE ON INDOLENCE

I

One morn before me were three figures seen,
With bowèd necks, and joinèd hands, side-faced;
And one behind the other stepp’d serene,
In placid sandals, and in white robes graced;
They pass’d, like figures on a marble urn,
When shifted round to see the other side;
They came again; as when the urn once more
Is shifted round, the first seen shades return;
And they were strange to me, as may betide
With vases, to one deep in Phidian lore.

II

How is it, Shadows! that I knew ye not?
How came ye muffled in so hush a mask?
Was it a silent deep-disguisèd plot
To steal away, and leave without a task
My idle days? Ripe was the drowsy hour;
The blissful cloud of summer-indolence
Benumb’d my eyes; my pulse grew less and less;
Pain had no sting, and pleasure’s wreath no flower:
O, why did ye not melt, and leave my sense
Unhaunted quite of all but—nothingness?

III

A third time pass’d they by, and, passing, turn’d
Each one the face a moment whiles to me;
Then faded, and to follow them I burn’d
And ached for wings, because I knew the three;
The first was a fair Maid, and Love her name;
The second was Ambition, pale of cheek,
And ever watchful with fatiguèd eye;
The last, whom I love more, the more of blame
Is heap’d upon her, maiden most unmeek,—
I knew to be my demon Poesy.

IV

They faded, and, forsooth! I wanted wings:
O folly! What is Love? and where is it?
And for that poor Ambition! it springs
From a man’s little heart’s short fever-fit;
For Poesy!—no,—she has not a joy,—
At least for me,—so sweet as drowsy noons,
And evenings steep’d in honey’d indolence;
O, for an age so shelter’d from annoy,
That I may never know how change the moons,
Or hear the voice of busy common-sense!

V

And once more came they by:—alas! wherefore?
My sleep had been embroider’d with dim dreams;
My soul had been a lawn besprinkled o’er
With flowers, and stirring shades, and baffled beams:
The morn was clouded, but no shower fell,
Tho’ in her lids hung the sweet tears of May;
The open casement press’d a new-leaved vine,
Let in the budding warmth and throstle’s lay;
O Shadows! ’twas a time to bid farewell!
Upon your skirts had fallen no tears of mine.

VI

So, ye three Ghosts, adieu! Ye cannot raise
My head cool-bedded in the flowery grass;
For I would not be dieted with praise,
A pet-lamb in a sentimental farce!
Fade softly from my eyes, and be once more
In masque-like figures on the dreamy urn;
Farewell! I yet have visions for the night,
And for the day faint visions there is store;
Vanish, ye Phantoms! from my idle spright,
Into the clouds, and never more return!


John Keats – “Byron e Keats – entreversos”. Tradução Augusto de Campos

O mar de Drummond

William Turner/National Gallery

O MAR, NO LIVING

O mar entra no living

mal a primeira tinta

do dia se define.

Passa pelo vidro

e em pouco submergem

pessoas e tapetes,

poltronas, gestos,

nomes,

quadros,

vozes.

O mar tudo recobre

sem nada asfixiar.

No côncavo marinho

o ir-e-vir espelha

a vida costumeira

de peixes adestrados

que observam a lei

de viventes em casa.

Ao meio-dia, o mar

instala-se por completo

nos metais e na pele

dos moradores.

Deixa esparso no ar

um tremor de prata

incendiada.

Pela tarde singramos

o mar e nos quedamos

na mesma onda imóvel

que na beira dos copos

junta ao álcool dourado

a amargura do sal

sem que sal se perceba.

Quando a noite descerra

as pétalas de sombra

sem recorte sonâmbulo

de lua sobre as águas,

e o sono deposita-se

em cada castiçal,

cinzeiro, campanhia

e dobra de cortina,

e os passos amortecem

no surdo corredor,

eis que o mar se retira

para si mesmo e longe,

ou nós é que emergimos

da espessura das águas

tornadas invísiveis.

O mar chega de volta,

mal a primeira tinta

se define, do dia,

e o living, baía,

com todo o mobiliário

e pessoas, imersos,

prossegue o balouçante

estar sozinho e verde,

verdisozinho imenso

em pura escuridão.

