Os destaques de 2019

Fiscais da Prefeitura em atuação na Bienal do Rio. Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Fatos que marcaram o ano no mundo da literatura, conforme retrospectiva publicada em verbetes pelo “Eu&Fim de Semana”, do Valor Econômico.

-Censura na BIENAL DO RIO – O Tribunal de Justiça do Estado autorizou o prefeito Marcelo Crivella a recolher a HQ “Vingadores, a Cruzada das Crianças” em função do beijo gay retratado na história.

-Prêmio Camões para o escritor e compositor CHICO BUARQUE, marcado pela recusa do presidente da República em assinar o Diploma da premiação.

-A atriz FERNANDA MONTENEGRO lançou, aos 90 anos, sua autobiografia “Prólogo, Ato, Epílogo”.

-Morreu aos 49 anos, após uma crise de asma, a escritora e roteirista FERNANDA YOUNG.

-Depois de um 2018 sem premiação, o NOBEL deste ano teve dois premiados: a polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke. A premiação de Handke rendeu uma série de críticas globais pelo apoio público do escritor a Slobodan Milosevic, ex-presidente sérvio condenado por crimes contra a humanidade.

Merece menção, também, o ano marcado pelo processo de RECUPERAÇÃO JUDICIAL de grandes redes de livrarias como a Cultura e a Saraiva; a morte, aos 88 anos, de TONI MORRISON e a consagração das mulheres, que além do Nobel para a polonesa Tokarczuk, reconheceu também o talento de nomes como o da italiana ELENA FERRANTE e da canadense MARGARET ATWOOD; teve ainda o anúncio (polêmico) da homenagem à poeta norte-americana ELIZABETH BISHOP na Flip 2020 e as visitas (a São Paulo) do israelense YUVAL NOAH HARARI e da norte-americana PATTI SMITH.

De: T. S. Eliot

Detalhe de “A Anunciação”, de Leonardo da Vinci

Do livro “T. S. Eliot – Poemas”, com tradução de Caetano W. Galindo, em edição da Companhia das Letras.

O Cultivo de Árvores de Natal

Há diversas atitudes para com o Natal,

Algumas das quais não valem a pena:

A social, a torpe, a meramente comercial,

A desordeira (bares abertos até meia-noite)

E a infantilizada – que não é da criança

Que acha que a vela é estrela, e que o anjo dourado

De asas abertas do topo da árvore

É não apenas um enfeite, mas anjo.

A criança se espanta com a Árvore:

Que siga no espírito do espanto

Tendo a Festa como evento não aceito por pretexto;

Para que o enlevo reluzente, o encanto

Da primeira lembrança da Árvore,

Para que as surpresas, deleite de novas posses

(Cada uma com um cheiro seu, empolgante).

A expectativa de ganso ou peru

E o pasmo esperado quando surgem,

Para que a reverência e alegria

Não se possam esquecer mais tarde,

No costume, na fadiga, no tédio,

Consciência da morte, consciência do fracasso,

Ou na fé do convertido

Que pode ser maculada por vaidade

Que desagrada a Deus e desrespeita as crianças

(E aqui me lembro também com gratidão

Santa Luzia, seu canto e coroa de fogo):

Para que antes do fim, do octagésimo Natal

(“Octagésimo” significando o que for derradeiro)

As lembranças somadas de emoção anual

Possam concentra-se num grande prazer

Que há também de ser grande medo, como na ocasião

Em que o medo assolou cada alma:

Porque o começo há de lembrar-nos o final

E o primeiro advento, o segundo advento.

The Cultive of Christmas Trees

There are several attitudes towards Christmas,

Some of which we may disregard:

The social, the torpid, the patently commercial,

The rowdy (the pubs being open till midnight),

And the childish – which is not that of the child

For whom the candle is a star, and the gilded angel

Spreading its wings at the summit of the tree

Is not only a decoration, but an angel.

The child wonders at the Christmas Tree:

Let him continue in the spirit of wonder

At the Feast as an event not accepted as a pretext;

So that the glittering rapture, the amazement

Of the first-remembered Christmas Tree,

So that the surprises, delight in new possessions

(Each one with its peculiar and exciting smell),

The expectation of the goose or turkey

And the expected awe on its appearance,

So that the reverence and the gaiety

May not be forgotten in later experience,

In the bored habituation, the fatigue, the tedium,

The awareness of death, the consciousness of failure,

Or in the piety of the convert

Which may be tainted with a self-conceit

Dipleasing to God and direspectful to the children

(And here I remember also with gratitude

St. Lucy, her carol, and her crown of fire):

So that before the end, the eightieth Christmas

(By ‘eightieth’ meaning whichever is the last)

The accumulated memories of annual emotion

May be concentrated into a great joy

Which shall be also a great fear, as on the occasion

When fear came upon every soul:

Because the beginning shall remind us of the end

And the first coming of the second coming.

Livro de Eliane Brum disputa prêmio literário nos EUA

Autora de “Coluna Prestes – O Avesso da Lenda” (1994), “O Olho da Rua” (2008), “A Menina Quebrada” (2013) e “Meus Desacontecimentos – A História da Minha Vida com as Palavras” (2014) e ainda do romance “Uma Duas” (2014), Eliane Brum acaba de estrear na lista de um dos mais prestigiados prêmios literários dos EUA, o National Book Award. A autora entrou para o top ten da premiação deste ano como “The Collector of Leftover Souls”, uma seleção de crônicas e reportagens escritas entre 1999 e 2015 publicada também no Reino Unido.

Um outro título da autora, em português, “Brasil, Construtor de Ruínas”, está chegando hoje, 21/10, às prateleiras, em edição da Arquipélago. Segundo a editora, o livro “narra as transformações de um país que acreditava ter finalmente chegado ao futuro, mas descobriu-se atolado no passado. Partindo das reportagens e artigos de opinião escritos nos últimos anos, especialmente para sua coluna no jornal El País, ela documenta não só as mudanças objetivas, mas também as subjetivas, às vezes mais determinantes…”.

Handke no meio do furacão

O escritor austríaco em foto do jornal “Irish Times”

“Um insulto às vítimas do genocídio” afirmou, em editorial, o jornal The Times. “O que é essa simpatia aos verdugos e não às vítimas?”, indagou a romancista Joyce Carol Oates. “Um apologista de crimes de guerra”, afirmou o filósofo esloveno Slavoj Zizek. “É um bom escritor que combina uma grande profundidade com uma cegueira ética alarmante”, pontuou o britânico Hari Kunzru. “Um idiota”, disse Salman Rushdie. Essas são algumas das manifestações dos últimos dias envolvendo o vencedor do récem-anunciado Nobel 2019 de Literatura, o austríaco Peter Handke.

Desde a quinta-feira passada, Handke vem sendo duramente criticado por suas posições como, por exemplo, em relação à Guerra da Bósnia e sua defesa pública do genocida Slobodan Milosevic. O escritor não só aceitou ser condecorado pelo ex-presidente da Sérvia, condenado por crimes contra a humanidade, como discursou em seu enterro, em 2006. Em março daquele ano, “o carniceiro dos Balcãs” como chegou a ser chamado, foi encontrado morto, aparentemente de causas naturais, em sua cela no centro de detenção do Tribunal de Haia, na Holanda.

A Academia Sueca também se manifestou sobre o assunto. “Não é um prêmio político, é um prêmio literário”, destacou Anders Olsson, membro da instituição.