As narrativas sobre Chernobyl

A escritora Svetlana Aliexévich em foto de Serge Gritis, da AP, publicada pelo The Nation

Abaixo trecho da entrevista concedida pela escritora bielorrussa, Svetlana Aliexévich – Nobel de Literatura em 2015 – publicada recentemente no site do jornal El País. Autora de obras de grande repercursão como “Vozes de Tchernóbil”, publicado aqui em 2016 pela Companhia das Letras e umas das fontes de recente (e comentadíssima) série da HBO sobre o desastre nuclear de 1986, Svetlana comenta temas que vão do atual cenário político em seu país e na Rússia de Putin às diferentes interpretações que se deram ao “horror” e ainda sua relação com sobreviventes da tragédia. No trecho da entrevista a escritora fala sobre os desafios que a explosão da usina nuclear trouxe à linguagem literária. Matéria completa no link https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/07/internacional/1559926054_845405.html. Na sequência, parte do livro publicado pela Companhia das Letras com alguns dados que dão a dimensão da tragédia.

Entrevista ao El País

“Existe uma cultura e uma tradição para a narrativa da guerra, o que permite que o criador tenha certa margem para se mover, talvez explorando-a e ampliando-a no âmbito dessas tradições. Quando escrevi meu livro sobre Chernobyl, porém, não havia um registro cultural para a narração sobre algo tão desconhecido”. Mas existiam obras premonitórias como Piquenique na Estrada (publicado em 1972), dos irmãos Arkádi e Boris Strugátski, um relato sobre seres que ganham a vida saqueando uma zona proibida, que viola as leis da física, após uma grande tragédia. O cineasta russo Andrei Tarkovski levou aquele testemunho às telas com Stalker (1979). “Os irmãos Strugátski e Tarkovski tiveram a genialidade de adivinhar o desconhecido e fizeram uma incursão em outra época, exploraram uma ameaça antes de que esta se abatesse sobre nós.”

Trecho de nota introdutória do livro “Vozes de Tchernóbil”

“Para a pequena Belarús (com uma população de 10 milhões de habitantes), o acidente representou uma desgraça nacional, levando-se em conta que ali não havia nenhuma central atômica. Tratava-se de um país agrário com predomínio de populações rurais. Nos anos da Segunda Guerra Mundial, os nazistas destruíram 619 aldeias no país, com toda a sua população. Depois de Tchernóbil, o país perdeu 485 aldeias: setenta delas estão sepultadas sob a terra para sempre. A mortalidade na guerra foi de um para cada quatro bielorrussos; hoje, um em cada cinco vive em território contaminado. São 2,1 milhões de pessoas, dentre as quais 700 mil crianças. Dentre os fatores de descenso demográfico, a radiação ocupa o primeiro lugar. Nas regiões de Gómel e Moguilióv (as mais afetadas pelo acidente), a mortalidade superou a natalidade em 20%.”

América Latina encolhida

Relatório intitulado “O Espaço do Livro Ibero-Americano 2018” revela que as crises econômicas do Brasil e da Argentina atingiram em cheio o mercado editorial da América Latina. Produzido pelo Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe, apresentado recentemente na Feira do Livro de Madri e comentado aqui em notícia publicada no Estadão, o documento informa que o mercado da Argentina encolheu 23,8% em 2016 e o do Brasil, 12,3% em 2015 e outros 8% em 2016. Em conjunto, a produção de exemplares no continente caiu 39,88% entre os anos de 2013 e 17. Cerca de 128 milhões de volumes a menos na produção de livros no período.

A eclética seleção da Estante

Listas a mancheia. Dessa vez, do blog da Estante Virtual e intitulada “9 Livros para Ler em Junho”. Tem lançamento recente, ensaio e contos. Tem de Chico Buarque a Marie Kondo, a “guru da arrumação”. Abaixo dos títulos, um resumo dos comentários feitos pelo blog.

“Sobre o Autoritarismo Brasileiro”, Lilia Moritz Schwarcz

Um dos principais lançamentos de não ficção de 2019.  

“Maternidade”, Sheila Heti

Também lançado este ano, é um romance provocador e corajoso sobre o desejo e o dever de procriar.  

“O Mundo de Sofia”, Jostein Gaarder

O leitor é convidado a percorrer a história da filosofia ocidental, ao mesmo tempo que se vê envolvido por um thriller que toma rumo surpreendente. 

“A Cinco Passos de Você”, Rachel Lippincott, Mikki Daughtry e Tobias Iacones

Ideal para o público “young adult”, segundo o blog.

“A Mágica da Arrumação”, Marie Kondo

Fenômeno mundial sobre técnicas de organização baseadas na máxima “jogue fora tudo que você não usa há um ano”.

“As Coisas que Perdemos no Fogo”, Mariana Enriquez

Contos que usam o medo e o terror para explorar as várias dimensões da vida contemporânea.

 –“Leite Derramado”, Chico Buarque

Saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do país nos últimos dois séculos.

 –“Gabriela Cravo e Canela”, Jorge Amado

Clássico da literatura brasileira, narra o romance entre o sírio Nacib e a mulata Gabriela na Ilhéus dos anos 20 do século passado.

“Na Contramão da Liberdade”, Timothy Snyder

Outro lançamento de 2019, também trata do autoritarismo. Um vigoroso mergulho na história russa, ucraniana, europeia e norte-americana.

Nirlando desde o princípio

Recebeu nota AA+ (Alta Qualidade) no Caderno Eu&Fim de Semana, do Valor, o livro de memórias do jornalista Nirlando Beirão, “Meus Começos e Meu Fim”, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Beirão nasceu em Belo Horizonte em 1948, é um dos mais conceituados profissionais da sua geração e teve atuação de destaque em veículos como as revistas Veja e Playboy e os jornais Última Hora e O Estado de SP. Em 2016 foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa que ele aborda no livro intercalada com memórias familiares protagonizados por gente como o avó paterno, um jovem padre português que, no começo do século passado, largou a batina para se casar com uma fiel no interior de Minas Gerais.

439 anos na memória da língua portuguesa

Outra memória importante do mês de junho, a morte do poeta português Luís Vaz de Camões completa hoje 439 anos. Ou completaria, se considerada fato ocorrido em 10 de junho de 1580. Sua morte, como a rigor toda sua biografia é motivo de controvérsia entre os pesquisadores. Não se sabe com precisão, por exemplo, seu ano de nascimento. Mestre maior da literatura de língua portuguesa, teve uma produção épica em diferentes gêneros literários sintetizada no seu monumental “Os Lusíadas”, a história do navegador Vasco da Gama contada em um poema com dez cantos, somando 1.102 estrofes e um total de 8.816 versos decassílabos.

Abaixo, o Canto I de “Os Lusíadas”

As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana*,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
…..
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte

*Forma como era conhecido na Idade Média o antigo Ceilão, atual Sri Lanka.