Seleção Emily

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Noites bravias! Noites bravias!

Estivesse eu contigo,

Noites bravias seriam

Nossa luxúria!

 

Fúteis os ventos

Para um coração no porto:

Ajustado à bússola

Ajustado ao mapa.

 

Vogando no Éden

Ah! o mar!

Se eu pudesse ancorar

Em ti esta noite!

 

Wild nights! Wild nights!

Were I with thee,

Wild nights should be

Our luxury!

 

Futile the winds

To a heart in port,

Done with the compass

Done with the chart.

 

Rowing in Eden!

Ah! the sea!

Might I but moor

To-night in thee!

 

Emily Dickinson

O modernismo de Eliot

Undated and unlocated picture of American British-
O poeta modernista Thomas Stearns Eliot , Nobel de Literatura de 1948 e considerado um dos poetas mais influentes do século XX, em foto do Huffington Post

A Terra Desolada

T. S. Eliot

Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro.

Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo.

Disse-me ele, Maria, Maria, agarra-te firme.

E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

 

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

A onomatopéia rítmica de Bandeira

No vídeo, o trem por Villa-Lobos/Gismonti.

 

TREM DE FERRO

Manuel Bandeira (Estrela da Manhã)

Café com pão

Café com pão

Café com pão

Virge Maria que foi isto maquinista?

 

Agora sim

Café com pão

Agora sim

Voa, fumaça

Corre, cerca

Aí seu foguista

Bota fogo

Na fornalha

Que eu preciso

Muita força

Muita força

Muita força

 

Oô…

Foge, bicho

Foge, povo

Passa ponte

Passa poste

Passa pasto

Passa boi

Passa boiada

Passa galho

De ingazeira

Debruçada

No riacho

Que vontade

De cantar!

 

Oô…

Quando me prendero

No canaviá

Cada pé de cana

Era um oficiá

Oô…

Menina bonita

Do vestido verde

Me dá tua boca

Pra matá minha sede

Oô…

Vou mimbora vou mimbora

Não gosto daqui

Nasci no sertão

Sou de Ouricuri

Oô…

Vou depressa

Vou correndo

Vou na toda

Que só levo

Pouca gente

Pouca gente

Pouca gente…

Drummond sempre

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Postal de 1924/Foto: Portaldascolecoes

O PASSADO PRESENTE

Vejo o Conde d’Eu no Grande Hotel.

Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.

O fantasma da Monarquia

é o terceiro invisível, interlocutor.

Lá fora o sol encandece, republicano.

Ah, nunca pensei que o passado existisse

assim tocável, a mexer-se.

Existe. E fala baixo. Daqui a pouco

toma o trem da Central, rumo ao silêncio.

(BOITEMPO II – Editora Record)

 

Hoje e amanhã

fernando pessoa
Poema de 1928 do mais universal dos poetas de língua portuguesa, Fernando Pessoa (1888-1935)
Hoje Estou Triste, Estou Triste
Hoje stou triste, stou triste.
Starei alegre amanhã…
O que se sente consiste
Sempre em qualquer coisa vã.Ou chuva, ou sol, ou preguiça…
Tudo influi, tudo transforma…
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.Uma verdade por dia…
Um mundo por sensação…
Stou triste. A tarde está fria.
Amanhã, sol e razão.