Drummond inédito

Abaixo, um dos três poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade, publicados na última edição do caderno “Ilustríssima”, do jornal FSP. Os poemas fazem parte de “Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto”, que acaba de ser lançado pela Editora Unesp. O livro foi organizado por Marcelo Bortoloti e reúne cartas trocadas entre os dois escritores, além de poemas enviados por Drummond para a apreciação de Couto, alguns deles publicados em jornais e outros inéditos. 

Choque

Tomei o bonde.
Sentei.
Abri o jornal.
Cacete.
Olhei à toa.
Anúncios ilustrados
apregoavam utilidades.
Foi então que encontrei
nos vimos
e intimamente nos amamos.
Me olhou só.
Não foi mais do que isso
nem lhe pedi mais.
Não a bolinei.
Não nos despedimos.
Até hoje não tornei a vê-la
não sei se a verei nunca.
Não foi mais do que isso.
Foi muito pouco
e foi tudo.

O gato de Eliot

Curious Cat/Tozé Fonseca/Olhares – Fotografia Online

Do livro “T. S. Eliot – Poemas”, com tradução de Caetano W. Galindo para a edição da Companhia das Letras.

O Gato Bento se Apresenta

Eu era Pirata, singrei Sete Mar –

Mas se aposentei e piciso de grana;

Por isso cêis me acha aqui nesse lugar,

Cuidano da porta dum prédio bacana.

Apriceio cumê tudo os bicho da asa

E um leite bem gordo, no prato ou na cuia;

Aceito uns golinho pur conta da casa

E um pêxe sargado, dispois da patruia.

Sô meio grossero, sô meio sem jeito,

Mas cuido do pelo, ando tudo pimpão.

Os povo comenta, e pra mim tá perfeito:

“O Bento é direito, tem bão coração.”

Sufri coisas feia nos mar do estrangero,

A voz é orrive, num tenho talento;

Mas posso afirmá, e eu não sô de exagero,

Que tem umas moça que adora esse Bento.

Então, pra falá co chefão, o iditor,

Te dô essa dica, que é tudo que importa:

É muito mais útil, tem bem mais valor,

Fazê amizade co Gato da porta.

BENTO.

Cat Morgan Introduces Himself

I once was a Pirate what sailed the ‘igh seas –

But now I’ve retired as a com-mission-aire:

And that’s how you find me a-tankin’ my ease

And keepin’ the door in a Bloomsbury Square.

I’m partial to partridges, likewise to grouse,

And I favour that Devonshire cream in a bowl;

But I’m allus content with a drink on the ‘ouse

And a bit o’ cold fish when I done me patrol.

I ain’t got much polish, me manners is gruff,

But I’ve got a good coat, and I keep meself smart;

And everyone says, and I guess that’s enough:

‘You can’t but like Morgan, ‘e’s got a kind ‘ art.’

I got knocked about on the Barbary Coast,

And me voice it ain’t no sich melliferous horgan;

But yet I can state, and I’m not one to boast,

That some of the gals is dead keen on old Morgan.

So if you ‘ave business with Faber – or Faber –

I’ll give you this tip, and it’s worth a lost more:

You’ll save yourself time, and you’ll spare yourself labour

If jist you make friends with the Cat at the door.

MORGAN.

Gullar por Silvio Tendler

Foto: EBC

Depois de levar para as telas documentários de sucesso sobre figuras como Jango, Juscelino Kubitschek e Glauber Rocha, o poeta maranhense Ferreira Gullar, morto em dezembro de 2016 aos 86 anos, é tema do novo longa do diretor Silvio Tendler, “Ferreira Gullar – Arqueologia do Poeta”, em fase de pré-lançamento no país.

Tendler era amigo do poeta e já havia se inspirado no seu “Poema Sujo” para as produções “Há Muitas Noites na Noite”, uma vídeo instalação, de 2011, e a série documental de mesmo nome exibida no final de 2015 na TV Brasil.

Mistral para pequenos

Catalan Ramos/MutualArt

Abaixo poema da chilena Gabriela Mistral (1889-1957), Nobel de Literatura em 1945 e de quem, segundo o caderno “Ilustríssima”, da FSP, será lançado em breve, pela Olho de Vidro, “Balada da Estrela e Outros Poemas”, coletânea de temática infantil e rural, marcada por forte musicalidade e inédita no Brasil.

Noite

As montanhas se desfazem,
e o gado está perdido;
o sol regressa à fornalha:
todo o mundo está fugido.
Vai-se apagando o pomar,
a granja está submersa,
minha cordilheira esconde
a crista e o grito de alerta.
As criaturas deslizam
de soslaio até o limbo,
e nós dois também rolamos
rumo à noite, meu filho.