Carlos Drummond de Andrae, “As Impurezas do Branco”

Elizabeth no Rio

Foto: Enciclopédia Itaú Cultural

 À doutora Anny Bauman

Rio de Janeiro, 2 de maio de 1961

A Lota está dirigindo as obras de um aterro enorme à margem de uma das baías do Rio. O cargo dela é “coordenadora-chefe” – é demais! Alguns dos melhores arquitetos estão trabalhando com ela, e também o Burle Marx, que é o melhor paisagista tropical que há, a meu ver; e como o Rio é uma grande família, pelo menos o mundo intelectual, estas pessoas são todas velhas amigas. Além disso, e infelizmente, existem os departamentos de Parques e Jardins e de Transporte, e generais-de-brigada, e muitos, mas muitos burocratas inertes que é preciso enfrentar, e ciúmes, e politicagens, e mais a Situação da Mulher aqui! A meu ver, a Lota está se saindo muitíssimo bem. Fico admirada sempre que a vejo em atividade, ou quando a ouço falando pelo telefone com essa gente difícil. É muito trabalho; ficamos no Rio de segunda a sexta todas as semanas agora, e a Lota nunca vai se deitar, e o número de “cafezinhos” que ela toma é assombroso.

Foi muito inteligente da parte do Carlos* aproveitar os talentos da Lota finalmente, a meu ver – mas ela se recusaa aceitar um salário (o que talvez seja uma boa idéia para neutralizar certas críticas). Seja como for, o que antes ia ser uns dois quilômetros de pistas nuas cercadas por um parque sem sombra e sem nada de interessante agora vai ter bastante sombra, playgrounds, dois restaurantes, cafés ao ar livre, pistas de dança etc. – se tudo correr bem. A Lota tem mil idéias boas e viáveis.

Claro que isso é muito mais importante que viajar, por ora, de modo que adiamos nossos planos. Por outro lado, a Lota nunca teve tantas preocupações na vida, coitada – mas tenho certeza de que apesar disso ela está muito mais feliz, agora que finalmente tem um trabalho. Vai sair um suplemento dominical sobre o projeto em breve, e se as fotos saírem boas eu lhe mando um exemplar.

Quanto ao meu trabalho, há vários meses que não faço nada, mas acho que estou começando outra vez, finalmente – espero. Este vaivém constante é um transtorno, mas aos poucos a gente está se organizando melhor. Além disso, tivemos problemas terríveis com a criadagem, mas achamos que eles estão mais ou menos resolvidos agora […]

O Carlos está enfrentando com toda a coragem os problemas quase insolúveis da cidade do Rio, e naturalmente já está sendo criticado por seus concidadãos ingratos. Há pessoas muito boas trabalhando com ele (algumas sem receber um tostão, como a Lota), e os cariocas vida mansa estão atônitos com o número de horas que eles trabalham e as medidas diretas que estão tomando. Acho que chega de notícias sobre o Brasil. Nem consigo acreditar que estou tão envolvida com estas coisas, e sei tanto a respeito delas, e é claro que a única coisa que tenho a fazer é escrever uns contos, disto eu sei […]

Onde você vai passar as férias este ano? Eu queria era que um dia você resolvesse passá-las aqui.

Carta da poeta Elizabeth Bishop à sua médica em Nova York e mais tarde amiga íntima e confidente, Anny Bauman.

Fonte: “Uma Arte – As Cartas de Elizabeth Bishop”, Companhia das Letras, 1995

*Carlos Lacerda – Vereador, Deputado Federal, Governador do Estado da Guanabara, de 1960 a 1965, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e da Editora Nova Fronteira.

Camões eterno

Hoje, 10/06, celebra-se 440 anos da morte do autor da maior epopéia portuguesa de toda a história da literatura, “Os Lusíadas”. Pouco se sabe ao certo sobre a vida de Luís Vaz de Camões, mas presume-se que tenha morrido aos 56 anos. Aparentemente, nasceu em Lisboa e, embora não se tenha registros oficiais, teria frequentado a Universidade de Coimbra onde teria sido um aluno indisciplinado, mas ávido por conhecimento.

Camões é autor de vasta e reconhecida produção nos gêneros lírico, épico e teatral, mas foram os dez cantos e 1.102 estrofes num total de 8.816 versos decassílabos de “Os Lusíadas”, publicado pela primeira vez em 1572, que o consolidaram para sempre no panteão dos grandes nomes da literatura universal.

As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.

…..
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

— “Os Lusíadas”, Canto I